Outros autores - 19 de agosto de 2015 às 01H 07M

Síndrome de Bartebly: criar uma identidade num mundo de máscaras

Por Diogo Guedes

No romance Bartleby e companhia, o escritor catalão Enrique Vila-Matas investiga, por meio de uma ficção, uma síndrome literária. Inspirado no personagem de Herman Melville (o escrivão cujo “prefiro não fazer” continua ecoando hoje nas artes, como uma pulsão atraente até demais), ele começa a reunir no livro os casos de autores que abandonaram de algum modo a escrita, que disseram “não” ao mundo sem motivo aparente. Mulheres e homens que preferiram sumir do campo artístico, simplesmente porque achavam essa uma postura mais coerente, mais digna ou até mais saudável.

“Alguém disse que (Robert) Walser era como um corredor de longa distância que, prestes a ultrapassar a linha de chegada, se detinha surpreendido, olhava para mestres e condiscípulos e abandonava a corrida”, afirma Vila-Matas no romance. O escritor suíço é o primeiro caso citado no livro da síndrome de Bartleby, talvez por ser uma das figuras que melhor a encarna – chegou a ser, como o personagem, um copista. O seu desfecho é trágico: tentou se matar diversas vezes e terminou internado em um hospício, negando-se a voltar a escrever. Dizia que queria se transformar simplesmente em um “zero à esquerda”.

Não é por acaso que o título do romance Associação Robert Walser para sósias anônimos, do escritor pernambucano Tadeu Sarmento, faz referência ao escritor do autoapagamento por excelência. Logo nas primeiras páginas do volume, um dos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014, somos apresentados à associação do título, que reúne pessoas que abandonaram as próprias identidades para se tornarem outros – Woody Allen, Jesus, John Lennon e até Mark Chapman.

O ambiente surreal da obra começa aí, nesse lugar feito para ajudar as pessoas a se recuperarem dessa vontade de se apagar em favor de um modelo já pronto. Um sósia nada mais é do que uma conformação, alguém que se torna a sombra desconhecida de um grande monumento. É através dessa imagem que Tadeu constrói a tensão do seu romance, entre duas pulsões: a de ser a si mesmo e a de fugir completamente de si.

“Isto porque nós, da Associação Robert Walser para Sósias Anônimos, estamos aqui para reaprender a ser nós mesmos, isto é: ninguém”, declara o narrador. É a partir da premissa de que “a paixão de querer ser outra pessoa é sempre menor que a de esquecer quem você é” que o grupo funciona, liderado por um sósia estranho de um só braço, chamado Hussein. A obra ainda anota: “Mark diz que querer ser outra pessoa é sentir raiva de você mesmo, mas sem entusiasmo”.

No fim, trata-se do apagamento de Walser, só que como um sintoma coletivo. Nesse primeiro momento, Associação Robert Walser para sósias anônimos é um livro hilário, que desnuda a surrealidade que ele mesmo cria – inventa um rei só para dar a ele uma ridícula roupa invisível. A paisagem preferida de Mark, por exemplo, é a da janela da instituição, que dá de frente para outra parede cinza, agradável porque não permite dúvidas nem certezas consoladoras.

Em dado momento, o livro parece que vai ficar nessa sucessão de frases de efeito ¬– algumas fantásticas (“ele é pontual como um relógio com dentes dentro”), outras cansativas (como “O escritor é só um mímico que gagueja em outra língua” ou “Quem fracassa com fragor conta com a simpatia idealizada que se tributa a quem foi esmagado pela vida”) – e personagens caminhando a esmo, tentando se encontrar e se afastar de uma só vez. Poderia ser o fracasso de uma boa ideia, uma metáfora envolvente esticada até o seu limite. No entanto, para além da imagem do sósia em uma época em que todos somos alguns avatares em redes sociais, Tadeu vai tecendo uma trama de espionagem absurda, entre o nazismo, Kant, o Paraguai e, claro, imitadores.

Em paralelo à associação, o romance nos leva à cidade de Nueva Konisgberg, que seria fictícia se não já tivesse sido inventada pelo escritor francês Frederic Pagès e seus amigos. Ali, estamos acompanhando um vilarejo ocupado por exilados alemães em meio à Segunda Guerra. Nada de muito diferente: a singularidade é que o local é uma recriação detalhada do lar europeu do filósofo Immanuel Kant. E pior: em uma versão em que todos os habitantes imitam o modelo de vida regrado e até as pequenas excentricidades do autor de Crítica da razão pura. Como as biografias de Kant dizem que ele nunca suava, nem nas suas caminhadas, a vila tem como lema: “Sejamos isotérmicos”.
Pagès enganou muita gente quando o seu livro, A vida sexual de Immanuel Kant, foi lançado – do Le Monde Diplomatique à revista Veja. A obra se vendia como o trabalho de um filósofo francês obscuro, Jean-Baptiste Botul, que teria proferido suas conferências na cidade paraguaia. Pagès, Botul e a cidade viram personagens de Tadeu, conectados de forma simbólica (e talvez até tátil) aos sósias da outra narrativa.

Dentro do livro, então, só há simulacro. A farsa faz referência a outra farsa, como num jogo de xadrez entre Borges e Escher. De novo, Tadeu parece correr o risco de fazer uma narrativa que seja puro artifício, uma simples elaboração sem finalidade que não a de exibir a própria destreza da ideia. Até por isso, o livro opta por demorar bastante na preparação da trama antes de dispará-la.

Associação Robert Walser para sósias anônimos, no entanto, parece ter conseguido evitar o perigo de ser uma narrativa para amantes de livros, obra em que é preciso exibir um crachá de literato para adentrar. Claro, conhecer a obra de Walser e ir atrás da história de Pagès acrescenta saborosas doses de ironia a tudo que está escrito, mas de jeito nenhum é indispensável.

O narrador do romance, por exemplo, revela que se tornou sósia para agradar uma mulher que viu em um sebo. Vê o interesse dela por um autor e passa, aos poucos, a imitá-lo em gestos, aparência e até na forma de falar. A farsa, nesse caso, é um risco tão humano quanto literário: fingir ser outro para agradar alguém é um modelo demasiadamente humano e até eficiente, mas que costuma terminar em frustração. Nós sabemos bem: afinal, não estamos hoje em meio a um tiroteio de possíveis subjetividades, que forjamos com citações no Facebook, matérias compartilhadas no Twitter, fotos no Instagram ou até escrevendo livros?

Romance maduro

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O mais extenso dos livros do Prêmio Pernambuco de Literatura, Associação Robert Walser para sósias anônimos talvez seja também o mais maduro dessa segunda edição. Todos os demais autores estão nos seus primeiros volumes, com poéticas e narrativas fortes, mas com arestas para aparar ainda. Tadeu, com seus dois livros publicados e outros dez inéditos, disponibilizados na internet, já testou vários formatos na prosa e na poesia e sabe manter o seu romance em pé.

Os capítulos são curtos, fechados e mantêm a história viva. Mesmo que a narrativa seja absurda, ela não cai no erro de ser explicada demais. É bem elaborada e conectada, cheia de brincadeiras e autoironias – o autor consegue ir elaborando as várias facetas de sósias e falseamentos sem fazer delas um ensaio propriamente dito, sem precisar parar o livro repentinamente para criar um momento de reflexão. Falar de imitadores de Woody Allen ou Kant, por exemplo, não leva a parágrafos que interpretam as suas obras.

Além disso, sua forma de contar a história passa por uma verborragia singular, em que um tom titubeante sempre se faz presente. Esse, aliás, é dos poucos problemas do livro: o excesso de estruturas repetidas que expressam a dúvida ou imprecisão do que é mostrado (“Ninguém estava entendendo nada, ou entendendo bem pouco”; “Quem usa uma Luger está dizendo que não deixará testemunhas. Ou que não pode deixá-las, o que dá no mesmo”; e “Nós não nos depreciamos. O que não significa dizer que nos apreciamos”, por exemplo). Tantos casos poderiam ser perdoados como a voz de um dos personagens, mas eles aparecem em diálogos e relatos distintos, soando como uma mera fórmula que o leitor logo descobre.

Com falsas pistas, sintomas da crise de identidade contemporânea e ironias, Associação Robert Walser para sósias anônimos é um romance que se conecta com uma ficção não realista, inventiva porque o absurdo parece uma forma mais sincera de falar da atualidade. Como parte desses outros autores, Tadeu vai falar do vazio e da melancolia, mas sem transformar o livro em uma obra tediosa. Na verdade, ela nos provoca: em diferentes medidas, somos todos uns impostores conscientes. Cabe a cada um achar sua própria Associação Robert Walser, para resgatar ou criar uma personalidade em um mundo feito de máscaras.

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