Mano Ferreira - 13 de julho de 2015 às 14H 59M

Um breve diagnóstico da nossa educação através das redações do Enem

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Desde a reformulação do modelo de vestibulares na seleção de estudantes para o ensino superior, em 2012, o Exame Nacional do Ensino Médio tornou-se um ponto central para todo o sistema educacional brasileiro e passou a ser a nossa grande ferramenta de diagnóstico. Sendo assim, é muito interessante pensar no seguinte: o que o Enem tem a nos dizer sobre o desenvolvimento das habilidades para formulação de ideias dos estudantes do nosso ciclo de educação básica?

Uma boa chave para essa análise nos foi dada pelo excelente Joel Pinheiro da Fonseca, um dos colaboradores da próxima edição da Revista Café Colombo. Em artigo na última edição de Ilustríssima, da Folha de São Paulo, Joel escreveu sobre os espelhos de correção das redações do Enem que obtiveram nota máxima e foram recentemente divulgados pelo Ministério da Educação como os grandes exemplos a serem seguidos pelos milhões de estudantes de todo o país.

Com o tema da publicidade infantil, as redações de maior nota no Enem revelam o viés ideológico do ensino médio no Brasil. Com um discurso antimercado e citações de figurões do pensamento ocidental, jovens evitam falar de sua própria experiência e demonstram desconhecer as regras do capitalismo.

Destaco um ponto que sempre me intrigou sobre uma recomendação canônica entre os professores de redação e os cursos preparatórios:

Nossos estudantes aprendem que a menção a medalhões do pensamento – muitas vezes mal colocada – é preferível às suas próprias ideias e pensamentos. A supressão da primeira pessoa é, diga-se de passagem, uma exigência rígida de estilo nas redações, ensinada em colégios e cursinhos e observada por todos.

Confira um trecho, mas recomendamos a leitura completa desse artigo, que vale 5 expressos deste Café Colombo:

Vendo as redações com nota máxima do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014 que começaram a ser veiculadas na mídia em maio, quando o MEC liberou a consulta aos espelhos da correção oficial, penso não na publicidade infantil, tema da prova, mas na propaganda ideológica juvenil, também presente nos textos.

Essa modalidade de propaganda é transmitida principalmente nas aulas de humanas do ensino médio a jovens que estão engatinhando na vida intelectual. Ainda despreparados para formular suas próprias ideias, matam essa capacidade do berço e compram com facilidade os discursos e as formas de pensar a eles vendidas.

Faz mais de uma década que terminei o ensino médio e constato que nada mudou.

O fim da Guerra Fria continua sendo o mais importante referencial histórico; o mundo desde então estacionou sob o jugo do capitalismo. O capitalismo, por sua vez, gera intencionlamente a doença do consumismo para que as pessoas comprem sempre mais, caso contrário o sistema ruiria sob o excesso de produção. A mídia exerce o papel de controladora quase onipontente dos desejos humanos, incittando-os ao consumo desmedido. As crianças são especialmente indefesas. E o Estado é a principal ou mesmo a única instância que visa nosso bem e que pode nos proteger.

Partindo desse esquema básico, praticamente todas as redações chegam à mesma conclusão: a publicidade infantil deve ser proibida ou sofrer pesadas restrições.

É curioso que, na era da internet, dos smartphones, do Youtube, tablets e redes sociais, nada disso sequer seja mencionado em redações sobre a relação das crianças com a comunicação eletrônica. A vida mudou, os hábitos são outros, mas o discurso sobre o tema continua preso à imagem da criança sozinha em casa na frente da televisão sem qualquer outro contato com o mundo externo.

Da mesma forma, ninguém menciona a queda histórica da receita com publicidade, seja televisiva, impressa ou mesmo online. Simplesmente atribuem poderes imensos a uma indústria em processo de fragmentação e cujos principais atores passam por uma crise profunda.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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