Mano Ferreira - 18 de março de 2015 às 11H 54M

Um humanismo bem temperado: entrevista com Tzvetan Todorov

todorov e berlin

Por Eduardo Cesar Maia

Excelente entrevista com Todorov para a excelente Revista de Occidente, criada por Ortega y Gasset e na ativa até hoje. Separo aqui dois trechos da apresentação. O episódio com Isaiah Berlin é esclarecedor e ensejaria um ensaio sobre as pretensões (e desilusões) da crítica e da teoria literárias no século 20.

“Todorov tinha seus motivos para manter aquela atitude de distância. Na Bulgaria havia crescido em um ambiente em que a ideologia era tão onipresente que também se fazia sentir no estudo da literatura. A teoria literaria se dedicava basicamente a avaliar as obras em função de sua correção marxista-leninista. Um enfoque puramente formal, como o que Todorov descubriu no estruturalismo, constituia um remédio eficaz frente a este método: a única resposta lúcida à firmeza do sistema comunista, que havia tomado desde a Bulgaria até a França, era a indiferança política e esta parecia armonizar bem com o enfoque estruturalista. Porém, essa indiferença também começou a oscilar quando, depois de outra conferência na Inglaterra, Arthur Koestler lhe disse, em tom tão amável quanto firme, que via pouco futuro em sua atitude fatalista de manter-se à margem.

Isaiah Berlin, que assistiu uma conferência dele sobre Henry James em Oxford, tirou sua ilusão ao observar, durante o coquetel que se seguiu à conferência, com uma amabilidade um tanto distanciada: “Henry James, estruturas narrativas, hum, vejo! Mas por que você não se ocupa de coisas como o niilismo e o liberalismo no século XIX? Isso é muito interessante!”. Aquela observação o impressionou, porque Berlin, um russo de nascimento, havia vivido a mesma transformação cultural que ele, mas tinha que admitir que havia sabido refletir indubitavelmente melhor sobre essa experiência de “ser diferente”. Aparentemente, o distanciamento não era o melhor caminho para compreender as molas que movem as pessoas, e – como iria descobrir pouco a pouco – esse era o propósito da literatura.”

Leia o texto completo, em espanhol, aqui.

Como complemento, vale a leitura de um texto que escrevi em 2008, usando algumas concepções filosóficas de Isaiah Berlin para falar de Grande Sertão: Veredas.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

Comentários

desenvolvido por Shamá