Mano Ferreira - 28 de janeiro de 2015 às 20H 20M

Uma reflexão sobre educação e autoridade

 

José-Antonio-Marina

por Eduardo Cesar Maia

Em entrevista para a excelente Jotdown, o escritor e acadêmico espanhol José Antonio Marina defende com veemência (e bons argumentos) o ensino de filosofia nas escolas. Além disso, ele trata de um tema polêmico – e bastante atual – que diz respeito a qualquer professor em nossos dias: a questão do uso da autoridade.

Marina, que escreveu o livro A recuperação da autoridade, acredita que houve um momento de transição, a partir da década de 1960, entre modelos de sociedade. Segundo ele, saímos de uma forma de sociedade autoritária, baseada em valores de respeito e hierarquias, para uma sociedade completamente permissiva, em que qualquer proibição é vista como arbitrariedade.

José Antonio Marina não é defensor de uma volta ao modelo anterior, essencialmente autoritário, mas de que repensemos o valor, para a educação, da autoridade, entendida como o uso legítimo e justo das prerrogativas hierárquicas, seja na escola ou na família. Para ele,

O sistema autoritário tinha algo de bom, por isso durou tanto. Baseava-se em dois aspectos fundamentais para a educação: a obediência e o senso de dever. Deixavam-se de fora outros dois: a liberdade e o pensamento crítico, e, por outra parte, a reclamação de direitos. Era uma sociedade muito submissa. Do ponto de vista educativo, as pessoas submissas são muito cômodas: assistem, aprendem e calam.

joseantoniomarina-arecuperacaodaautoridadeForam as gerações criadas nesse sistema autoritário que pensaram que tinham que recuperar os outros aspectos fundamentais. E foram recuperados, mas os dois primeiros se perderam. Fomentamos durante muitos anos uma educação baseada só na liberdade e na reclamação de direitos, que é o modelo da sociedade permissiva. Esqueceu-se da obediência, a obediência à norma; o compromisso ético e, por outra parte, o senso de dever. Agora temos que ver em quais devidas porções é possível recuperar esses quatro aspectos igualmente necessários. Não podemos viver só de direitos se não cumprimos os deveres. E não podemos viver só de liberdade se não estamos também dispostos a vinculá-la a normas éticas, a certos valores.

É preciso distinguir duas questões: a autoridade, entendida como autoritarismo, desaparece por muito boas razões; estava ligada ao sistema patriarcal, a um sistema de doutrinação religiosa, a uma ausência de pensamento crítico. Então, fizemos muito bem em mudar isso. Mas acho que perdemos um pouco a mão. Não tivemos um bom sistema de freios, passamos do limite. Voltar atrás é muito complicado; temos que começar outra vez a explicar as coisas. Temos que explicar que, no fundo, quando estamos falando de autoridade, nos referimos a uma acepção muito bonita, que procede do direito romano. Pode-se influenciar uma pessoa por coação ou por autoridade. A coação é quando eu te imponho algo, acabou o assunto. A Lei Penal, por exemplo, é um sistema coativo. Diferentemente, quando algo se impõe por autoridade, se impõe pelo respeito que causa o ordenamento ou a instituição. É um sentimento que se baseia na excelência. Por isso, devem estar ligados: quando uma pessoa quer ter autoridade deve merecer o respeito, conquistá-lo. Isso se mantém ainda em uma expressão conhecida: “É uma autoridade em medicina”. É o tipo de autoridade que devemos recuperar.

A entrevista na íntegra, em espanhol, está disponível aqui.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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