Outros autores - 26 de agosto de 2015 às 15H 24M

A música sertaneja como trilha sonora do desenvolvimento brasileiro

Historiador Gustavo Alonso tece uma genalogia do gênero musical em meio às mudanças socioeconômicas, políticas e culturais dos últimos cinquenta anos

Historiador Gustavo Alonso tece uma genalogia do gênero musical em meio às mudanças socioeconômicas, políticas e culturais dos últimos cinquenta anos

Por Christina Fuscaldo

Será que os fãs do atual sertanejo se recordam de que Zezé Di Camargo & Luciano acusavam os sertanejos universitários de “repetentes” lá por volta de 2008? Será que sabem que o ex-presidente Lula agradeceu ao cantor Dalvan por sua primeira eleição para deputado federal? Muitos atribuem o sucesso da música sertaneja à TV Globo, mas alguém se lembra de que a dupla Chitãozinho & Xororó vendeu 1 milhão de discos em 1982 sem aparecer na emissora? E de que Caetano Veloso produziu e interpretou a trilha sonora de “2 filhos de Francisco”? Alguém por acaso sabe como a internet ajudou a criar o sertanejo universitário? Ou por que Michel Teló só fez o primeiro show no Rio de Janeiro depois do sucesso mundial de “Ai se eu te pego”?

Essas são só algumas das questões, histórias ou polêmicas abordadas em Cowboys do asfalto – Música sertaneja e modernização brasileira, livro do historiador Gustavo Alonso que será lançado no dia 31 de agosto, às 19h, no Centro de Convenções, em Olinda, durante a programação da Feira Nordestina do Livro, a Fenelivro.

Autor de Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, Alonso encantou-se pelo tema do novo livro durante o período em que morou na França, em um intercâmbio sanduíche oferecido pelo seu programa de doutorado. Não imaginou, entretanto, que sua investigação iria tão longe. A princípio, a ideia era escrever uma tese sobre a nacionalização do sertanejo no início dos anos 1990, mas, diante de tantas e tão profundas descobertas, percebeu que, como ele mesmo diz, o “buraco era
mais embaixo”.

cowboys do asfaltoGustavo Alonso defendeu sua tese em 2011, mas não se deu por satisfeito. O resultado de oito anos de pesquisa está em Cowboys do asfalto, que conta a história do gênero mais famoso do país em meio às mudanças socioeconômicas, políticas e culturais dos últimos cinquenta anos, ou seja, a história da urbanização, industrialização e modernização brasileira vistas através da música sertaneja.

“Eu era adolescente no início dos anos 1990 e me lembro bem do sucesso sertanejo. E me lembrava da acusação, muito comum entre os críticos, de que a música sertaneja era “a trilha sonora da Era Collor”. Quis investigar isso, mas logo percebi que o buraco era mais embaixo. Diante da vontade de me aprofundar no tema, passei a ler tudo que havia sobre a música sertaneja. Para minha surpresa, havia muito pouco material sobre um gênero tão rico. Passei, então, a fazer pesquisa em arquivos digitais e físicos, folheando jornais, revistas da época, buscando entrevistas, programas de TV, filmes, de forma a melhor mapear os debates em torno da música sertaneja. Visitava sebos com frequência, em busca dos LPs sertanejos. Busquei também entrevistar todos aqueles envolvidos na cena sertaneja da época. Muitos não cederam entrevista, mas muitos contribuíram, especialmente empresários, produtores, compositores, músicos e, claro, algumas duplas”, conta Gustavo.

Doutor pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Gustavo Alonso mergulhou fundo na origem das músicas caipira e sertaneja para provar que os gêneros são tão brasileiros quanto o samba, a bossa nova, o forró e o rock, mesmo com a incorporação, da década de 1950 em diante, do bolero mexicano, da guarânia paraguaia, do chamamé argentino e até do country americano.

O sucesso que ecoou no país depois da explosão de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano é a consequência de um processo que vinha se desenrolando há muitas décadas. “Acho importante perceber que o sucesso da música sertaneja não foi por acaso. Nem muito menos fruto pura e simplesmente da indústria cultural, como muitos simplificadamente pensam. A música sertaneja é tão produto do Brasil quanto o samba, o tropicalismo, a bossa nova. E isto não está explicado de forma clara em nenhum lugar, pois nossos escritores simplesmente ignoraram qualquer coisa relativa ao tema. Esse é o principal ganho do livro: aprofundar o estudo da música brasileira através de um objeto, a música sertaneja, nunca contemplado de verdade por nossos escritores”, afirma o autor.

Com informações da assessoria.

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