Mano Ferreira - 28 de outubro de 2015 às 20H 55M

Com tom barroco, Hugo Siqueira de Souza estreia na poesia

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Igreja de São Lourenço de Nuremberg após bombardeio da 2ª guerra: fotografia de autor desconhecido ilustra capa do livro

Vencedor do Prêmio Waldemar Lopes, da Academia Pernambucana de Letras, em 2013, o poeta Hugo Siqueira de Souza acaba de publicar, com edição própria, o seu primeiro livro de poemas, Doce é a luz e alguns versos de guerra. O volume está disponível para venda na Livraria Jaqueira, na Zona Norte do Recife, e inclui os dez sonetos premiados pela APL, além de poemas em verso livre.

Hugo é bacharel em direito e servidor do Tribunal Regional Federal da 5ª Região. Somos amigos próximos desde os tempos do Colégio de Aplicação, onde iniciamos o gosto pela literatura, e tive a honra de escrever o posfácio do livro, que compartilho a seguir:

Doce é a luz e alguns versos de guerra

 

Meu Deus, o infinito é longe,
mas perto do meu desejo.
(Daniel Lima)

– Existiria arte se fosse equilibrada a vida?

A paixão era tanta que a resposta vinha acelerada: a arte é uma bengala elegante, nos sustenta ao desequilíbrio como orna o andar seguro. (Se a acepção de ornamento varia tanto quanto a de elegância não importa, mas aquela resposta nos dizia muito, o que evidentemente entrega motivos aos versos de Anacrônico, um dos poemas presentes no livro).

hugo siqueira

Hugo Siqueira de Souza

O contato com a personalidade intransferível do poeta Hugo Siqueira de Souza me remete a uma série inabalável de lembranças como essa. Hugo torna substantivo o conceito de individualidade, recuperando a concepção humboldtiana de auto-cultivo. Assim também é sua obra: a vazão de uma voz única, e por isso mesmo cheia de outros, mas sem a pretensão ingênua de uma originalidade estéril deslocada da história, e com a consciência perpétua de sua construção em processo.

Este é um livro de estreia. Fosse uma equipe esportiva, seria o início de campeonato de um forte concorrente ao título: há momentos de talento latente e jogadas raras, como também outros a pedir maior entrosamento e ritmo de jogo, ajustes que só são possíveis com o decorrer das partidas. Tomar essa impressão como um demérito seria não compreender o próprio sentido da publicação, pois reside aí a importância da estreia, bem como da crítica.

O leitor encontrará aqui uma escrita convicta, sobretudo, de que não há voz possível sem diálogo. E tanto melhor quando buscamos à conversa, além dos vários que nos habitam, o melhor da tradição que nos precede.

Estas páginas são compostas de duas obras: Doce é a luz, de forte inspiração religiosa; e Alguns versos de guerra, de clara conotação bélica, diversidade que já denuncia grande influência do barroco. Neste sentido é imperioso afirmar a presença da busca da transcendência através da poesia, impressa através da profunda relação com o sentido sagrado impregnado nas coisas, característica que também revela a forte marca de referência deixada por poetas da linhagem de Ângelo Monteiro e Daniel Lima.

A leitura especialmente dos sonetos deixa evidente o quanto se preza pela forma, sem dela tornar-se escravo. “É preciso que a poesia seja / a fagulha incontida / de um instante de plenitude”, o que seguramente não seria possível sem o domínio da técnica. Dessa atenção se explica a presença, em meio à poesia, de exercícios poéticos. E graças a esse valor nos é possível admirar o ritmo e a musicalidade, conquistados em grande escala e desenvoltura, também no verso livre: “Tão doce, tão doce”.

Doce é a luz divide-se em três partes: a primeira, homônima; a segunda, As dobras da treva; e a terceira, Reluzir.

Arrisco dizer que a primeira canta em torno de um ideal – de beleza, virtude, bondade –, o que pode nos remeter a um certo platonismo, mas sobretudo a um desejo edênico, uma comunhão com o paraíso imaginado: “De que vale viver sem infinito, / Atando o coração ao que se passa / Sem ter um amor eterno que nos faça / Ser um só, sem mentira e sem conflito?”

A segunda parte escancara a existência de um tumulto frente à perfeição: o medo, a morte, a dúvida. As dobras da treva nos passam na cara as dores da existência, a incompletude da vida, o horror da negação. “Tenho medo de temer. / Até o fim, temerei. // Num grito absoluto, / No silêncio, / Temerei.”

A terceira parte é como uma síntese dialética da contradição apresentada: assimila o sofrimento e o desejo para reluzir com esperança; traz a maturidade de viver diante do imperfeito; ergue, enfim, a voz de sujeito capaz de gerir o mal-estar. “Toda dor / carrega em si / o pavor / da eternidade. // E a eternidade foi ontem”.

E então chegam rapidamente os versos de guerra, como se pra lembrar que não há vida sem conflito. “Porque a guerra é o que dá sentido à vida / E o sonho é o que dá sentido à guerra”.

Assim me volto à recordação inicial. Pois a pergunta ainda ecoa, transformada: existiria vida se ela fosse equilibrada?

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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