Luiz Ribeiro - 18 de março de 2019 às 15H 26M

Don’t think twice, it’s alright

Filosofia, psicanálise e literatura em “a vida útil do fim do mundo”, de Matheus Rocha

 

Dos tempos em que se entendia por poiesis até os dias de hoje, a literatura é uma das mais antigas e enigmáticas linguagens artísticas. Encerrá-la em um conceito-chave foi e é um desafio para muitos pensadores e teóricos, que vão de Aristóteles e Terry Eagleton, crítico marxista do século XX, a Lourival Holanda, ensaísta pernambucano. Autor do livro “Realidade Inominada”, Holanda debate os limites das teorias e sistemas fixos que tentam explicar a arte da escrita em sua totalidade. Ele reflete: “pedir à literatura toda clareza é jogar xadrez com a regra do dominó”.

Aliada à essa premissa, podemos pensar na oposição entre literatura e filosofia, postulada primeiramente por Platão, e discutida séculos mais tarde por nomes como, por exemplo, Albert Camus. Segundo esse pensador francês, no ensaio “O Mito de Sísifo”, tal oposição seria vaga na contemporaneidade. Para Camus, “não há fronteiras entre as disciplinas que o homem emprega para compreender e amar. Elas se interpenetram e a mesma angústia as confunde”.

De maneira semelhante, a escrita que Matheus Rocha, jovem escritor de Garanhuns, nos oferece em “a vida útil do fim do mundo” – assim mesmo, sem maiúsculas – é uma literatura que não pretende ser de fácil entendimento. Ao abandonar a clareza em nome do enigma que é a literatura, Rocha flerta com a filosofia e subverte as fronteiras entre essas duas instâncias nas quais é possível pensar o real e o irreal.

Dividido em onze contos, “a vida útil do fim do mundo” é o segundo livro de Rocha. No primeiro conto, intitulado “Silhueta”, ele faz jus a mistura entre ensaio e ficção quando descreve a perspectiva do próprio recém-nascido ao vir ao mundo. Este último, que num primeiro momento não entende a dor e o motivo de estar ali, aos poucos apreende e é apreendido pela linguagem num sentido lato, ou seja, tudo aquilo criado pelos seres humanos que dá sentido e forma ao mundo. De forte cunho existencialista, “Silhueta” se apresenta como uma abertura interessante para o livro.

 

Nascer é outro modo de Ulisses enfurecer Polifemo: também aqui, Ninguém cegou um mundo inteiro. Era ninguém, e era desesperador ser ninguém: sem rosto, só grito.

(“Silhueta”, em “a vida útil do fim do mundo”, de Matheus Rocha)

 

Psicólogo de formação, Rocha adiciona ainda um terceiro elemento para compor a obra: a psicanálise. No terceiro conto, intitulado “Os Lados de Um Ovo”, somos envolvidos na narrativa em primeira pessoa de um psicanalista que descreve, não sem algum desprezo, tudo o que seus pacientes podem sentir nos cinquenta minutos de uma sessão. Há algo de egocentrismo e niilismo no narrador, ao criticar aqueles que buscam um tipo de felicidade, segundo ele, falsa.

Ao longo da leitura, é perceptível a não-linearidade dos contos. Cada um se difere do outro, seja em estrutura ou conteúdo, variando no grau de experimentalismo. “Pequena Noite Sem Fim” é uma carta de um amante para outro. Não há muitas nuances. Por outro lado, a linguagem de “Esclerótica”, em menos de duas páginas, nos leva a pender entre a experiência contada pelo narrador e o fato de que, quando essa percepção é deixada de lado, tudo torna-se um grande espelho: somos projetados para dentro da narrativa.

No entanto, dois contos específicos parecem mal-escritos e confusos: “Sinfonia para Cotidianos Portáteis” trata da rotina repetitiva de um pai de família e como ela pode ser frustrante. O final trágico parece mais uma tentativa de findar a história com uma grande catarse. O ritmo e o enredo descarrilam. O impacto pretendido não acontece. Em “Você Mete?”, acompanhamos um homem que espera por alguém nas ruas do Recife. Banal, não resultaria em grandes prejuízos caso fosse retirado do livro.

Numa espécie de elipse, tudo começa em “Silhueta” e termina no conto homônimo “A Vida Útil do Fim do Mundo”: em alusão a Raimundo Carrero, ilustre novelista pernambucano, a obra se despede em meio a embriaguez e a crescente melancolia da quarta-feira de carnaval. Assim como em “Tangolomango” e “Maçã Agreste”, de Carrero, Recife é a terra do caos e da boemia de carnaval. Entretanto, distintamente das personagens, o narrador tem algo de estrangeiro em meio aos dias de Momo:

 

Ancorado no inferno, resta observar de pé e com todo espanto possível as coisas explodirem, estilhaçarem – confetes e serpentinas em nome do prazer.

[…]

Vai, porque ninguém sabe como vai ser. Nem quando vai ser. Ninguém sabe, também, se dói.

Será possível algo doer mais do que viver?

(“A vida útil do fim do mundo”, conto homônimo do livro)

 

A dor, aliás, permeia a obra do começo até o fim, em formas e impressões bem diferentes: observamos a dor do nascimento, a dor de não ser quem se pretende ser, de estar só em um país que não o seu, a frustração da rotina e, por último, a dor e a estranheza da melancolia carnavalesca. Isso se deriva, talvez, das próprias experiências do autor, bem como de sua declarada influência por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, cujos romances, poemas e contos, bem dizer, exploram inúmeros traumas e conflitos acerca da existência.

Nem global, nem local, Rocha abarca em sua escrita múltiplas referências tradicionais e cosmopolitas e as exprime em contos que, estranhamente, de tão diferentes parecem completar-se. Em “a vida útil do fim do mundo”, revela-se como um escritor que, mesmo com alguns erros e tropeços, apresenta potencial para expandir o escopo temático e formal da cena literária pernambucana. Aguardemos o que ele fará a seguir, sem exigir, é claro, nenhuma clareza ou rotulação de sua literatura.

Luiz Ribeiro

Instrumentista e compositor pernambucano. Fundador da banda Rasga Mortalha. Trabalha na Café Colombo e é graduando do bacharelado em Comunicação Social. Escreve sobre música, cinema e literatura.

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