Eduardo Cesar Maia - 19 de agosto de 2014 às 21H 40M

O José Serra de sempre, uma resenha de “Cinquenta anos esta noite”

José Serra

Por Renato Lima

 

Não espere revelações bombásticas ou análises complexas e originais sobre o processo que levou à ruptura democrática no mais recente livro de José Serra, Cinquenta anos esta noite: o golpe, a ditadura e o exílio (Record, 2014). O melhor do livro são as banalidades – os problemas miúdos do exílio, as dificuldades de traçar uma carreira acadêmica ao lado de uma militância política, o primeiro e único porre (que foi de pisco sour, na Bolívia).

A obra tem início pelos momentos finais do governo Goulart. Serra, então presidente da UNE aos 22 anos, relata reuniões com os mais importantes atores políticos daquele momento, como o próprio presidente, e ainda Juscelino, Brizola e Miguel Arraes (a quem apoiava entre os possíveis presidenciáveis e mantinha contatos). Como principal liderança estudantil daquele momento, Serra lutava por mudanças no ensino universitário e por reformas econômicas – boa parte delas uma agenda do atraso, como a ideia de estatizar refinarias. Ele pouco reconhece os erros de agenda que ele próprio defendia enquanto estudante – embora observe que só foi aprender economia muitos anos depois. E começando por Lênin…

Serra viveu o exílio duplamente – primeiro do Brasil em 1964 e depois do Chile, quando lá estava trabalhando até o golpe de Estado que alçou Pinochet ao comando do país, em 1973. Este último evento o levou aos Estados Unidos para fazer doutorado em Cornell. Fluente em espanhol e francês, tinha dificuldades no inglês e sofreu para ser professor assistente, um cargo dado a estudantes de doutorado. Serra transcreve uma avaliação de um aluno que reclama da sua incapacidade de falar o inglês, “poor José…”. Apesar dessa dificuldade, foi nos EUA que maturou sua atividade acadêmica e chegou a trabalhar em Princeton com Albert Hirschman, um dos mais importantes economistas do século XX.

É comum em biografias tentar supervalorizar a participação do autor em momentos históricos ou adocicar algumas memórias. “Cinquenta anos esta noite” não parece sofrer deste problema. Serra sai muito próximo à sua imagem pública: um homem essencialmente chato, microgerenciador, sisudo e casado com a política. Chegam a ser engraçadas as fixações do político paulista. A toda hora lembra do seu antitabagismo e de que nunca foi de curtir drogas, nem nos psicodélicos anos 60. Chegou a estar no mesmo avião dos Beatles numa viagem e alega não saber de quem se tratavam. A surpresa pessoal talvez seja pelas veleidades artísticas – Serra gosta de teatro e chegou a atuar como protagonista da peça Vento forte para papagaio subir de José Celso. Da experiência teatral ele destaca a capacidade de memorizar textos e assim fazer discursos políticos. O Serra de sempre.

Eduardo Cesar Maia

Editor da revista Café Colombo e professor de comunicação na UFPE, Eduardo Cesar Maia é jornalista, mestre em filosofia pela Universidade de Salamanca e doutor em Teoria da Literatura. Trabalhou na revista Continente.

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