Outros autores - 17 de março de 2017 às 18H 18M

O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos

Por Hugo Viana

Capa O sonambulo amador.indd
Foi com O sonâmbulo amador que José Luiz Passos conquistou espaço importante na literatura contemporânea. O livro recebeu críticas favoráveis e o prêmio Portugal Telecom; além disso, o trabalho de Passos como professor de literatura na UCLA indica proximidade do mercado de língua inglesa, sugerindo visibilidade e possibilidades de tradução.

O livro, segundo romance do autor, apresenta Jurandir, narrador-personagem que relata em quatro cadernos seu conflito existencial, sua condição fragilizada por fantasmas passados. Jurandir parece desses personagens que com o tempo costumam superar o livro, o autor; tornam-se memoráveis pelo que apresentam de contraditório e vagamente familiar.

Não apenas Jurandir, mas outros personagens surgem como figuras humanas complexas que através de falas, gestos e silêncios parecem reproduzir comportamentos que geram empatia. Em poucos trechos é possível entender não apenas a camada superficial do que está em jogo nas relações entre esses personagens, mas também a insinuação de uma agitação interior.

Jurandir é um funcionário da indústria têxtil, chefe de segurança numa empresa de tecelagem no interior de Pernambuco, nos anos 1960. Ele é incumbido de viajar para o Recife para resolver um processo trabalhista, mas, no percurso, sem motivo aparente, incendeia o carro da firma e é internado numa clínica psiquiátrica em Olinda. O livro é composto por sonhos, relatos da juventude, a rotina do protagonista— para, assim, apresentar sua complexidade emocional.

É interessante a maneira como o autor trabalha a ideia de tempo. As datas deixam de ser informações normativas, notificações sobre eventos que aconteceram em determinado momento, e se tornam motivações dramáticas essenciais; o tempo influi na construção emocional dos personagens, interfere na compreensão de sentimentos e ações.

Fatos do passado modificam os personagens, comportamentos do presente se conectam com fatalidades prévias ou implicam ocorrências futuras. O autor alinha diferentes períodos num mesmo capítulo, às vezes num mesmo parágrafo, e aos poucos surge um intrincado panorama emocional.

Nessa combinação, a nostalgia parece um elemento fundamental para interpretar acontecimentos. Há na narrativa instantes decisivos, cenas que redefinem a relação com os personagens e com o enredo; sequências que depois de expostas retornam e repercutem no íntimo do protagonista.

Jurandir observa a mudança gradual no ambiente e de alguma forma é modificado pela experiência. A paisagem pernambucana reflete o interior do protagonista, seu descompasso entre sentimento e ação; as lembranças de um período anterior e as transformações urbanas do presente, as ruínas de um espaço perdido, parecem sugerir certas alegorias fundamentais para compreender o personagem.

A maneira como José Luiz explora essa relação entre cidade e afetos sugere que sua literatura busca no passado verídico as bases para a escrita de ficção. É possível imaginar, por exemplo, que algum enredo futuro seja sobre o que ocorre no Cais José Estelita – e, dependendo do resultado do atual imbróglio político, o assunto seja abordado como uma amarga constatação do peso da realidade sobre notáveis anônimos. Um personagem que caminharia em silêncio ao lado de uma muralha de prédios, resignado por derrotas passadas.

A construção do romance é feita de pequenos detalhes, o tipo de refrigerante comprado, as características da paisagem. A descrição em excesso parece menos uma espécie de oficina para exercitar a escrita criativa e mais uma forma de se posicionar politicamente: o exame atento da realidade, do Passado, da História, como recurso para compreender o Recife e os personagens. O prazer pela narração alongada e a atração por enredos que sugerem um horizonte amplo de eventos identificam Passos com um tipo peculiar de contador de histórias.

José Luiz parece administrar o potencial de sua narrativa com controle e percepção de comando; o enredo cresce em ritmo gradual, as sequências de tensão — sexual, física, emocional — engendram uma dramaticidade que evolui com precisão e ao mesmo tempo delicadamente; o escritor carrega o leitor exatamente para onde quer.

Essas características marcantes do livro também indicam certo incômodo: parece restar pouco espaço para a imaginação do leitor, ou talvez um espaço de alcance premeditado, de possibilidades previamente estabelecidas; a dúvida sobre os atos e a ambiguidade a respeito de certos gestos são provocadas em medidas controladas pelo autor através de uma rígida esquadra de palavras, restando ao leitor a operação ocasionalmente frustrante de ligar pontos.

A forma como o autor ergue um perfil psicológico tocante no que há de brutalmente genuíno coloca o romance de José Luiz entre os mais intrigantes da produção contemporânea. Como Passos indica em seu ensaio sobre Machado de Assis (grande influência neste romance), Romance com pessoas, descobrir grandes livros envolve conhecer aquilo que torna personagens voláteis, imprevisíveis e essencialmente humanos.

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