Thiago Corrêa - 15 de fevereiro de 2015 às 18H 33M

Resenha// Assombrações de uma sociedade doente

Por Thiago Correia

quadrinhosmaldicao

Numa cidade como o Recife, histórias de terror já fazem parte do cotidiano de seus moradores. Em vez de fantasmas, mortos vivos ou monstros do além, a desigualdade social e o histórico de violência já são suficientes para desencadear pesadelos. Diante do impacto das imagens vistas durante a greve da Polícia Militar em Pernambuco, chega a ser inevitável pensar no livro Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado sem relacionar as cenas da realidade com as narrativas reunidas na edição que agora sai em versão impressa pela Bagaço, com incentivo do Funcultura.

Organizado por Roberto Beltrão e André Balaio, que assina quatro dos oito roteiros do livro, Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado traz ainda narrativas de Leonardo Santana e Milson Marins. Com desenhos de Téo Pinheiro, Arnaldo Luiz, Luciano Félix e Rafael Portela, as histórias são ambientadas em paisagens pernambucanas e assumem o papel fundamental de usar o poder da arte em função da construção de um imaginário e da preservação da memória.

Por um lado, a recorrência no uso de cenários locais expõe a colonização cultural a que o Recife é submetido, despertando certo estranhamento durante a leitura, ao nos fazer reconhecer tais ambientes. Por outro lado, ao localizar as narrativas num casarão de Olinda,na Rua da Aurora, no Açude do Prata e na antiga Fecin (Feira da Indústria e Comércio do Nordeste, que ocupava a área que hoje abriga o Parque da Jaqueira), o livro assume
seu papel de agente da memória, trazendo para si o debate sobre a perda de identidade provocada pela especulação
imobiliária.

No plano temático, porém, o efeito não é eficiente. De acordo com o professor Julio Jeha da UFMG, no artigo Monstros como metáfora do mal, as metáforas são uma forma de tratar determinados assuntos, através de seres ou fatos que fogem à realidade. Assim, por mais fantasiosas que sejam, as narrativas partem de um plano real, e o elemento sobrenatural deveria ser utilizado como uma forma de discutir problemas que de fato existem, sintomas
da sociedade em que se encontram. Por trás dos fantasmas de Tesouro da judia (com roteiro de Leonardo Santana e desenhos de Téo Pinheiro) e de Como matar um fantasma (também de Santana e com ilustrações de Milson Marins), por exemplo, até é possível encontrar homens que, de tão ambiciosos, distorcem os valores morais, passam por cima de amores e amizades apenas para se dar bem. Em A vindita (roteiro e desenhos de Marins) e A maldição circular (roteiro de André Balaio e ilustrações de Luciano Félix), também vemos o passado sendo evocado através do sobrenatural para descortinar o histórico de conflitos do campo, de intolerância e rigidez familiar da sociedade.

O problema é que essa é uma discussão menor, que passa pela tangente nessas histórias. No aspecto temático, o vínculo com os sintomas do real é apenas circunstancial, usado mais para fundamentar a história do que como tema
central das narrativas. Os fantasmas aqui sobressaem ao real, o que acaba por enfraquecer o efeito crítico das narrativas, virando leitura de entretenimento, incapaz de gerar reflexões mais profundas. E, em alguns casos, as
próprias narrativas não se sustentam enquanto histórias, tropeçando em excessos e em roteiros ingênuos. Um sinal
que se evidencia dentro do próprio livro, não apenas pela comparação entre o cenário e o tema, mas em relação aos
diferentes níveis das narrativas reunidas na mesma edição. Ao equipará-las, expõem-se defeitos como a estrutura
simples de causo de Adeus Carminha e o excesso de explicações na parte final de O tesouro da judia.

No outro lado da moeda, essa junção também revela méritos na construção narrativa – no uso de elementos do terror (como os bonecos se mexendo durante o jantar do casal em Presente macabro), na evolução da sequência inicial das lanternas em O tesouro da judia, na contradição entre o texto e as imagens de Como matar um fantasma, nos movimentos da arte de Téo Pinheiro em Olhos vermelhos, e na agilidade para vencer as voltas ao passado em A maldição circular.

Ainda assim, no fim, todas essas histórias não deixam muito a dizer além da história contada. As narrativas, que se
pretendiam assustadoras, ganham contornos de metáforas ingênuas diante do cenário em que vivemos. Não por acaso,
a exceção é a narrativa O homem que ria. Com roteiro de André Balaio e arte de Téo Pinheiro, a história demonstra
maturidade, conseguindo se equilibrar entre o sobrenatural e a loucura até o fim, num desfecho que nos leva à descoberta de que o mal está dentro de nós, igual às imagens vistas durante a greve da PM.

Trecho:
Quanto aos romanos, comem, vomitam, fornicam e vão encomendando cruzes. Apesar dos pesados impostos, prosperamos. Pode-se notar que meu pai, um homem que nunca sorriu, apesar do ‘fim dos tempos’, está satisfeito. Os romanos não só mandam para a cruz seus escravos, o mais sensato é revendê-los no mercado ou para as minas de cobre.” (p. 16.
Conto: Beleza)

* Texto originalmente publicado na edição 0 da revista Café Colombo

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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