Outros autores - 19 de agosto de 2015 às 10H 06M

Sobre memória cultural, conversas e algum café

Por Artur Almeida de Ataíde

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O Café Colombo, o programa a que a revista e o site (este site) devem nome e origem, é um programa de entrevistas, veiculado no rádio. Pela segunda vez sai um livro com transcrições de algumas dessas conversas. Muito embora continuem sendo não mais que entrevistas, e as mesmas ouvidas às 14h de muitos domingos, certo sentido maior sob esse trabalho semanal parece agora mais visível, lidas elas hoje assim, num volume. Um raciocínio pode tornar menos vaga essa ideia.

Diante de alguns acontecimentos, ou de algumas obras de literatura, se diz às vezes que a distância histórica pode trazer algum benefício à inteligibilidade, liberto o olhar do foco estreito do presente; bem conhecido do historiador, é esse um benefício que também a memória concede a quem revisita uma experiência passada, cujas novas conexões com outros tempos vividos, agora em copresença, podem ser aclaradoras. Se bem observado, todo livro, de algum modo, é um testemunho dessa mesma manobra da inteligência, desse ardil, quase covarde, frente à violência presencial do mundo, na medida em que funde, o livro, múltiplos presentes num novo presente falso, talvez dócil, que é o momento da leitura. Ao justapor poucas horas de domingos diferentes, de um calendário que vai de 2008 a 2014, esse volume dois do Conversas no café faz isso. É uma contrafação. E, a exemplo de outras contrafações do tempo, como a memória, a historiografia e outros livros, tinha de produzir novas clarezas. Duas delas é que são exploradas aqui.

Um capricho interpretativo de leitor? Ante esse mero livro de entrevistas? Melhor, talvez, do que a resenha protocolar de um livro do Café Colombo pela revista do Café Colombo republicada no site do Café Colombo. No mais, há hoje quem creia, em todo caso, não ser outro o melhor destino para um livro publicado, senão precisamente esse – o seu abuso.

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A leitura de uma espécie de trailer do livro deve dar uma ideia da variedade dessas novas Conversas no café.

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O trailer, além de não exatamente uma obra de documentarista, contempla apenas metade das entrevistas no livro. Em ordem de aparição: as de Tarcísio Pereira, Daniel Galera, Roberto Magalhães, Bruno Speck, Roberto da Matta, Fred Navarro, Eduardo Giannetti, Renato Phaelante, Samarone Lima, Miró da Muribeca, Anco Márcio Tenório Vieira e Sérgio Rodrigues. Mas, diante das Conversas, finalmente, são duas as reflexões que aqui interessam – e a partir daqui tem início o abuso, que, portanto, são dois.

Terminada a leitura, e a notícia sobre tantas e diversas coisas, que agora tão claramente não poderiam deixar de ser sabidas, entende-se como apenas em se falando ganham corpo e presença os fatos da cultura. Mais dramaticamente, qualquer fragmento de realidade, como um poema de Cabral sobre um rio, ou o cansaço de Sidney Sheldon, ou o dom de José Bonifácio para a piada, ou mesmo os frisos dourados que refletem geometricamente o sol da tarde no calçamento sujo da ponte Duarte Coelho, em sua aparente autossuficiência: todas essas coisas sofrem de uma fragilidade incurável, que as põe em permanente estado terminal, ou de extinção, de morte; elas precisam ser faladas para existirem, para integrarem o circuito atualmente vivo da cultura. Sem que delas se fale, somem no silêncio, que pode ser, inclusive, o silêncio de uma estante na biblioteca, como o de um disco mantido longe da vitrola.

A segunda reflexão, que continua esta última, pode ser que seja a mais abusiva. Uma recorrência de alusões locais permeia esse livro – talvez porque, na conversa, mais desinibidamente do que na obra técnica de história, de filosofia ou de economia, falar sobre algo é também se falar, pôr-se a si mesmo na fala. Mas essas alusões, esses vestígios, que aqui interessam, não formam apenas um cenário extrínseco, ou ao menos não nessa presente leitura. Quando ocupam espaços contíguos o frevo de Nelson Ferreira e o estilo de Nietzsche, por exemplo, uma tênue contaminação mútua parece ocorrer, como se de repente infiltrada a cultura dos livros em múltiplos espaços do dia. Desse mesmo modo, inimagináveis vias de mão-dupla se insinuam, por obra também da mera contiguidade, entre Miró da Muribeca e a filosofia da ciência. A condição real do Recife, os vestígios da cidade em volta, talvez de algum modo sublinhem, nessa convivência, a esmaecida condição também real do que há nos livros, que são mais do que o mero adorno de inteligência que alguém veste como traje fino. Enquanto se toma esse café, há em curso um discreto reprocessamento das altas culturas pela usina mais pedestre do presente. A conversa, aí se percebe, é obra de história, de informação, de pensamento, mas há muito nela de certa infiltração agônica do atual, que a faz obra também de teatro. A variedade temática dos fragmentos no trailer, à primeira vista, pode fazer pensar que tudo padeça de uma dispersão irredutível, mas uma conexão, portanto, entre tantos tempos, pessoas, ideias e lugares, deixa-se produzir ali mesmo insidiosamente, no ponto em que todos agora se acumulam e se alteram, um ponto que de um modo vago parece estar no Recife. E aí cabe a correção: em se falando não ganham corpo só os fatos da cultura, como também se processa o acontecimento presente da cultura. Tem-se aí, finalmente, aquele certo sentido maior, sob o trabalho semanal do Café. Mais do que geralmente se vê na grande imprensa local, e mais do que tem permitido a demarcação algo rígida dos nossos tantos feudos espirituais, o Recife, afinal, precisa conversar.

Segue, por fim, apenas uma última ilustração dessa necessidade, em duas fábulas.

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Um ex-aprendiz de pedreiro, de nome francês, próximo à casa desabitada de um antigo vizinho de vilarejo, numa periferia rural recém-esvaziada, vê pela primeira vez nos ares a grande flor fugaz de terra, desmedido o abalo, o estrondo desumano. Por conta de uma série de propagadas circunstâncias, como as que envolvem o assassinato de um príncipe numa ponte em Sarajevo, e o ressentimento de impérios pela má partilha de um espólio que era o próprio mundo, não apenas vê ele, pela primeira vez, um tiro de obus tocando o solo; sabe já ele vagamente que o que vê é mais grave, mais complexo e mais letal; ele vê a própria Grande Guerra, a Primeira Guerra Mundial; ela o alcançou.

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Caminhando-se ao meio-dia sobre a ponte Buarque de Macedo, as sombras já não parecem uma longa pele de rinoceronte, distante também no tempo a Casa do Agra; naquela ponte paralela, que sucede a Duarte Coelho, foi cantada em fevereiro por mais de um bloco a Evocação n.º 3, de Nelson Ferreira, com letra sobre Mário Melo; um homem de barba atravessa a rua; empreiteiras financiadoras de campanha esquartejam no horizonte a memória pública; não há ônibus que vá dali para a Muribeca, direto; um saco voa rápido de um carro, certo bom-dia é deliberadamente ignorado, uma propina é oferecida: gestos de quem orgulhosamente apenas se assenhora, nesse exato momento, do seu engenho particular, que não existe, nem é ali; enquanto isso, tímido sob a ponte, corre um rio espesso e doente, arrastando-se como um cão sem plumas.

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Ou isso, ou apenas um tiro de obus, e apenas uma ponte sobre o rio numa cidade. A diferença, quem diria, não passa de um background de conversas.

Um trailer para o Conversas no Café­ Volume II

mirogralhães

Arte: Daaniel Araújo

Antes de os shoppings sequestrarem públicos e rotinas outrora comuns no centro do Recife, faixas de welcome, no caminho entre o aeroporto e o bairro da Boa Vista, saudavam um Sidney Sheldon satisfeito, que logo autografaria cerca de mil livros em menos de três horas, atraindo um volume de fãs cuja circulação exigiu, inclusive, algum socorro do Detran. Mas a Livro 7, ocupando ao mesmo tempo um casarão e um galpão, que ligavam a rua do Riachuelo à Sete de Setembro – era então a maior livraria do Brasil, segundo o Guinness –, não vendia somente Sheldon, como também importava livros de filosofia e política, de comércio arriscado sob o olhar dos militares.

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Numa vila de pescadores, no estado de Santa Catarina, pode ter sido assassinado um homem, na década de 1960, com a anuência cúmplice de todos os seus moradores. O fato foi, ao mesmo tempo, absolutamente essencial e absolutamente irrelevante para a escrita do romance de um recente autor gaúcho. Tema corriqueiro desde Aristóteles: a força de verdade que pode um fato fabricado eventualmente produzir, maior que a própria verdade que provém de fatos, e que desta última independe. Há semelhanças com o caso de um corpo encontrado, em 1865, no Engenho Suassuna, em Jaboatão.

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“– Olímpio, estranhei uma coisa: não vi os empregados da usina, os operários”, disse o cardeal Leite ao padre Olímpio, em 1939, enquanto voltavam da visita a uma usina no interior de Pernambuco. Conhecedor desse mundo sem CLT, e sem qualquer classe intermediária entre a do aristocrata e a do miserável, explica o padre: “– Cardeal, o senhor não viu, nem poderia ver, porque eles se vestem com o pano da sacaria, do açúcar, e os que não andam descalços andam de tamancos”. Também um conflito de mundos, vale dizer, moderno um e arcaico o outro, é o que determina, noutra história desse mesmo domingo, as difíceis relações entre um revólver, a honra sertaneja e o código civil brasileiro.

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Tanto a condenação puramente ética, pela população, quanto a efetivamente jurídica, pelo Supremo Tribunal Federal, do modelo de financiamento de campanha atualmente praticado no Brasil são louváveis; só não geram, automaticamente, a solução de um difícil problema. Às vezes, não desconfiamos de que o Brasil, em muitos assuntos, além de um indubitável problema ético, é também um problema técnico.

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Quanto ao binarismo de castas apresentado ao cardeal Leite – as castas do tudo posso e do nada podeis –, binarismo que rege, com orgulho indisfarçado, a ética indigente do senhor de engenho, ele se perpetua no mundo de rendas e imunidades irrestritas com que os pretensos administradores do país resolvem as suas próprias vidas, por exemplo, e a dos seus financiadores de campanha e familiares. Naquele binarismo estará a fórmula antropológica de um Estado que funciona contra a sociedade, decidido, ao que parece, desde o seu mais íntimo impulso, a dissociar. Como no trânsito do Recife, é um modelo de conduta em que o outro já foi, de antemão, aniquilado – vestido com o pano vil da sacaria.

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Canalhas, ignorantes e otários: esses vocábulos, quando aparecem, lembram como a conversa acolhe melhor, sem mediações, o voluntarismo e a polêmica que habitam, no seio, os processos da história. Também “o cão chupando manga”: mas não no sentido que tem a expressão em São Paulo ou em Pernambuco, e sim no Rio Grande do Norte.

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Pode ser que o melhor de Nietzsche seja certo Nietzsche iluminista: aquele que escreveu Humano, demasiado humano; Aurora; e Gaia ciência, e que se diferencia do Nietzsche jovem, ainda muito influenciado por Wagner e Schopenhauer, e do Nietzsche do delírio, de Zaratustra. Um Marx certamente menos cultuado será aquele que quis ler, na exuberância da natureza dos trópicos, o destino de eterna “criança com andadeiras” do homem tropical.

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Cabocla de Caxangá, de João Pernambuco – ou Catulo da Paixão Cearense? –, foi canção bastante conhecida, também, no Carnaval de 1913 do Rio de Janeiro. Nelson Ferreira, em 1957, com a Evocação n.º 1, era ouvido nacionalmente: “Felinto, Pedro Salgado…”. Antes disso, em 1930, Capiba podia ser visto tocando numa jazz band.

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Um homem finalmente visita, com barba de revolucionário cubano, o próprio berço da Revolução, mas todos que lá encontra, para sua surpresa, estão barbeados. ¿Qué pasa?

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Cidade nenhuma é fácil, Recife ou São Paulo, e sem Edileuza deve ser dolorosa como Florença sem Beatriz. Você fala do seu coração, e de Drummond, mas a polícia, o desgoverno, faz você ser outro poeta; depois que a polícia prende, e depois de apanhar na cara e levar chute nos rins, o poeta fica mais escroto; a poesia fica mais clara, mais esperta, que agora quer dizer na cara deles. Tudo isso porque Deus é grande, mas o diabo – tem coisa que você não vê, mas o poeta vê – tem um metro e oitenta.

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Mário Melo descreve, numa crônica, um senhor de aspecto pacato, que chega à redação de um jornal, no centro, puxando de uma perna, paralisado um dos lados do corpo pelo AVC recente, mas cuja aparência é um engodo. É ele o senhor entre cujos exercícios diários estava a patrulha crítica mais virulenta então conhecida acerca das opiniões, acontecimentos e costumes da sociedade local; era Carneiro Vilela, autor também de A emparedada da rua Nova.

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Ver e rever, de novo e de novo, incansavelmente, obsessivamente, a gravação do gol perdido por Pelé contra o Uruguai, depois de um drible memorável, na semifinal da Copa de 1970, num estádio repleno, talvez só se justifique pela esperança secreta – todos a têm – de que, em algum momento, a bola finalmente entre.

Texto publicado originalmente na Revista Café Colombo #2. Aquiria já o seu exemplar!

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