Mano Ferreira - 01 de maio de 2015 às 14H 46M

Um olho sem vida: eis um olho amarelo

olho_morto_amarelo

Por Hugo Viana

Há algo de intrigante na leitura de um escritor estreante. É possível perceber sugestões de interesse narrativo, indicações de estilo e perspectiva literária; é o início de um diálogo, implica conhecer uma voz em formação, os primeiros passos da construção gradual de marcas pessoais, embora de certa forma tudo ainda esteja em processo efetivo de amadurecimento.

No caso de Bruno Liberal, escritor de Petrolina que conquistou o primeiro Prêmio Pernambuco de Literatura – na categoria contos e, também, foi escolhido o melhor entre os cinco vencedores – com o livro Olho morto amarelo, temos uma voz peculiar surgindo, um autor que parece hábil na construção de narrativas e personagens a partir de informações mínimas.

>> Conheça a Revista Café Colombo

A publicação deste livro em versão impressa é um dos efeitos interessantes de eventos literários, festivais, concursos: apresentar autores que de outra forma permaneceriam desconhecidos ou restritos a poucos leitores; lançar escritores inéditos, renovar o ambiente literário, apostar em algo baseado em instinto.

A partir de Olho morto amarelo, é possível sugerir que Bruno parece interessado em observar personagens angustiados, gente à beira do abismo, pessoas acossadas por lembranças de um passado desconhecido que acaba moldando um comportamento soturno. O autor não oferece explicações objetivas para a crise existencial; não há o interesse em diagnosticar perfis psicológicos ou determinar motivos para o desespero: predominam dúvidas sobre impulsos, incertezas sobre decisões temerárias. São personagens que sentem e agem, falam e brigam; pessoas guiadas por desejos e que tendem perigosamente para a violência – não apenas física, mas também afetiva.

Quase todos pertencem ao que podemos chamar “classe média”, pessoas com alguma estabilidade financeira em crise – de certa forma uma tentativa de fugir do estereótipo de uma literatura com identidade regional e sotaque evidentes, ampliando a noção mítica de Nordeste, transformando rótulos prévios em ideias anacrônicas. Bruno cria diferentes perspectivas sobre a classe média, do jeca cheio de preconceito e arrogância a pessoas de sensibilidade aguçada. Ligando esses diferentes personagens está o desastre eminente, a percepção da proximidade de um grande mal aparentemente inexplicável. Mesmo que Bruno jure por Deus que há um final feliz – alusão ao nome do último conto do livro – é possível imaginar algo de bruto e desgradável na próxima página.

Num dos contos menos eficientes do livro – talvez por revelar claramente um desgosto, uma espécie irônica de raiva contra hábitos do comportamento contemporâneo -, Aquário, Bruno apresenta um homem no hospital, prestes a se tornar pai, cuja maior preocupação é a quantidade de curtidas no Facebook que a foto de sua filha terá depois da postagem. Ao colocar em termos tão óbvios o limitado alcance intelectual de seu personagem, ao propor uma crítica tão evidente aos modos atuais, o autor parece enfeitar artifícios pouco sofisticados, compondo um frágil panorama de emoções.

Mesmo nos momentos menos agradáveis há a percepção de que mesmo a pessoa incapaz de olhar para além de si sente o vazio; assim, não há uma voz de autoridade que julgue acontecimentos, apenas a casualidade do cotidiano – neste caso, como ingrediente amargo. Uma lembrança distante parece Michael Haneke e o filme Sétimo continente, a ideia de que o choro é às vezes inevitável, independe de questões sociais ou culturais.

No conto que dá nome ao livro, o efeito de suspense parece obtido através da mistura insólita entre elementos que geram estranheza. Um homem acorda cego, ou sonha estar cego, ou esteve sempre cego e desperta de um longo período de trevas em desespero. O autor cria um pequeno enredo na fronteira entre pesadelo e realidade, sugerindo ligações dramáticas criativas a partir de imagens que se repetem – um olho sem vida; um olho amarelo. Em poucos parágrafos é estabelecido uma espécie de temor baseado nas leis do mistério, uso instigante da literatura de gênero – fantasia, horror.

Esse conto apresenta as forças da narrativa do autor, é sua assinatura de estilo: a maneira como manipula ações vigorosas na brevidade, a forma como a tensão cresce rápido e assustadoramente a partir de pequenas ações. Escrever uma carta, ir a uma festa familiar ou nadar na piscina tornam-se ameaças à saúde emocional; depois de uma situação banal, Bruno muda a perspectiva do texto, insere certa medida de psicose, violência explícita ou temor quieto, revirando expectativas. Parece estar em pauta, também, sentimentos em relação à paternidade; a mistura entre gênero horror, ações do cotidiano e paternidade em crise assombra os melhores contos do livro.

As pequenas narrativas de Bruno parecem começar no meio de uma ação cotidiana e acabar antes de um desfecho no sentido tradicional. É como se o autor recortasse do tempo e espaço uma sequência de ações essenciais dentro de uma história maior e as observasse através de um microscópio, buscando a essência do desajuste emocional.

Os textos passam a sensação de que pertencem ao mesmo universo; os personagens parecem vizinhos de amargura, uma geografia mais sentimental do que propriamente física.

 

Esse texto foi publicado originalmente na revista Café Colombo #1, que pode ser adquirida através do email contato@cafecolombo.com.br e também nas livrarias Jaqueira, Cultura e Imperatriz.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

Comentários

desenvolvido por Shamá