Carlos Eduardo Amaral - 30 de março de 2016 às 09H 30M

Audições Brasileiras #12 entrevista Armando Lôbo

522552_501519306561573_1884720704_nProvocador, sempre provocado pela música – para o bem ou para o mal. Para o bem porquanto, entre outras coisas, Armando Lôbo se diz intensamente atraído pela música que ele define como orgânica ou tradicional, em vez de folclórica. “Eu não quero dizer ‘folclórica’, porque acho esse termo até um pouco autoritário, um pouco preconceituoso”, justifica o compositor recifense. Para o mal porque, por exemplo, Armando se queixa de que a música popular em nosso país engessou-se sob um rótulo chamado de “MPB” abrangendo apenas a música carioca, com algum alcance em São Paulo, e de que, no exterior, “quando se fala de fusion, se fala da música da música americana ou inglesa com a música regional”.

Atualmente cursando o doutorado em Música em Edimburgo, capital da Escócia, Armando diz buscar “a seiva de vanguarda que existe na música tradicional do Nordeste” exercendo e incitando um misto de êxtase, surpresa, festa e suor na performance musical da música de concerto. “Esse senso de limpeza da música erudita podia ser revisado”, julga o músico, acrescentando que o século 20 tornou a composição musical excessivamente cerebral e privilegiou o estruturalismo.

Música, literatura, antropologia, filosofia, simbolismo são conhecimentos interligados tanto na face popular quanto na erudita da música do bardo contemporâneo, que se define como um poeta que se vale da música para expressar seu pensamento e sua verve crítica (Armando já lançou até um livro de poemas palindrômicos). A arte erudita, conforme o músico-literato fala em determinado momento do bate-papo, não significa um formato fixo para ser tocado por uma orquestra: “arte erudita é uma reflexão sobre o material que se vai trabalhar, um mergulho conceitual mais profundo e uma abertura a uma paleta de sentimentos que na música popular é mais restrita”.

Talvez por esse motivo, Armando prefira a música dos pigmeus africanos a Gilberto Gil, Milton Nascimento e Caetano, principalmente pelo contato que tem com artistas do mundo inteiro em suas viagens pela Europa, pois, como intérprete, sua atuação tem-se concentrado no Velho Continente, especialmente no projeto Diaspora Mousiké e em sua vertente de música popular, o Banzo – este, formado apenas por brasileiros residentes alhures. Sua maior queixa na entrevista foi apenas a da inexplicável falta de abertura a seu trabalho em sua terra natal: “Nunca fiz, nem posso fazer nada no Recife, porque as portas estão sempre fechadas”.

Durante o programa, vamos escutar seis músicas de Armando Lôbo, em três momentos distintos. São elas:

  1. Pindaré, para quarteto de cordas, oboé, tuba, dois percussionistas e tenor popular; com participação do Quarteto Facha, músicos convidados do projeto Diaspora Mousiké, solo vocal do compositor e regência de Guto Brinholi.
  2. Pernambukalos, para flauta, clarineta, vibrafone, piano, violino, violoncelo e soprano; com solo vocal de Gabriela Geluda.
  3. Quinta essenza, para percussão; com o Laboratório Criativo Permanente, de Roma.
  4. In natura, com o Quarteto Facha.
  5. Atrás das máscaras, do CD Técnicas modernas do êxtase; em parceria com o poeta Conde Bela Morte.
  6. Crepúsculo do frevo, do mesmo álbum.

Escute o podcast agora ou faça o download para ouvir quando quiser. Boa audição.

Carlos Eduardo Amaral

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