Mano Ferreira - 31 de agosto de 2015 às 21H 43M

Como o governo brasileiro favorece empreiteiras em Moçambique

Protagonista na exploração de carvão moçambicano, a Vale está no centro de conflitos sociais na África, mas conta com forte apoio da diplomacia brasileira

Protagonista na exploração de carvão moçambicano, a Vale está no centro de conflitos sociais na África, mas conta com forte apoio da diplomacia brasileira

Colônia portuguesa até 1975, Moçambique é um país africano com pouco mais de 20 milhões de habitantes. Era o lugar mais pobre do mundo em 1992, após uma breve experiência socialista e uma longa guerra civil. Mesmo vivendo agora um intenso crescimento econômico impulsionado pela exploração de suas antes ignoradas reservas de carvão, ainda possui 54% da população abaixo da linha da pobreza e uma imensidão de problemas sociais por resolver.

Compartilhando bem mais do que o passado colonial, o Brasil mantém fortes relações com a terra de Mia Couto. E não estamos falando somente do sucesso das novelas. Sabe aquelas reservas de carvão? Advinha de quem é o protagonismo nessas minas. Sim, é da Vale, a empresa semi-estatal brasileira. Também atuam por lá empreiteiras famosas por aqui, como Odebrecht e Camargo Correa, fortemente envolvidas na Operação Lava-Jato. Sempre com expressivo apoio da diplomacia brasileira.

Toda essa história está contada no excelente livro-reportagem Moçambique – O Brasil É Aqui, da jornalista Amanda Rossi. Ela foi ao país africano pela primeira vez em 2010, ainda como intercambista universitária. Retornou em 2013, documentando as rápidas mudanças.

Após morar um total de 7 meses em Moçambique, a jornalista Amanda Rossi escreveu livro-reportagem detalhando a influência brasileira no país

Após morar um total de 7 meses em Moçambique, a jornalista Amanda Rossi escreveu livro-reportagem contando em detalhes a influência brasileira no país africano

O Brasil tem essa característica de impulsionar suas empresas de construção civil na África. Ele também empresta recursos para essas empresas. É muito difícil você ver uma empreiteira brasileira fazendo uma obra para um governo africano que não seja financiada por um banco público do Brasil, principalmente o BNDES.

Não era assim antes, o BNDES não emprestava para empreiteiras na África. Isso começou nos anos Lula. Antes, existia apenas uma linha de crédito no Banco do Brasil que ia principalmente para Angola. Então o governo Lula colocou o BNDES no jogo e permitiu que as construtoras brasileiras começassem a ganhar terreno explorando esse mercado de obras.

moçambique-livroCAFÉ COLOMBO – Já que tocamos nessa relação entre governo e empresas, e uma vez que você aborda o assunto no livro trazendo documentos sigilosos da diplomacia brasileira, o que essas comunicações a que você teve acesso revelam?

Essa documentação é bem importante porque revela um pouco dos bastidores de como a diplomacia brasileira atua para favorecer as empresas brasileiras no exterior.

Para explicar um pouquinho a quem está ouvindo, as empreiteiras brasileiras trocam correspondência – na linguagem oficial, telegramas – com o Itamaraty, em Brasília. Existem diversas correspondências vindo da África para o Brasil e voltando, do Brasil para África. Essas correspondências são catalogadas em diferentes graus de sigilo. É possível ter acesso a algumas delas solicitando para o Itamaraty. Outras ficam reservadas e só se tornam disponíveis depois de 5, 15 ou 25 anos.

No livro eu tive acesso a diversos desses telegramas que estão com sigilo de 15 anos e são do período de 2003 a 2009 – e, portanto, contando 15 anos, a gente só vai ter acesso oficial a eles a partir de 2018 ou 2024. Lendo esses telegramas é possível ver um pouco como isso tudo funcionou.

Tive acesso aos telegramas de um período bem importante, no qual a Vale ganhou a concessão para explorar o carvão moçambicano. Esse é o maior negócio do Brasil na África hoje, e esses bastidores podem dar um pouco a ideia do todo de como nossa diplomacia atua. O que a gente vê nesses telegramas são algumas medidas – e vale frisar que não são medidas ilegais – de uma diplomacia comercial.

O Brasil se empenha muito para favorecer as empresas. No caso da Vale, por exemplo, quando a Vale ganhou a concorrência do carvão a embaixadora brasileira escreveu que foram fundamentais para a vitória algumas medidas tomadas pelo Estado brasileiro, como o perdão da dívida de Moçambique pelo Brasil, de mais de 300 milhões de dólares, e a presença do BNDES.

Confira a íntegra desta entrevista com a jornalista Amanda Rossi conduzida por Renato Lima, originalmente veiculada em 30 de agosto de 2015, na edição #614 do Café Colombo na Rádio Universitária 99,9 FM.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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