Mano Ferreira - 02 de agosto de 2015 às 21H 00M

Entre moscas e lembranças, a literatura de Everardo Norões

Everardo Norões

Pense na Faixa de Gaza. Um tanque de guerra se aproxima com a bandeira de Israel. Solitária, uma criança ergue o braço direito com toda a munição que lhe é possível: uma única pedra.

– Se fabrica quase tudo na China, mas a coragem é fabricada na Palestina.

Imagem e frase apareceram juntas, certo dia, na linha do tempo do Facebook, em postagem de um velho combatente palestino amigo do escritor pernambucano Everardo Norões.

Das muitas reflexões possíveis, a lembrança ficou marcada como inspiração para um conto do livro Entre Moscas, obra vencedora do Prêmio Portugal Telecom 2014 na categoria contos e crônicas. Para o escritor, a imagem e a frase lhes dizem a respeito da necessidade de cuidar do que é nosso, do que é histórico, e daquilo que nos faz tornar uma nação. De espantar as moscas que pairam sobre o abandono.

Natural do Crato e marxista de formação, Everardo veio ao Recife estudar economia durante a juventude, quando engajou-se na luta contra o regime militar. O livro traz alusões diretas a esse período, abordando exílios, torturas e traições.

O autor nega, no entanto, que abordar essa temática seja um modo de revisar literariamente os seus anos de militância contra a ditadura.

entre moscas

Capa de Entre Moscas, livro vencedor do Portugal Telecom 2014

“Quando escrevi contos dessa natureza, pensei numa questão que acho muito importante pra nós, brasileiros e pernambucanos, que chamo de paradigma do esquecimento. Nós temos uma tendência de esquecer o que aconteceu na história.

Inclusive, em um dos meus contos, há uma referência a uma espécie de confraternização entre torturados e torturadores no bairro do Recife. O tempo passa e a gente não tem que ser vingativo, mas a história precisa ser preservada.

A gente precisa saber que, no nosso ambiente histórico, temos aqueles que foram cúmplices de um dos períodos mais negros da nossa história. Se você não formular isso interiormente, acaba perdendo a identidade, o sentido de ser de uma nação, ser de um país.”

Confira abaixo a íntegra desta entrevista com Everardo Norões conduzida por Thiago Corrêa e Eduardo Cesar Maia. A conversa foi veiculada originalmente em 2 de agosto de 2015, na edição #610 do Café Colombo na Rádio Universitária 99,9 FM.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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