Agricultura orgânica e mercado de nicho
quinta-feira, julho 2nd, 2009Há cerca de duas semanas, trabalhei na produção de duas reportagens com uma equipe de TV da Rússia, mais exatamente do canal Russia Today, que transmite em inglês e árabe. A equipe veio para cá com o objetivo de retratar o Brasil de modo geral, especialmente por causa do maior interesse despertado pela sigla BRICS, criada por um economista da Goldman Sachs e que reúne os principais emergentes econômicos, Brasil, Rússia, Índia e China. Fizeram matérias em São Paulo, Rio de Janeiro e acompanhei o trabalho em Pernambuco, onde vieram abordar a violência no Recife e programas sociais, como o Bolsa-Família.

Na parte de violência, conversamos com Eduardo Machado, do PE Body Count e Demetrius Demétrio, do Comunidade dos Pequenos Profetas. Para a matéria de políticas sociais, viajamos até Pombos, mais exatamente o Assentamento Chico Mendes. Lá, e essa é a razão deste post, nos encontramos com uma figura maravilhosa, chamada Mariano da Silva. É um pequeno agricultor, com 10 hectares, que há sete anos mudou o cultivo das suas terras para agricultura orgânica. Isso significa deixar de utilizar agrotóxicos e adotar toda uma técnica para que as pragas não avancem sobre as hortaliças. Para tanto, é necessário criar um tapete verde sobre as culturas, de forma que as pragas ataquem outras gramas e preservem a cultura principal. Dá mais trabalho, mas se tem a certeza de comer algo mais saudável, que não foi empoçado de veneno.
Produtos orgânicos chegam às gôndolas dos supermercados com preço, pelo menos, 30% mais caro. Mas comprando direto do produtor na feira sai ainda mais barato do que uma hortaliça tradicional em uma grande rede. Seu Mariano vende os alfaces – liso, americano ou francês – por R$ 0,70, enquanto um alface americano pode custar o dobro disso num ponto de venda tradicional. Ao migrar para a produção orgânica, Mariano teve um considerável ganho econômico – ele hoje consegue vender com preços até 50% mais caros do que antes – e também de consciência. Dizia o pequeno produtor que agora sabe tratar melhor da sua própria terra, rotacionando culturas, deixando o solo descansar e tratando de forma natural, sem veneno.
Os orgânicos atendem um nicho de mercado em crescimento. E o sucesso de Mariano como produtor veio de atender a essa demanda, e não fruto de um plano mirabolante surgido de um técnico governamental. E o Bolsa-Família, na sua casa, é bem empregado. “Não deixo a menina pegar na terra. É para ela estudar, pois recebe o Bolsa-Família”, disse.
Ah, e quem quiser comprar a produção de seu Mariano ou de outros produtores similares é só visitar a feira de orgânicos próximo à Praça de Casa Forte. Mas tem que chegar cedo. A feirinha começa às 5h da manhã e em poucas horas toda a produção se esgota.
Como diria Tyler Cowen, a força dos mercados (que estão em toda parte). Ou, como Bastiat muitos anos antes, é a forma como Paris é alimentada.
(Renato Lima)