Publicações sobre Joaquim Cardozo
sábado, junho 27th, 2009Do JC de hoje:
——————
Cardozo em dose dupla
Publicado em 27.06.2009
José Mário Rodrigues
Humildemente, disse em versos: “Mas trago das águas a substância da claridade. Ele era a própria claridade. Tinha a imagem e o ar de um anjo que não quis subir aos céus. O país precisava de sua poesia, do seu teatro, do seu saber matemático.
Num palácio que ele calculou e Oscar Niemeyer fez o desenho o presidente dorme. Símbolo maior de Brasília, a catedral é obra de sua engenharia. Completamente ignorante em assuntos matemáticos, caí na besteira de perguntar como a rampa do Palácio da Alvorada, que parece suspensa, se sustentava? A resposta foi simples: “Existe outra do mesmo tamanho por baixo da terra”. Depois dessa, nunca mais ousei falar sobre arquitetura e cálculos.
A poesia de Joaquim Cardozo me interessou desde que a conheci e continua sendo o farol que clareia as minhas noites e “espreita as sombras inimigas no corredor deserto”. Por uma extrema coincidência, saíram publicados neste mês de junho, dois livros sobre o autor de Signo estrelado, Mundos paralelos, Poemas, Um livro aceso e Nove canções sombrias e outros. O primeiro, Bibliografia de Joaquim Cardozo, é produto do trabalho exaustivo de Maria do Carmo Pontes Lyra e Maria Valéria Baltar de Vasconcelos, revelando a vasta bibliografia do poeta. Há muitos anos que Carminha Lyra pesquisa a obra e a vida do poeta. A luta depois foi a publicação, que aconteceu pela Editora Universitária. O segundo – a tão anunciada Obras Completas de Joaquim Cardozo – organizado, com muito zelo e inteligência pelo poeta Everardo Norões e publicado por um convênio da Aguilar e Editora Massangana, com nota editorial do crítico Mário Hélio.
Temos agora a obra completa de um gênio. E como se não bastasse, a edição do livro é muito bonita. Digo gênio, sim. Cardozo foi de A a Z. Poeta, engenheiro, teatrólogo, contista e de quebra ainda escrevia em sânscrito, uma língua morta mas que ele conhecia bem.
Nunca me esquecerei de sua presença sagrada a me confessar que “o mistério maior não está na morte, como em geral pensam os sábios das ciências teológicas, e sim no aparecimento da vida, porque a morte em si mesma é menos misteriosa que a vida…” Ou falando sobre o tempo: “O tempo é firme e imóvel, foram os homens que, em torno dele, criaram a ilusão de um movimento… Desejava viver em todos os tempos passados, contrariando, assim, a afirmação de Heidegger de que os homens cogitam mais do futuro do que do passado.”
Na última visita que lhe fiz, numa casa de saúde em Olinda, não me conheceu. Já estava em conversas com anjos, arcanjos e potestades. Poucos dias depois subiu aos céus num trem de nuvens. Era autor e passageiro do Último trem subindo aos céus, pois ” os passageiros do trem viram tudo que era de ouvir,/ Tudo que era de refletir de ver,/ Todo o perceber que vem do ver,/ Todo o conhecer do sentir de ouvir”.
Sinto-me um escolhido. Ter sido amigo de Joaquim Cardozo é uma dádiva. Everardo me colocou entre os guardiões da memória do poeta. No entanto, o mérito maior é dele e de Carminha Lyra. Louvados sejam para sempre.
» José Mário Rodrigues é escritor
