Café Colombo

A Petrobras e a avenida para o totalitarismo

quarta-feira, junho 17th, 2009

A Petrobras e a avenida para o totalitarismo
por Renato Lima

Este artigo começará com alguns comentários:

“A Petrobras e os brasileiros decentes e bem informados já esperavam essa atitude da Folha. Acho que a direção perdeu a noção do perigo. Ninguém mais a quer, nem sequer para o cocô de seus cachorros. A derrocada se dará muito antes que eles percebam.” – Maria Ferreira – 14/06/09

“Todos os jornalecos dessa chamada “grande mídia”, reclamam da falta de “liberdade de imprensa” mas abusam da mesma mentindo e criando falsos escândalos, demonstrando o total descompromisso com o povo e o Brasil. Deveriam receber severas punições pela extrema falta de compromisso com a verdade, precisamos de uma lei de imprensa mais rigorosa, liberdade sim, para conspirar e falsificar a verdade nunca!” – Evaldo Chaves, 14/06/09

“Esse blog realmente é fantástico. Parabéns pela iniciativa. Parabéns PETROBRAS. Só assim podemos saber como os bandidos jornalista transformam e manipulam informações para derrubar a PETROBRAS.” – Heriveltoli – 15-06/09

“Se o jornalista que datilografou a matéria soubesse o que estava escrevendo, não estaria trabalhando no Valor Econômico, recebendo salário de jornalista. Estaria sim dando assessoria econômica a endinheirados e cobrando muito bem.” – Remindo Sauim – 15/06/09

“Os jornais atendem aos interesses de seus donos e PONTO! Os jornais nao tem nenhum compromisso com a verdade, apenas com o lucro.” – Gilberto – 12/06/09

Esses comentários passaram por moderador e foram publicados no blog que a Petrobras criou para evitar uma CPI que a investigue.

A iniciativa do blog causou muita polêmica por ter começado vazando as perguntas de jornalistas, transformando o “ouvir o outro lado” em estragar o furo jornalístico. O presidente da Petrobras, o petista José Sérgio Gabrielli, defendeu enfaticamente o novo instrumento durante entrevista ao Roda Viva (08-06-09). Uma das linhas de argumentação é correta: trata-se de uma oportunidade para que a empresa publique na íntegra a sua versão daquilo que se lhe pergunta, que por necessidade industrial acaba sendo editada na mídia impressa (a internet não tem esse problema). Depois a empresa recuou, só publicando as perguntas depois que a matéria já foi publicada.

Mas, na mesma entrevista, Gabrielli defendeu que a empresa coloque lá opiniões próprias. Primeira questão: é para empresa estatal ter opinião própria? Temos agora uma empresa cujo objetivo estatutário, além de buscar petróleo, é produzir editoriais? A quem caberia definir a “opinião” da empresa, o presidente de plantão da Petrobras, um indicado político que nem funcionário de carreira é? O partido no poder? E se as mais de 300 estatais começarem a fazer blogs e veicular “opiniões”? Agora a Infraero, Banco da Amazônia e Dataprev teriam opinião formada sobre, sei lá, as eleições no Irã?

É espantoso que tantos comentários (o que foi aí em cima é uma ínfima parte dos vitupérios contra jornalistas e jornalismo de modo geral) sejam aprovados pela moderação.

O que se vê no Blog da Petrobras não são apenas opiniões próprias que denigrem jornalistas. É uma incitação ao ódio, como se lê nos comentários (moderados!). Lá, empresas de comunicação que atuaram por décadas no País perderam “a noção do perigo” e merecem agora “severas punições”. Mas não se trata apenas de ataques a grandes veículos de imprensa, mas até mesmo à profissão de jornalista. Nos comentários (aprovados pela Petrobras!), jornalista é chamado de bandido e fracassado, já que se fossem bons não estariam “recebendo salário de jornalista”.

Nessa profissão eu me formei, trabalho no batente, sou sindicalizado, fiz inúmeras fontes na Petrobras e ganhei prêmio nacional na área de petróleo e gás natural. Vi muita gente na Petrobras que trabalha para o país e outros com extrema preocupação política, a ponto de colocar em risco grandes projetos, como a Refinaria Abreu e Lima. Mas é espantoso o ódio que a companhia demonstra agora com esses questionamentos, a ponto de ironizar o próprio trabalho jornalístico – diante de um constrangedor apoio tácito da ABI e Fenaj.

Em tese, todas as estatais foram criadas para servir a uma necessidade pública e ao Estado brasileiro, não ao partido no poder. E grande parte da correção dos desvios veio graças aos instrumentos de fiscalização, dos quais a imprensa é parte vital. Transformar essas empresas em veículos dotados de opiniões próprias é uma extrapolação perigosíssima, ainda mais com esse trabalho de difamação de quem as fiscaliza. Estamos diante da avenida que vai dar no totalitarismo.

Susan Boyle e Lula

quarta-feira, abril 22nd, 2009

Do meu artigo lá para o Ordemlivre:

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Susan Boyle e Lula

por Renato Lima

Susan Boyle é uma desengonçada dona de casa escocesa com 47 anos, que não saía do seu vilarejo e confessou nunca ter beijado um homem. Sua vida teve uma reviravolta ao participar, em 11 de abril deste ano, de um programa de TV chamado “Britain’s got talent” e cantado maravilhosamente uma música de “Os miseráveis” (provavelmente você, leitor, faz parte dos milhões de pessoas que viram o vídeo no YouTube).

Lula também teve seu dia de Susan Boyle. Foi quando Obama, líder carismático do momento e presidente do “império” americano, chamou Lula de “o cara” durante a reunião do G-20. Um gracejo, mas que deixou Lula deslumbrado. Ele estava lá como um dos líderes dos países em desenvolvimento, aqueles que ainda são cheios de miseráveis (de verdade).

O resto do mundo acha graça naquela mística de operário (inclusive com marcas), líder sindical, fundador de um partido de massas, monoglota e presidente da maior nação da América do Sul. De longe, a vida de Lula se passou mais em comitês de partido e às custas do imposto sindical do que no chão da fábrica. O partido por ele fundado é protagonista e continuador das piores práticas da política brasileira. E sua fixação na língua de Camões (ou alguma coisa derivada dela) é mais por falta de vontade de aprender um inglês básico que seja do que falta de condições.

Isso são detalhes para consumo interno. Externamente, Lula encara uma imagem idealizada do Brasil. E num momento em que a economia mundial se entrelaça e países em desenvolvimento ganham maior protagonismo mundial, como mostra a já célebre criação da sigla BRICS. Nosso Lula Boyle é visto com essa compaixão e vontade que dê certo pelo resto do mundo.

Ruth Richardson, ex-ministra das Finanças da Nova Zelândia e uma das palestrantes do Fórum da Liberdade, ocorrido no início do mês em Porto Alegre, conclamou o presidente Lula a aproveitar seus minutos de fama. “Não é todo o momento em que os holofotes estão sobre você. Aproveite!”, disse a ex-ministra, pedindo que ele destravasse, em nome dos países em desenvolvimento, a Rodada de Doha. Eu iria além. Lula é o cara, tem popularidade interna ainda beirando os 70% e uma sólida maioria no Congresso. Tudo isso para quê? As únicas notícias do Congresso são de corrupção miúda e não pauta de votação. O país precisa urgentemente de reformas como a tributária e leis que acelerem a tramitação de negócios e a própria atuação do Estado (como a mudança na 8.666/93, a lei de licitações), mas simplesmente não andam. O PAC não sai do papel por essas razões, como entraves em licitações e conflito de competências na área ambiental e com o Tribunal de Contas. E o que está sendo feito para resolver essas questões de fundo, que não desaparecem apenas com discursos? Em suma, se não era para conseguir alguns avanços para o País, para que ajudar a trazer José Sarney para a presidência do Senado e o PMDB para o governo?

Susan Boyle, desempregada e desconhecida, virou notícia em jornais por todo o mundo e negocia grandes contratos para gravar discos. E Lula? Nesses sete anos, o Brasil se tornou mais competitivo, ou seja, ganhou capacidade real de gerar mais empregos e não apenas quando a economia vai bem porque o resto do mundo crescia como nunca? Ser “o cara” para o resto do mundo vai conseguir aumentar o acesso a nossos produtos?

Que Lula veja o exemplo de Susan Boyle e faça alguma agenda produtiva neste final de mandato, ou então o resto do governo vai ser apagar fogueira em tempos de crise. Primeiro a indústria automobilística, depois as prefeituras, seguindo pelos Estados, fabricantes de geladeiras etc. Espero que os brasileiros não tenham que chorar uma grande oportunidade perdida de reforma ouvindo um CD com músicas de Susan Boyle, que esta sim está sabendo não desperdiçar uma chance.

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