Quem assistiu ao Sexta Cultural, da TVU, desta sexta-feira (20-03-09) pôde conferir a nossa conversa com Raimundo Carrero, Izabela Domingues e Marcelo Pelizzoli sobre diversos temas, inclusive a morte de Clodovil. Hoje a imprensa registra algumas matérias sobre o famoso costureiro. Abaixo, duas entrevistas, a primeira por Ruy Castro, na Folha de São Paulo e outra de Diego Escosteguy, da Veja.
(Renato Lima)
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RUY CASTRO
Entrevista com Clodovil
RIO DE JANEIRO – O telefone tocou no ateliê da av. Cidade Jardim, em São Paulo, interrompendo minha entrevista com Clodovil para “Playboy”. O ano, 1980. Uma senhora queria saber o preço-base de um “vestido de Clodovil”.
“Não posso dizer o preço-base, minha senhora”, ele vituperou. “Isso aqui não é quitanda para ficar perguntando o preço da cenoura. Quer fazer o vestido, vem e faz, mas não fica perguntando o preço por telefone. E não tem essa de comparação, porque uma etiqueta Clodovil não é uma etiqueta João das Couves. Passe bem!”.
Retomamos a entrevista. Entra uma modelo usando um vestido de tule. Desfila para Clodovil e diz que está achatando seu busto. Ele não perdoa: “O vestido está per-fei-to, meu bem. O seu busto é que está caído. Vá procurar um cirurgião plástico, entendeu? Eu é que não vou para o analista por sua causa!”.
Perguntei-lhe sobre a acusação de que fazia apologia do homossexualismo na televisão. Foi enfático:
“Nunca fiz apologia de homossexualismo e nunca farei, porque acho um horror levantar bandeira de qualquer coisa. É uma besteira esse negócio de homossexual querer direitos e não sei o quê. O que é preciso é cada macaco no seu galho, no sentido de colocar-se diante da vida: sou homossexual e quero ser dentista, então vou ser dentista com dignidade; sou homossexual e quero ser político, então vou ser político com dignidade. Porque homossexual é filho de um homem com uma mulher, não é filho de gay. O que esses grupinhos da apologia fazem é ficar falando de sexo o tempo todo, o que acaba numa masturbação a dois”.
Ele era assim, duro, direto. Respondeu a dezenas de irritantes perguntas sobre homossexualismo e, exceto por um momento, em que ameaçou me expulsar, foi um dos melhores entrevistados que já tive.
Veja
O estilista e apresentador de televisão Clodovil Hernandes, quarto deputado mais votado do país nas últimas eleições, morreu na terça-feira da semana passada, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), aos 71 anos. Ele foi internado no Hospital Santa Lúcia, em Brasília, depois que assessores o encontraram inconsciente no chão do apartamento funcional em que morava. Seus últimos quatro anos foram difíceis: Clodovil sofreu de câncer na próstata, teve uma embolia pulmonar e um primeiro AVC, do qual escapou por pouco. Mesmo alquebrado pelos problemas de saúde, desde que chegou à Câmara, em 2007, embalado por quase meio milhão de votos, o deputado fez o que se esperava dele: envolveu-se em muita polêmica. Chamou uma colega de “feia” e disse que “as mulheres hoje são ordinárias, trabalham deitadas e descansam em pé”. Em julho do ano passado, Clodovil conversou com o repórter Diego Escosteguy, de VEJA, em seu extravagante gabinete na Câmara. A entrevista que se segue, extraída dessa conversa, é um bom retrato de quem era Clodovil – e do que ele pensava. Foi como se o deputado estivesse no quadro A Lente da Verdade, de um de seus programas de televisão.
(…)
É possível resgatar a ética da Câmara?
E o brasileiro tem ética, por acaso? A Câmara é o reflexo do Brasil. O problema é que o brasileiro se vende barato. É só o político dar uma cesta básica que ganha o voto. Isso acontece no país inteiro, é uma tradição que vem dos índios. Eles se vendiam por colares e espelhinhos. Esse processo continua igual na escolha das pessoas que vão comandar o país. Elas vêm para Brasília e saem gordas de tanto mamar na vaca profana.
(…)
O senhor teve 494 000 votos. O que explica essa votação expressiva?
Dizem que a população votou em mim como uma forma de contestação. Na verdade, não foi. Meu voto veio da mãe de família, que induziu o filho e o esposo a votar em mim. Tenho uma história que ilustra bem isso. Quando eu era candidato, dois assaltantes invadiram minha casa. Eu estava pintando de cueca, e de cueca continuei. Eles pediram dinheiro, mas, quando descobriram quem eu era e ouviram um pito, saíram rastejando da minha casa, pedindo desculpas. No dia seguinte, a mãe de um deles me ligou para me agradecer por ter dado aquela lição. E me contou que os dezesseis votos da família dela seriam para mim. Isso não é voto de protesto. É voto de quem acredita nos meus valores.
Por que o senhor não apresentou nenhum projeto defendendo o direito dos homossexuais?
Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos. Foi num domingo, depois da missa. Sentei no chão e pensei: meu Deus, minha mãe não é amada por ninguém. Meu pai nunca soube que eu vi. Quando ele me perguntou, dois anos depois, se eu era gay, não respondi. Nunca mais se falou sobre isso lá em casa. Mas eu poderia ter dito o diabo para ele.