Café Colombo

Caio Fernando Abreu em biografia

quinta-feira, julho 9th, 2009

Esse lançamento é a cara do “produtor Correia”. Record com novo livro sobre Caio Fernando Abreu. Segue o release:

——————–

No final da década de 70, Paula Dip viu um bilhete sobre sua mesa na redação de uma revista paulistana. No papel estava a queixa de um colega de redação. Como ela, que daria uma festa de aniversário super badalada, ainda não o havia convidado? perguntava um indignado Caio Fernando Abreu no papelzinho. A bronca foi o início de uma amizade que atravessou intensamente os anos 80. Colegas de trabalho, de bar, de confissões e da vida, Paula e Caio testemunharam as loucuras daqueles tempos apoiados em uma relação de carinho que se estendeu até 1996, quando ele morreu de Aids. Agora, Paula faz sua parte e lança o relato dessa história, que se confunde com a vida de uma geração. “Para sempre teu — era assim que Caio Fernando Abreu assinava certas cartas e foi a partir do nosso trato de publicá-las que nasceu este livro”, explica a autora.

PARA SEMPRE TEU, CAIO F. desvenda um pouco da personalidade de um dos autores que melhor traduziu seu tempo no cenário cultural brasileiro. Caio Fernando Abreu foi uma figura marcante de literatura brasileira contemporânea. É enorme a quantidade de livros, estudos, peças e debates criados a partir da obra que ele deixou. Jornalista polêmico, intenso, sarcástico e genial, foi grande amigo de Paula, a quem dedicou um conto no seu clássico Morangos mofados.

Durante os vinte anos que durou essa amizade, ela o viu publicar, ganhar prêmios, viajar, ir ao cinema, amar, sofrer por amor, chorar de alegria e rir da tristeza, ouvir música, tomar chá, fazer piadas e ironias; trabalhar como ator, escritor, astrólogo, jornalista, roteirista, dramaturgo. Este livro é mais que uma biografia: é o registro intenso de uma amizade.

Em PARA SEMPRE TEU, CAIO F., Paula reúne cartas, bilhetes e particularidades que dividiu com o escritor, além de depoimentos de pessoas importantes na vida de Caio, como Cazuza, Ney Matogrosso, entre outros. O resultado é um emocionante relato de quem acompanhou de perto o mundo do “Escritor da paixão” — como o definiu Lygia Fagundes Telles.

PARA SEMPRE TEU, CAIO F.

Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu

Paula Dip
Editora Record
504 páginas
Preço: R$ 58,00

A personalidade forte de Clodovil

sábado, março 21st, 2009

Quem assistiu ao Sexta Cultural, da TVU, desta sexta-feira (20-03-09) pôde conferir a nossa conversa com Raimundo Carrero, Izabela Domingues e Marcelo Pelizzoli sobre diversos temas, inclusive a morte de Clodovil. Hoje a imprensa registra algumas matérias sobre o famoso costureiro. Abaixo, duas entrevistas, a primeira por Ruy Castro, na Folha de São Paulo e outra de Diego Escosteguy, da Veja.

(Renato Lima)

——————————

RUY CASTRO

Entrevista com Clodovil

RIO DE JANEIRO – O telefone tocou no ateliê da av. Cidade Jardim, em São Paulo, interrompendo minha entrevista com Clodovil para “Playboy”. O ano, 1980. Uma senhora queria saber o preço-base de um “vestido de Clodovil”.
“Não posso dizer o preço-base, minha senhora”, ele vituperou. “Isso aqui não é quitanda para ficar perguntando o preço da cenoura. Quer fazer o vestido, vem e faz, mas não fica perguntando o preço por telefone. E não tem essa de comparação, porque uma etiqueta Clodovil não é uma etiqueta João das Couves. Passe bem!”.
Retomamos a entrevista. Entra uma modelo usando um vestido de tule. Desfila para Clodovil e diz que está achatando seu busto. Ele não perdoa: “O vestido está per-fei-to, meu bem. O seu busto é que está caído. Vá procurar um cirurgião plástico, entendeu? Eu é que não vou para o analista por sua causa!”.
Perguntei-lhe sobre a acusação de que fazia apologia do homossexualismo na televisão. Foi enfático:
“Nunca fiz apologia de homossexualismo e nunca farei, porque acho um horror levantar bandeira de qualquer coisa. É uma besteira esse negócio de homossexual querer direitos e não sei o quê. O que é preciso é cada macaco no seu galho, no sentido de colocar-se diante da vida: sou homossexual e quero ser dentista, então vou ser dentista com dignidade; sou homossexual e quero ser político, então vou ser político com dignidade. Porque homossexual é filho de um homem com uma mulher, não é filho de gay. O que esses grupinhos da apologia fazem é ficar falando de sexo o tempo todo, o que acaba numa masturbação a dois”.
Ele era assim, duro, direto. Respondeu a dezenas de irritantes perguntas sobre homossexualismo e, exceto por um momento, em que ameaçou me expulsar, foi um dos melhores entrevistados que já tive.

Veja
O estilista e apresentador de televisão Clodovil Hernandes, quarto deputado mais votado do país nas últimas eleições, morreu na terça-feira da semana passada, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), aos 71 anos. Ele foi internado no Hospital Santa Lúcia, em Brasília, depois que assessores o encontraram inconsciente no chão do apartamento funcional em que morava. Seus últimos quatro anos foram difíceis: Clodovil sofreu de câncer na próstata, teve uma embolia pulmonar e um primeiro AVC, do qual escapou por pouco. Mesmo alquebrado pelos problemas de saúde, desde que chegou à Câmara, em 2007, embalado por quase meio milhão de votos, o deputado fez o que se esperava dele: envolveu-se em muita polêmica. Chamou uma colega de “feia” e disse que “as mulheres hoje são ordinárias, trabalham deitadas e descansam em pé”. Em julho do ano passado, Clodovil conversou com o repórter Diego Escosteguy, de VEJA, em seu extravagante gabinete na Câmara. A entrevista que se segue, extraída dessa conversa, é um bom retrato de quem era Clodovil – e do que ele pensava. Foi como se o deputado estivesse no quadro A Lente da Verdade, de um de seus programas de televisão.
(…)
É possível resgatar a ética da Câmara?
E o brasileiro tem ética, por acaso? A Câmara é o reflexo do Brasil. O problema é que o brasileiro se vende barato. É só o político dar uma cesta básica que ganha o voto. Isso acontece no país inteiro, é uma tradição que vem dos índios. Eles se vendiam por colares e espelhinhos. Esse processo continua igual na escolha das pessoas que vão comandar o país. Elas vêm para Brasília e saem gordas de tanto mamar na vaca profana.
(…)
O senhor teve 494 000 votos. O que explica essa votação expressiva?
Dizem que a população votou em mim como uma forma de contestação. Na verdade, não foi. Meu voto veio da mãe de família, que induziu o filho e o esposo a votar em mim. Tenho uma história que ilustra bem isso. Quando eu era candidato, dois assaltantes invadiram minha casa. Eu estava pintando de cueca, e de cueca continuei. Eles pediram dinheiro, mas, quando descobriram quem eu era e ouviram um pito, saíram rastejando da minha casa, pedindo desculpas. No dia seguinte, a mãe de um deles me ligou para me agradecer por ter dado aquela lição. E me contou que os dezesseis votos da família dela seriam para mim. Isso não é voto de protesto. É voto de quem acredita nos meus valores.
Por que o senhor não apresentou nenhum projeto defendendo o direito dos homossexuais?
Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos. Foi num domingo, depois da missa. Sentei no chão e pensei: meu Deus, minha mãe não é amada por ninguém. Meu pai nunca soube que eu vi. Quando ele me perguntou, dois anos depois, se eu era gay, não respondi. Nunca mais se falou sobre isso lá em casa. Mas eu poderia ter dito o diabo para ele.

Anuncie no Café Colombo

Café Colombo - Seu programa de livros e idéias
Conteúdo publicado sob Licença Creative Commons

Wenetus