Café Colombo

Susan Boyle e Lula

quarta-feira, abril 22nd, 2009

Do meu artigo lá para o Ordemlivre:

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Susan Boyle e Lula

por Renato Lima

Susan Boyle é uma desengonçada dona de casa escocesa com 47 anos, que não saía do seu vilarejo e confessou nunca ter beijado um homem. Sua vida teve uma reviravolta ao participar, em 11 de abril deste ano, de um programa de TV chamado “Britain’s got talent” e cantado maravilhosamente uma música de “Os miseráveis” (provavelmente você, leitor, faz parte dos milhões de pessoas que viram o vídeo no YouTube).

Lula também teve seu dia de Susan Boyle. Foi quando Obama, líder carismático do momento e presidente do “império” americano, chamou Lula de “o cara” durante a reunião do G-20. Um gracejo, mas que deixou Lula deslumbrado. Ele estava lá como um dos líderes dos países em desenvolvimento, aqueles que ainda são cheios de miseráveis (de verdade).

O resto do mundo acha graça naquela mística de operário (inclusive com marcas), líder sindical, fundador de um partido de massas, monoglota e presidente da maior nação da América do Sul. De longe, a vida de Lula se passou mais em comitês de partido e às custas do imposto sindical do que no chão da fábrica. O partido por ele fundado é protagonista e continuador das piores práticas da política brasileira. E sua fixação na língua de Camões (ou alguma coisa derivada dela) é mais por falta de vontade de aprender um inglês básico que seja do que falta de condições.

Isso são detalhes para consumo interno. Externamente, Lula encara uma imagem idealizada do Brasil. E num momento em que a economia mundial se entrelaça e países em desenvolvimento ganham maior protagonismo mundial, como mostra a já célebre criação da sigla BRICS. Nosso Lula Boyle é visto com essa compaixão e vontade que dê certo pelo resto do mundo.

Ruth Richardson, ex-ministra das Finanças da Nova Zelândia e uma das palestrantes do Fórum da Liberdade, ocorrido no início do mês em Porto Alegre, conclamou o presidente Lula a aproveitar seus minutos de fama. “Não é todo o momento em que os holofotes estão sobre você. Aproveite!”, disse a ex-ministra, pedindo que ele destravasse, em nome dos países em desenvolvimento, a Rodada de Doha. Eu iria além. Lula é o cara, tem popularidade interna ainda beirando os 70% e uma sólida maioria no Congresso. Tudo isso para quê? As únicas notícias do Congresso são de corrupção miúda e não pauta de votação. O país precisa urgentemente de reformas como a tributária e leis que acelerem a tramitação de negócios e a própria atuação do Estado (como a mudança na 8.666/93, a lei de licitações), mas simplesmente não andam. O PAC não sai do papel por essas razões, como entraves em licitações e conflito de competências na área ambiental e com o Tribunal de Contas. E o que está sendo feito para resolver essas questões de fundo, que não desaparecem apenas com discursos? Em suma, se não era para conseguir alguns avanços para o País, para que ajudar a trazer José Sarney para a presidência do Senado e o PMDB para o governo?

Susan Boyle, desempregada e desconhecida, virou notícia em jornais por todo o mundo e negocia grandes contratos para gravar discos. E Lula? Nesses sete anos, o Brasil se tornou mais competitivo, ou seja, ganhou capacidade real de gerar mais empregos e não apenas quando a economia vai bem porque o resto do mundo crescia como nunca? Ser “o cara” para o resto do mundo vai conseguir aumentar o acesso a nossos produtos?

Que Lula veja o exemplo de Susan Boyle e faça alguma agenda produtiva neste final de mandato, ou então o resto do governo vai ser apagar fogueira em tempos de crise. Primeiro a indústria automobilística, depois as prefeituras, seguindo pelos Estados, fabricantes de geladeiras etc. Espero que os brasileiros não tenham que chorar uma grande oportunidade perdida de reforma ouvindo um CD com músicas de Susan Boyle, que esta sim está sabendo não desperdiçar uma chance.

Brasil: uma crise permanente

quarta-feira, março 25th, 2009

Do meu artigo lá para o Ordem Livre:

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Brasil: uma crise permanente

por Renato Lima

A moeda da vez entre os integrantes do governo e seus apoiadores é dizer que a crise no Brasil existe, mas que a culpa é unicamente da “irresponsabilidade do sistema financeiro mundial” (palavras de Lula) e que o Brasil está em uma situação muito melhor. Mal mesmo estariam Estados Unidos, Europa e Japão, como falou Lula em recente visita a Pernambuco (23-03-09).

Já não dá mais para falar em marolinha, mas o presidente ainda é um vendedor de confiança – embora os números reais que “entrega” estejam muito distantes do discurso. A crise, que ele dizia não existir por aqui, já teria passado. Discursando durante a inauguração de uma fábrica da Sadia em Pernambuco, o presidente disse que o pior já passou e que os números do Caged mostram geração positiva de empregos a partir de fevereiro. E que o Estado brasileiro teria instrumentos que os países ricos não teriam, a exemplo dos bancos públicos, para aumentar o crédito nesse momento.

Esses “instrumentos” não existem sem custo. Os bancos públicos brasileiros já quebraram várias vezes. O Proer ficou bastante conhecido, mas o custo do Proes – sigla para Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária, lançado em 1996, foi pouco conhecido, girando na casa dos R$62 bilhões (valores da época). O Proes lidava apenas com os bancos estaduais, os federais continuam por aí. Em 2001 o pagador de impostos brasileiros teve de colocar mais R$ 12,5 bilhões para saldar créditos pobres de bancos federais, através do Programa de Fortalecimento das Instituições Financeiras Federais. Ainda hoje, cerca da metade do setor bancário está nas mãos do governo – esse mesmo setor que o próprio governo afirma cobrar spreads (diferença entre o custo de captação e o quanto se cobra nos empréstimos) absurdos.

Ter alta concentração de bancos estatais não foi para o Brasil uma dádiva, mas um custo. Não apenas econômico, mas também político. A concessão de crédito pode sempre ser alvo de politização. Vejamos o exemplo recente da Embraer. A fabricante brasileira de aviões, com a queda nas suas vendas, se viu forçada a demitir 20% do seu efetivo, somando 4,2 mil pessoas. Uma das reclamações dos sindicalistas era de que a empresa contava com financiamento do BNDES e que o governo deveria proibir tais decisões. Claramente o financiamento através de um banco estatal é visto não como operação financeira, mas como um favor do governo, que deve ser retribuído.

Lula também defendeu, no mesmo discurso, a gastança como forma de combater a crise. “Nessa crise não se deve fazer contenções de despesa. Antes, quando tinha crise se falava em fazer ajuste fiscal. Mas, nessa crise, para que a gente vença ela, temos que fazer mais investimentos. Tem que gastar dinheiro com coisas que gerem empregos e credibilidade na sociedade de que nós estamos fazendo a coisa certa”, discursou Lula. É difícil alguém acreditar na palavra de uma pessoa que sistematicamente nega a realidade. Além disso, a capacidade do governo gastar em investimentos – sair da intenção à execução efetiva – é baixíssima. Mesmo tendo dinheiro em caixa as coisas não andam. Não é culpa deste governo, mas da máquina pública brasileira. Que simplesmente não foi reformada e, quando tinha quem assim o propusesse (como Bresser Pereira no primeiro mandato FHC), foi torpedeado por quem hoje ocupa o governo.

O estouro da bolha de ativos (não apenas imobiliário) leva a sacrifícios nos países ricos, como menor consumo, adiamento de planos individuais e aumento no desemprego. Mas, ao final da crise, eles vão continuar com melhores estruturas educacionais, incentivos ao empreendedorismo, e incomparável diferença em segurança pública.

Já os problemas do Brasil são mais profundos e menos conjunturais, ligados em boa parte ao que o governo acredita que vai nos tirar da crise. Outros são ainda mais complexos, mas que também evidenciam que a crise aqui é permanente. Para ficar numa única realidade, é quatro vezes mais fácil morrer de violência no Brasil do que nos Estados Unidos, ou 85 vezes em comparação com a Inglaterra* – dois dos países mais afetados pela crise. E, para Lula, eles é que estão com problemas maiores.

Mas vamos colocar as coisas no devido lugar. Com a crise, os Estados Unidos passam da viagem de primeira classe para a classe executiva. E o Brasil, que parecia que começava a viajar de avião, ainda que de empresas low fare, low cost, volta para a rodoviária.

* Dados do estudo Mapa da violência: os jovens da América Latina, elaborado por Julio Jacobo Waiselfisz, Diretor de Pesquisas do Instituto Sangari.

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