O escritor não explica nenhum dos gêneros das mulheres boas. Ele prefere discorrer sobre o gênero das ditas “más”. É sempre mais fácil e delicioso falar das vilãs. Mas uma mulher caprichosa é uma vilã? Ele não abre o leque. Acredito que uma mulher que não obedeça a todas as ordens e vontades do marido pode se tornar “caprichosa” por ter uma opinião contrária a do seu senhor. Neste caso, ele, o homem, também pode ser caprichoso de maneira que nunca quer ser contrariado. Alguém tem que ceder. Mas segundo Machado, só o homem cede…
Gosto da narrativa que ele tece, pois, é possível sentir tédio no texto (não do texto), nos períodos curtos dos exemplos, talvez para demonstrar o quanto pode ser aborrecida a vida ao lado de uma mulher caprichosa.
(Renata Santana)
III
Tratemos hoje das mulheres caprichosas.
Uma mulher caprichosa é como o vento, que muda de velocidade e de direção, com uma facilidade própria do vento.
Para um amante extremoso uma mulher caprichosa é um martírio lento.
Está a noite chuvosa o homem está aborrecido; parece-lhe melhor ir pra casa, passar algumas horas com a mulher, conversar de amores, isolar-se do mundo, e viver para si.
Não, senhor. É nessa mesma ocasião que a senhora que ir ao teatro, onde se representa peça nova. Ele insta, ela teima; chora, aborrece-se, fecha-se; o homem que tudo pode, cede.
E lá vai.
Mas no teatro, onde o homem foi só por comprazer, tudo lhe aborrece, tudo o enjoa. A mulher para gozar o triunfo, não lhe presta a atenção. Que faz êle? Sai ao corredor, e aí por acaso encontra um velho amigo que anda a procura dele, e que vai dar-lhe notícias importantes de um negócio útil para os seus interêsses. O homem já abençoa o capricho da mulher, e vai ouvir as informações do amigo. Mas é nessa mesma ocasião que ela acha o espetáculo aborrecido e quer voltar.
E volta.
Se é namorada apenas, a mulher caprichosa não deixa de ser um tormento, ou talvez, é ainda um tormento maior.
Ele quer dançar com a filha do Sr.***; mas a namorada não quer. Quer ir a passeio onde ela vai, mas ela desfaz o passeio; não há pensamento por mais inocente que o capricho não envenene e não aproveite.
Um dia, cuida ele em ir passar algumas horas felizes em casa da namorada; mas ela está aborrecida, doente, não olha para ele, sorri para outro, mete o inferno na alma do pobre namorado.
Não há carinhos, nem amor sincero que se façam valer diante da mulher caprichosa.
E o capricho não é amor.
O capricho é a casquilhice, é o brinquedo, o namoro, é tudo, menos o amor verdadeiro, o amor grande, o amor único.
O capricho vem do espírito calmo e frio: quando há amor, não há calma nem frieza de espírito. Por isso, um marido ou um namorado que forem perspicazes não devem tomar o capricho como uma prova de afeição, senão como um cálculo ridículo e amofinador.
Mulheres minhas, se quereis ser grandes, belas e verdadeiras, nunca vos deixeis ir ao capricho; porque não ganhais nada com isso, antes perdeis…