Café Colombo

O prazo das políticas brasileiras

quarta-feira, julho 1st, 2009

Do meu artigo para o Ordem Livre:

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O prazo das políticas brasileiras
30 de Junho de 2009
por Renato Lima

O ministro Mangabeira Unger está de saída do governo Lula. Voltará para Harvard após comandar a estranhíssima Secretaria de Longo Prazo, criada apenas para abrigá-lo, não para fazer qualquer coisa. Mais do que um fato isolado, é revelador do Estado brasileiro, pleno de anúncios e raso de avaliações.

Entrevistei três vezes Mangabeira como ministro. Na última acompanhei uma palestra sua para integrantes de um governo estadual. Após ouvir pacientemente as perorações de Mangabeira, foi aberto um debate para diversos secretários comentarem as propostas do ministro. Após ouvir alguns elogios protocolares, também recebeu críticas pertinentes ao que havia falado, à sua interpretação do desenvolvimento do Nordeste. Anotei umas dez perguntas/críticas que ele teria de responder, algumas delas interessantes, que poderiam dar um lead para a minha matéria. Pois bem, Mangabeira retoma o microfone e diz: “Envieeem por e-mail essas observaçõeees”. Obviamente, uma frustração geral. Mangabeira veio para falar e não para ouvir. E ainda impondo ao contribuinte o custo das passagens aéreas, dele e da equipe, hotel, e o tempo de todos os presentes.

Antes de assumir o poder, o presidente Lula dizia que o Ministério do Planejamento seria muito mais forte do que o da Fazenda, justamente uma demonstração da retomada do “Estado desenvolvimentista e planejador”. O que se viu é que forte mesmo ficou a Casa Civil, por motivos meramente eleitorais. O histórico da Ministra Dilma Rousseff no governo é de ter criado um modelo energético que poluiu e encareceu a matriz brasileira – ao estimular as térmicas de óleo combustível no sistema elétrico -, quase levou a um apagão em 2007 e depois foi comandar um pacote de obras que… não sai do canto. Para ficar em apenas duas, Transposição e Transnordestina, são dois projetos estruturadores do primeiro mandato de Lula que não ficaram prontos nem no segundo. De 50 anos em 5 adotamos o 2 em 8.

Esse mesmo governo lançou, por duas vezes, uma Nova Política Industrial. A primeira, em 2004, elegeu “atividades portadoras de futuro”, como fármacos, semicondutores, software e bens de capital. Na época, o ministro de Ciência e Tecnologia era Eduardo Campos, atualmente governador de Pernambuco. Ele propagava uma meta de que em 2007 o Brasil estaria exportando US$ 2 bilhões em softwares – o que já se dizia ser muito difícil. Perguntado, Eduardo Campos dizia que era uma meta “ousada”, mas que seria cumprida. Pois bem, segundo o que apurei com fontes do setor, não chegamos nem a US$ 500 milhões; na melhor das alternativas, tivemos US$ 450 milhões. Dá para depreender que quando um ministro fala em meta “ousada” quer dizer mesmo virtual.

Em todos esses casos, vê-se que improvisam soluções, fazem grandes anúncios e esquecem o plano de trabalho. Nem a mais básica ferramenta de administração, a metodologia PDCA (Plan, Do, Check, Act) é utilizada. Paramos no PD… ou só no P. Por que as tais novas políticas industriais não atingiram seus objetivos? Por que se criou uma dispendiosa TV estatal (TV Brasil) que é assistida por quase ninguém? São exemplos de atividades que deveriam passar por avaliação e correção. Como não avaliamos os erros do passado, estamos sempre os cometendo novamente, pois são embalados em marketing e esperança, não em realidade e mérito.

Dificilmente uma empresa teria sucesso com tantos gastos de recursos de forma ineficiente, como o caso de ter mais de 40 diretores/ministros. Mas nosso governo vive de popularidade – conseguido com propaganda e apoios políticos como os amigões de Lula José Sarney e Renan Calheiros – e não de gastar bem o dinheiro extraído do nosso trabalho. Esse dinheiro todo jogado fora é péssimo para o país, mas beneficia aqueles que só pensam verdadeiramente num único prazo: o da próxima eleição.


A Petrobras e a avenida para o totalitarismo

quarta-feira, junho 17th, 2009

A Petrobras e a avenida para o totalitarismo
por Renato Lima

Este artigo começará com alguns comentários:

“A Petrobras e os brasileiros decentes e bem informados já esperavam essa atitude da Folha. Acho que a direção perdeu a noção do perigo. Ninguém mais a quer, nem sequer para o cocô de seus cachorros. A derrocada se dará muito antes que eles percebam.” – Maria Ferreira – 14/06/09

“Todos os jornalecos dessa chamada “grande mídia”, reclamam da falta de “liberdade de imprensa” mas abusam da mesma mentindo e criando falsos escândalos, demonstrando o total descompromisso com o povo e o Brasil. Deveriam receber severas punições pela extrema falta de compromisso com a verdade, precisamos de uma lei de imprensa mais rigorosa, liberdade sim, para conspirar e falsificar a verdade nunca!” – Evaldo Chaves, 14/06/09

“Esse blog realmente é fantástico. Parabéns pela iniciativa. Parabéns PETROBRAS. Só assim podemos saber como os bandidos jornalista transformam e manipulam informações para derrubar a PETROBRAS.” – Heriveltoli – 15-06/09

“Se o jornalista que datilografou a matéria soubesse o que estava escrevendo, não estaria trabalhando no Valor Econômico, recebendo salário de jornalista. Estaria sim dando assessoria econômica a endinheirados e cobrando muito bem.” – Remindo Sauim – 15/06/09

“Os jornais atendem aos interesses de seus donos e PONTO! Os jornais nao tem nenhum compromisso com a verdade, apenas com o lucro.” – Gilberto – 12/06/09

Esses comentários passaram por moderador e foram publicados no blog que a Petrobras criou para evitar uma CPI que a investigue.

A iniciativa do blog causou muita polêmica por ter começado vazando as perguntas de jornalistas, transformando o “ouvir o outro lado” em estragar o furo jornalístico. O presidente da Petrobras, o petista José Sérgio Gabrielli, defendeu enfaticamente o novo instrumento durante entrevista ao Roda Viva (08-06-09). Uma das linhas de argumentação é correta: trata-se de uma oportunidade para que a empresa publique na íntegra a sua versão daquilo que se lhe pergunta, que por necessidade industrial acaba sendo editada na mídia impressa (a internet não tem esse problema). Depois a empresa recuou, só publicando as perguntas depois que a matéria já foi publicada.

Mas, na mesma entrevista, Gabrielli defendeu que a empresa coloque lá opiniões próprias. Primeira questão: é para empresa estatal ter opinião própria? Temos agora uma empresa cujo objetivo estatutário, além de buscar petróleo, é produzir editoriais? A quem caberia definir a “opinião” da empresa, o presidente de plantão da Petrobras, um indicado político que nem funcionário de carreira é? O partido no poder? E se as mais de 300 estatais começarem a fazer blogs e veicular “opiniões”? Agora a Infraero, Banco da Amazônia e Dataprev teriam opinião formada sobre, sei lá, as eleições no Irã?

É espantoso que tantos comentários (o que foi aí em cima é uma ínfima parte dos vitupérios contra jornalistas e jornalismo de modo geral) sejam aprovados pela moderação.

O que se vê no Blog da Petrobras não são apenas opiniões próprias que denigrem jornalistas. É uma incitação ao ódio, como se lê nos comentários (moderados!). Lá, empresas de comunicação que atuaram por décadas no País perderam “a noção do perigo” e merecem agora “severas punições”. Mas não se trata apenas de ataques a grandes veículos de imprensa, mas até mesmo à profissão de jornalista. Nos comentários (aprovados pela Petrobras!), jornalista é chamado de bandido e fracassado, já que se fossem bons não estariam “recebendo salário de jornalista”.

Nessa profissão eu me formei, trabalho no batente, sou sindicalizado, fiz inúmeras fontes na Petrobras e ganhei prêmio nacional na área de petróleo e gás natural. Vi muita gente na Petrobras que trabalha para o país e outros com extrema preocupação política, a ponto de colocar em risco grandes projetos, como a Refinaria Abreu e Lima. Mas é espantoso o ódio que a companhia demonstra agora com esses questionamentos, a ponto de ironizar o próprio trabalho jornalístico – diante de um constrangedor apoio tácito da ABI e Fenaj.

Em tese, todas as estatais foram criadas para servir a uma necessidade pública e ao Estado brasileiro, não ao partido no poder. E grande parte da correção dos desvios veio graças aos instrumentos de fiscalização, dos quais a imprensa é parte vital. Transformar essas empresas em veículos dotados de opiniões próprias é uma extrapolação perigosíssima, ainda mais com esse trabalho de difamação de quem as fiscaliza. Estamos diante da avenida que vai dar no totalitarismo.

A democracia de Tocqueville e a nossa

quarta-feira, maio 20th, 2009

Do meu artigo ao Ordem Livre:

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A democracia de Tocqueville e a nossa
20 de Maio de 2009
por Renato Lima

Não só pelo tema, Democracia na América, de Alexis de Tocqueville, é um livro fabuloso. Às reflexões profundas o francês acrescentou também um estilo belo, cativante de ler. Entretanto, o prazer que se sente com suas observações pode ser superado pela decepção da comparação com o Brasil de hoje. Tem-se a estranha sensação de que quase tudo o que é apontado como risco para a democracia e o bom governo é assunto corriqueiro no Brasil. Especialmente agora, quando estamos na véspera de um ano eleitoral.

No Brasil temos um executivo fortíssimo, que comanda uma arrecadação próxima a 40% do PIB, capaz de, em uma única canetada, alterar completamente leis e criar novas (através das Medidas Provisórias). Com uma imensa máquina administrativa, só de ministros são quase quatro dezenas, acompanhado de outros milhares de cargos de confiança e gratificações a serem distribuídas por todo o Brasil.

Nesse estado de coisas, o Congresso é muito fraco. Raramente pauta discussões e mesmo os legisladores que propõem algo têm o seu projeto substituído por algum do interesse (e iniciativa) do governo. O orçamento, que seria uma prerrogativa do Congresso, é feito pelo Executivo, negociado com o Congresso e gasto, da forma que convier, pelo Executivo, que tem o poder de contingenciar os gastos. A força de um parlamentar está em ter prestígio no governo para conseguir liberar verbas e indicar apadrinhados para cargos.

O judiciário é o poder mais rico. Possui média salarial de R$ 16,8 mil (contra R$ 6.691 do Executivo e R$ 12,5 mil do Legislativo). Tem operador de máquina de fotocópia ganhando mais do que engenheiro. Possui também as melhores instalações físicas de trabalho. Mas simplesmente não funciona. É lento, perdulário, corrupto e incerto.

Mas vejamos o que dizia o francês Tocqueville, visitando os EUA no século XIX. O poder executivo era dividido, com total princípio de subsidiariedade. A cidadania se construía na base, especialmente nos municípios, onde a maior parte das coisas eram decididas. Como o poder do presidente da União era limitado, ele podia conviver tranquilamente com um Congresso oposicionista. “Ninguém, até o momento, foi encontrado para arriscar a sua honra e vida para se transformar em presidente dos Estados Unidos, pois o presidente tem apenas um poder temporário, limitado e dependente”, notava.

E continua: “A razão para isso é simples: chegando ao topo da administração, ele não pode distribuir aos amigos nem muito poder nem muita riqueza ou glória, e sua influência sobre o Estado é muito tênue para as facções acharem sucesso ou ruína em sua ascensão ao poder.”

Por aqui, nada mais distante (e, infelizmente, os próprios Estados Unidos também já não são assim, embora num grau deveras menor do que o Brasil). Com a ascensão do PT ao governo, o que era feito de forma ocasional e envergonhada foi elevado à prática curricular. Este é o caso do loteamento total de cargos e comandos, de estatais a fundos de pensão. Vejamos o exemplo mais recente. Para barrar a CPI da Petrobras – mais do que necessária, diga-se de passagem – uma tropa de choque do fisiologismo foi acionada, comandada pelo ministro das Relações Institucionais (que bem poderia se chamar de Ministério do Toma-Lá-Dá-Cá) José Múcio Monteiro (PTB-PE). Ele não escondeu que detonou uma série de ligações para os senadores que colocaram a assinatura mas lamentou ter conseguido reverter apenas dois nomes. Em outros momentos ele foi mais persuasivo ($$).

No governo anterior foram noticiados caso semelhante na tentativa de barrar CPIs, o que rendeu manchete dos principais jornais e negativas do governo (pouco críveis) – acompanhada por rígida fiscalização da imprensa das liberações de emendas orçamentárias. Agora, isso não causou nenhum espanto nem recriminação. É como chegar à casa de um conhecido pela primeira vez e fazer xixi de porta aberta, com toda a família presente. Os maus modos não escondem nem mais a aparência. É de dar muito medo perguntar quais outras práticas serão entronizadas.

E o que dizia Tocqueville de uma nação se aproximando de uma eleição e com possibilidade de distribuição de cargos e favores por alguém que deseja se reeleger? “Negociações, como leis, viram apenas esquemas eleitorais; cargos se tornam recompensas por serviços prestados, não à nação, mas ao chefe do governo. Apesar de atos do governo nem sempre serem contrários ao País, eles não serviriam, a todo caso, à nação”, advertia.

A impressão é que nossos poderes estão dissociados da sociedade. Como já exprimiu um deputado, estão se lixando para a opinião pública.


Os Estados Unidos e o pensamento de Nabuco – conferência em Wisconsin

quarta-feira, maio 20th, 2009

O nosso caríssimo Humberto França nos manda informações de sua peregrinação na terra do Norte saudando Joaquim Nabuco, primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Segue artigo publicado no Diário de Pernambuco por França, da Fundaj, sobre encontro realizado na Universidade de Wisconsin.

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Os Estados Unidos e o pensamento de Nabuco
Sábado – Recife, 16 de maio e 2009

Humberto França
Escritor

Um seleto grupo de historiadores e diplomatas brasileiros  e norte-americanos se reuniu na Universidade de Wisconsin, Madison, EUA, de 24 a 25 de abril passado, para discutir as idéias do pensador social, historiador, político e diplomata pernambucano, – Joaquim Nabuco. O evento “Nabuco and Madison – Uma celebração centenária” – rememorou a apresentação da conferência de Joaquim Nabuco – “The Share of America in Civilization”-, de 1909, e ensejou a inauguração na Biblioteca da Universidade de Wisconsin de uma exposição sobre o líder do Movimento Abolicionista. Na ocasião, igualmente foi lançado um programa de integração científica e cultural -  Brazil Initiative – que objetiva um maior diálogo entre os Estados Unidos e o Brasil.

O interesse pelas ideias e trajetória de Nabuco revela que na história das relações Brasil – EUA, nenhum outro brasileiro mereceu tanto reconhecimento público num país estrangeiro,  quanto Joaquim Nabuco,na ocasião em que exerceu as funções de primeiro embaixador do Brasil em Washington 1905-10. E, neste momento em que o Brasil assegura a sua posição entre as nações líderes do concerto internacional, a iniciativa da  Universidade de Wisconsin muito contribuirá para aproximar, ainda mais, os povos e as instituições dos nossos países. Decerto, promoções desse porte deveriam interessar muito mais as autoridades e as instituições do estado de Pernambuco. No entanto, passaram quase despercebidas. É lamentável que não se obtenha por meio dessas ações, uma maior divulgação da nossa história e dos nossos grandes líderes no Exterior.

O evento em Madison teve a irretocável coordenação do professor Severino Albuquerque, que o realizou com o apoio do Programa de Estudos Latino Americanos, Caribenhos e Ibéricos. A extensa programação teve início com uma saudação do Dr. José Thomaz Nabuco Filho. Em seguida, dois conferencistas ocuparam a tribuna. O embaixador João Almino, cônsul-geral do Brasil em Chicago, tratou do tema: “The importance of Nabuco’s Madison Speech”, e este articulista discorreu sobre “Joaquim Nabuco nos Estados Unidos: A Diplomacia Pan-Americanista, 1905-1910”, encerrando uma sessão solene, muito concorrida, em que estiveram presentes membros da reitoria da Universidade do Wisconsin, autoridades e convidados.

No decorrer da Conferência, realizaram-se treze palestras de notáveis professores, pesquisadores e diplomatas brasileiros e norte-americanos. Todas de altíssima qualidade científica. Destacaram-se as apresentações do presidente da Associação dos Diplomatas do Ministério das Relações Exteriores, – Dr. Paulo Roberto de Almeida, e da ex-cônsul dos EUA no Recife, Diana Page, e a do Dr. Alfred M. Boll, estes do Departamento de Estado. A primeira parte da programação também contou com as palestras  dos professores Dain Borges, Pedro Meira e João Cezar de Castro Rocha, representando as Universidades de Chicago, Princeton, USA  e Manchester (Grã-Bretanha), respectivamente.

Na última tarde do evento, os eminentes professores  Jefrrey Needell, da Universidade da Florida,  e Steven Topic, da Universidade da Califórnia, discorreram acerca do Joaquim Nabuco, o abolicionista e o político liberal. As apresentações prosseguiram com as palestras dos professores Joshua Alma Enlsmen, da Academia Militar de West Point, do Dr. Peter Beattie, de Universidade de Michigan e da pesquisadora Courtney Campbel. A palestra do professor Celso T. Castillo, também da Universidade de Vanderbilt, encerrou uma das mais importantes iniciativas realizadas no Exterior, nos últimos anos, sobre o pensamento mestre e a ação política e diplomática de Joaquim Nabuco.

Crise tem as digitais do governo – Fórum da Liberdade 2009

sábado, abril 11th, 2009

Conferimos mais uma vez os debates do Fórum da Liberdade, que já vai na sua edição de número 22. Desta vez, o evento foi aberto por Vicente Fox, ex-presidente do México e teve como destaque ainda a ex-ministra das Finanças da Nova Zelândia, Ruth Richardson e Otto Guevara Guth, da Costa Rica. Abaixo, matéria minha para o Jornal do Commercio sobre o evento.

(Renato Lima)

CRISE TEM AS DIGITAIS DO GOVERNO

Renato Lima

PORTO ALEGRE – A crise econômica global não foi causada por erros do capitalismo nem se resolverá por intervenções do governo. Essa interpretação não é a dominante na mídia hoje em dia, mas foi a que mais se viu durante a 22ª edição do Fórum da Liberdade, encontro promovido anualmente pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE) do Rio Grande do Sul, que reúne sempre a nata do liberalismo no Brasil.

O IEE é formado por jovens empresários que se reúnem para estudar (há leituras obrigatórias) e debater políticas públicas no Brasil. Todos os anos realizam um fórum de dois dias, famoso por abrigar pluralidade de pensamento e trazer grandes personalidades como prêmios nobel de economia, a exemplo de Gary Becker, James Buchanan e Douglass North. A edição deste ano aconteceu entre os dias 6 e 7 de abril.

“Essa é uma crise provocada pelo governo e suas políticas populistas. As digitais do governo estão em todos os lugares”, falou o vice-presidente do IEE, Luiz Leonardo Fração. O populismo estaria no fato de que, desde o governo Bill Clinton, a administração americana incentivou empresas hipotecárias a tomarem riscos excessivos em empréstimos a consumidores com histórico de inadimplência – gerando a crise do subprime. A outra grande digital estaria no fato de que a autoridade monetária americana praticou juros baixos por tempo excessivo, o que deslocou os ativos financeiros de sua base real. “Que crise neoliberal é essa onde o Banco Central mantém os juros artificialmente baixos? Onde títulos privados são garantidos pelo governo? Onde 20 líderes do G-20 se reúnem durante dois dias, emitem uma montanha de dinheiro, e acham que a crise está resolvida? Uma cultura de liberdade é a chave para fugir do caminho da servidão”, concluiu Fração.

O grupo tem a sua linha de pensamento, mas valoriza a liberdade e o amplo debate de opiniões. Por isso o nome Fórum da Liberdade e a lista de grandes debates realizados, como o filósofo de direita Olavo de Carvalho e o ex-governador Leonel Brizola falando sobre educação. Ou, como no ano passado, um cientista do painel de mudanças climáticas da ONU (IPCC) debatendo o assunto com outro cientista de uma linha radicalmente contrária, a de que o mundo está esfriando.

A edição deste ano teve menos estrelas e apenas um painel com debate que pôde ser considerado “quente”: o sobre cotas raciais, entre o sociólogo Demétrio Magnoli (contrário) e Frei David Raimundo Santos (a favor), contando ainda com a participação do economista Franklin Cudjoe, de Gana.

O encontro foi aberto pelo ex-presidente mexicano Vicente Fox, que compartilhou o receio do grupo em relação às políticas que estão sendo tomadas para combater a crise. Segundo Fox, colocar muitos limites à criatividade pode ser perigoso e resultar em menor crescimento.

Executivo de sucesso por 15 anos na Coca-Cola, Vicente Fox foi o primeiro presidente da oposição a ganhar eleições no México desde 1920. Conseguiu sair com 70% de aprovação e eleger o sucessor. Para ele, a América Latina, com seus seguidos giros à esquerda ou à direita, acabou se atrasando em desenvolvimento. “O caminho mais rápido entre dois pontos é uma reta”, comparou. E agora, com a crise econômica, há riscos para um retrocesso, defendeu.

“Colocar limites à liberdade, criatividade, às novas ideias, pode ser perigoso. Hoje querem mudar esse sistema que nos deu tanta prosperidade. Tem que fazer como uma cirurgia de alta precisão. Tirar o que está ruim e preservando o resto”, sugeriu. Segundo ele, o caminho para a prosperidade é conhecido: poupança, investimento e geração de emprego. “É preciso muito cuidado para, nessa época de turbulências, não adotar a solução errada”, advertiu.

Fox destacou as vantagens que o acordo do Nafta teve para o México. Segundo ele, em 2006, a balança comercial entre México e Estados Unidos era maior do que a de todos os outros países da América Latina somados. E afirmou torcer para que o seu país entre também no Mercosul, mas criticou a Venezuela, país que já negociou a adesão ao bloco, mas falta a aprovação no parlamento brasileiro. “De vez em quando geramos líderes messiânicos, que têm nostalgia do passado e falam em criar o socialismo do século XXI. Isso são coisas que ficaram no passado, assim como concentrar o poder em uma só pessoa”, criticou o ex-presidente.
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SOCORRO COM VERBA PÚBLICA TEM CUSTO ALTO

Os pacotes bilionários que são anunciados pelos governos como forma de combate à crise impressionam. Só a reunião do G-20 falou em destinar, ainda este ano, US$ 1,1 trilhão em pacotes de estímulo. Mas e o custo dessas medidas? Para a ex-ministra das Finanças da Nova Zelândia Ruth Richardson, isso pode comprometer a solvência financeira das futuras gerações, o que a fez batizar de uma política de abuso fiscal infantil (child fiscal abuse, em inglês).

Richardson é uma senhora cheia de energia e que já visitou o Brasil várias vezes. “Não estive ainda no Recife, mas estive em Salvador e briguei uma vez com Antônio Carlos Magalhães”, disse ela à reportagem do JC, logo após a sua palestra. Ministra das Finanças da Nova Zelândia entre 1990 e 1993, Ruth Richardson é contra pacotes de estímulo. “Qual o problema? Muita dívida e muita alavancagem. Como vamos responder a isso com mais débito e mais alavancagem? Por que responder com mais erros?”, questiona. A sua sugestão é que o mercado limpe o caos e depois volte a emprestar. “Quanto mais dinheiro público a General Motors vai precisar? Em crise, ativos e padrões de vida caem. Isso é o ajuste”, disse.

Na tentativa de evitar esse ajuste através de pacotes de estímulo, pode estar se criando um enorme problema no longo prazo. “Dizem que o capitalismo está ferido e o governo se apresenta como solução. Mas em vez de curar eles podem matar o paciente. Podem chamar isso de um abuso fical infantil, já que serão eles que vão ter que pagar a conta”, diz a ex-ministra.

Ruth Richardson aproveitou a presença no Fórum para fazer um desafio público para o presidente Lula. “O encontro do G-20 foi uma excelente oportunidade. Já que você ‘é o cara’, como disse Obama, aproveite que os holofotes estão sob você e faça algo sério. E a coisa séria que você pode fazer é chamar os amigos China e Índia e se colocarem como líderes para concluir a Rodada Doha”, conclamou. A Rodada Doha é promovida pela Organização Mundial de Comércio (OMC) e visa ampliar o comércio internacional, especialmente para os países pobres. “A solução para a crise é mais mercado e mais livre comércio”, sugeriu.

GUEVARA DEFENDE O LIBERALISMO

Ele tem Guevara no nome, está na América Central, mas divulga as ideias do liberalismo. Otto Guevara Guth, também presente ao Fórum da Liberdade deste ano, foi deputado e fundador do Partido Libertário da Costa Rica e será candidato a presidente na próxima eleição. Ele afirma ter descoberto como fazer suas ideias chegarem mais diretamente à população.

“Eu sou o outro Guevara, totalmente contrário a Che”, brincou Otto. “Descobrimos uma forma sexy, popular de transmitir nossas ideias. Que são poderosíssimas, porque são elas que podem tirar a nossa gente da pobreza”, acredita.

Uma das formas é mostrar que a distância entre pobres e ricos é aumentada pela má atuação das políticas de Estado que existem hoje. “Ricos e pobres devem ter direito que a sua propriedade tenha um título registrado. São os pobres que hoje sofrem por falta de título e com isso não têm acesso a crédito. A outra linha que defendemos é fazer do País uma sociedade de empreendedores. Os ricos têm dinheiro para pagar a advogados, a engenheiros, a estudos de impacto ambiental e todas as regulações absurdas que existem. O pobre não tem dinheiro para isso e fica à margem da produção de riqueza. Creio numa sociedade de empreendedores e para isso o governo deve eliminar as regulamentações absurdas que asfixiam a quem quer trabalhar”, prega.

Para tanto, ele mostra que os empreendedores informais estão fora do mercado formal porque os governos assim o deixam. Seja dificultando o acesso a um título de propriedade seja impondo muitas restrições a abrir uma empresa. “Em lugar de perseguir as pessoas que hoje estão trabalhando e empreendendo, a polícia deveria perseguir aos que roubam, aos que matam. O Estado e a polícia deve ajudar àqueles que querem produzir”, recomenda.

JUROS

O Banco Central está praticando uma taxa de juros acima da desejável, apesar dos recentes cortes. A mensagem dessa vez não vem do vice-presidente José de Alencar, mas de quem já esteve à frente do Banco Central, o economista Gustavo Franco, hoje no comando da gestora de recursos Rio Bravo e que palestrou no Fórum sobre o tema Liberdade e Intervencionismo.
Para Franco, ao contrário de outras crises que o Brasil passou, nesta a inflação está caindo, já que houve uma forte retração de demanda e a desvalorização cambial não foi repassada aos preços. “A oportunidade é para afundar com os juros para valer. E o Banco Central tem procedido com cautela”, criticou.

Escola sem partido

sexta-feira, abril 10th, 2009

Pode a escola fazer proselitismo político em sala de aula? Deve o aluno ser constrangido a concordar com o professor, mesmo quando ele diz que Che Guevara é um santo como São Francisco de Assis? Muitos diriam que não, mas poucos teriam a coragem de bater de frente com essa deseducação, como é o caso de Miguel Nagib, coordenador do movimento Escola Sem Partido.

O Café Colombo conversou com Nagib sobre sua iniciativa. “As escolas passaram a ser utilizadas como se fossem palanques eleitorais para promover ideologias, políticos e partidos políticos”, reclama. Conheça mais sobre o Escola Sem Partido ouvindo essa entrevista e visitando o site.


 
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A personalidade forte de Clodovil

sábado, março 21st, 2009

Quem assistiu ao Sexta Cultural, da TVU, desta sexta-feira (20-03-09) pôde conferir a nossa conversa com Raimundo Carrero, Izabela Domingues e Marcelo Pelizzoli sobre diversos temas, inclusive a morte de Clodovil. Hoje a imprensa registra algumas matérias sobre o famoso costureiro. Abaixo, duas entrevistas, a primeira por Ruy Castro, na Folha de São Paulo e outra de Diego Escosteguy, da Veja.

(Renato Lima)

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RUY CASTRO

Entrevista com Clodovil

RIO DE JANEIRO – O telefone tocou no ateliê da av. Cidade Jardim, em São Paulo, interrompendo minha entrevista com Clodovil para “Playboy”. O ano, 1980. Uma senhora queria saber o preço-base de um “vestido de Clodovil”.
“Não posso dizer o preço-base, minha senhora”, ele vituperou. “Isso aqui não é quitanda para ficar perguntando o preço da cenoura. Quer fazer o vestido, vem e faz, mas não fica perguntando o preço por telefone. E não tem essa de comparação, porque uma etiqueta Clodovil não é uma etiqueta João das Couves. Passe bem!”.
Retomamos a entrevista. Entra uma modelo usando um vestido de tule. Desfila para Clodovil e diz que está achatando seu busto. Ele não perdoa: “O vestido está per-fei-to, meu bem. O seu busto é que está caído. Vá procurar um cirurgião plástico, entendeu? Eu é que não vou para o analista por sua causa!”.
Perguntei-lhe sobre a acusação de que fazia apologia do homossexualismo na televisão. Foi enfático:
“Nunca fiz apologia de homossexualismo e nunca farei, porque acho um horror levantar bandeira de qualquer coisa. É uma besteira esse negócio de homossexual querer direitos e não sei o quê. O que é preciso é cada macaco no seu galho, no sentido de colocar-se diante da vida: sou homossexual e quero ser dentista, então vou ser dentista com dignidade; sou homossexual e quero ser político, então vou ser político com dignidade. Porque homossexual é filho de um homem com uma mulher, não é filho de gay. O que esses grupinhos da apologia fazem é ficar falando de sexo o tempo todo, o que acaba numa masturbação a dois”.
Ele era assim, duro, direto. Respondeu a dezenas de irritantes perguntas sobre homossexualismo e, exceto por um momento, em que ameaçou me expulsar, foi um dos melhores entrevistados que já tive.

Veja
O estilista e apresentador de televisão Clodovil Hernandes, quarto deputado mais votado do país nas últimas eleições, morreu na terça-feira da semana passada, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), aos 71 anos. Ele foi internado no Hospital Santa Lúcia, em Brasília, depois que assessores o encontraram inconsciente no chão do apartamento funcional em que morava. Seus últimos quatro anos foram difíceis: Clodovil sofreu de câncer na próstata, teve uma embolia pulmonar e um primeiro AVC, do qual escapou por pouco. Mesmo alquebrado pelos problemas de saúde, desde que chegou à Câmara, em 2007, embalado por quase meio milhão de votos, o deputado fez o que se esperava dele: envolveu-se em muita polêmica. Chamou uma colega de “feia” e disse que “as mulheres hoje são ordinárias, trabalham deitadas e descansam em pé”. Em julho do ano passado, Clodovil conversou com o repórter Diego Escosteguy, de VEJA, em seu extravagante gabinete na Câmara. A entrevista que se segue, extraída dessa conversa, é um bom retrato de quem era Clodovil – e do que ele pensava. Foi como se o deputado estivesse no quadro A Lente da Verdade, de um de seus programas de televisão.
(…)
É possível resgatar a ética da Câmara?
E o brasileiro tem ética, por acaso? A Câmara é o reflexo do Brasil. O problema é que o brasileiro se vende barato. É só o político dar uma cesta básica que ganha o voto. Isso acontece no país inteiro, é uma tradição que vem dos índios. Eles se vendiam por colares e espelhinhos. Esse processo continua igual na escolha das pessoas que vão comandar o país. Elas vêm para Brasília e saem gordas de tanto mamar na vaca profana.
(…)
O senhor teve 494 000 votos. O que explica essa votação expressiva?
Dizem que a população votou em mim como uma forma de contestação. Na verdade, não foi. Meu voto veio da mãe de família, que induziu o filho e o esposo a votar em mim. Tenho uma história que ilustra bem isso. Quando eu era candidato, dois assaltantes invadiram minha casa. Eu estava pintando de cueca, e de cueca continuei. Eles pediram dinheiro, mas, quando descobriram quem eu era e ouviram um pito, saíram rastejando da minha casa, pedindo desculpas. No dia seguinte, a mãe de um deles me ligou para me agradecer por ter dado aquela lição. E me contou que os dezesseis votos da família dela seriam para mim. Isso não é voto de protesto. É voto de quem acredita nos meus valores.
Por que o senhor não apresentou nenhum projeto defendendo o direito dos homossexuais?
Deus me livre. Quais direitos? Direito de promover passeata gay? Não tenho orgulho de transar com homem. O primeiro homem que vi transando com outro foi meu pai – era o meu tio, irmão da minha mãe. Eu tinha 13 anos. Foi num domingo, depois da missa. Sentei no chão e pensei: meu Deus, minha mãe não é amada por ninguém. Meu pai nunca soube que eu vi. Quando ele me perguntou, dois anos depois, se eu era gay, não respondi. Nunca mais se falou sobre isso lá em casa. Mas eu poderia ter dito o diabo para ele.

009 – Lições de jornalismo e das histórias eleitorais do Recife com Ronildo Maia Leite – 2

domingo, setembro 29th, 2002

Em 29 de setembro de 2002 o Café Colombo conversou com Ronildo Maia Leite, que estava lançando os livros “História das Eleições no Recife”. Na conversa, ele fala sobre Agamenon, João Cleofas, Arraes, Josué de Castro, Gustavo Krause entre outros nomes importantes da política brasileira e ainda dá boas lições de jornalismo.

 
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