Dia: 23 de abril de 2020

Festa Digital do Livro: Uma homenagem à Clarice Lispector

O evento que homenageia a escritora Clarice Lispector possui 18h de duração e será dividido em três turnos

Retrato da escritora Clarice Lispector na Década de 60. Foto: Acervo/Estadão.

Em comemoração ao Dia do Livro, a Fundação Joaquim Nabuco realiza hoje (23), das 6h à meia-noite, a Festa Digital do Livro, que homenageia a escritora e jornalista Clarice Lispector. São 18h ininterruptas de programação online com palestras, debates, entrevistas, recitais, filmes e programas de rádio e TV. Devido à pandemia da COVID-19, as apresentações serão transmitidas ao vivo de forma exclusiva na plataforma do projeto.

A escritora foi escolhida em homenagem ao seu centenário, que será comemorado em dezembro deste ano. Nascida na Ucrânia e de origem judia Chaya Pinkhasovna Lispector, tornou-se Clarice Lispector ao se mudar para Maceió, em Alagoas — onde foi naturalizada como brasileira — em razão das perseguições raciais no país e busca por melhores condições de vida. Conhecida internacionalmente, Clarice é uma das autoras mais importantes do século 20 e a maior escritora judia desde Franz Kafka.

Durante o evento será revelado o resultado dos concursos “Claricem Palavras” e “Claricem Imagens”, que encerrou as inscrições no dia 22 de abril. No concurso textual foi proposto que os interessados escrevessem comentários sobre a vida ou a obra de Lispector em até 100 palavras. O vencedor, recebe ingressos para assistir filmes no Cinema da Fundação. Já no concurso de imagens, para concorrer a premiação do livro de fotobiografia “Clarice: uma vida que se conta”, de Nádia Battella Gotlib, os internautas deveriam enviar uma foto inspirada na vida ou nas publicações da autora acompanhada por uma legenda.

Confira abaixo a programação completa do evento:

MANHÃ – DAS 6H ÀS 12H

  • Abertura com o poema “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto;
  • Saudação do presidente da Fundação Joaquim Nabuco, escritor Antônio Campos;
  • Rádio – leitura do horóscopo e de manchetes de jornais do dia 10 de dezembro de 1920;
  • Rádio – programação musical I: “O Recife está todo vivo em mim” (pout-pourri de canções das décadas de 1920 e 1930);
  • Programa de TV/Rádio A Hora das Estrelas – conversas com leitoras e leitores, escritoras e escritores;
  • O mundo do livro I – O livro didático no Brasil, com representantes da Fundação Joaquim Nabuco, do Ministério da Educação e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE);
  • Palestra – “Melhor estar no negócio do livro do que no da Aviação”, pela agente literária Luciana Villas-Boas;
  • Rádio – leitura do texto de Clarice Lispector para crianças: “O mistério do coelho pensante”.
  • TARDE – DAS 12H01 ÀS 18H
  • Palestra – “O pequeno mundo compartilhado: a subjetividade pulsante nas crônicas de Clarice Lispector”, pela escritora Cláudia Nina;
  • Entrevista com o jornalista e escritor Marcelo Pereira sobre os cronistas pernambucanos Antônio Maria e Clarice Lispector;
  • Leitura – trechos da obra de William Shakespeare, pelo seu tradutor Lawrence Flores Pereira;
  • Cinemateca pernambucana I – “O Rochedo e a Estrela”, longa-metragem de Katia Mesel, com Germano Haiut, Geninha da Rosa Borges, Pedro Oliveira, Sônia Bierbard. 
  • Palestra sobre Cervantes e Shakespeare, pelo professor João Cezar de Castro Rocha;
  • Recital de trecho do romance Don Quijote, pelo professor espanhol Ángel Espina Barrio;
  • O mundo do livro II – entrevistas com o presidente da Academia Pernambucana de Letras e da União Brasileira de Escritores.

TARDE – DAS 12H01 ÀS 18H

  • Palestra – “O pequeno mundo compartilhado: a subjetividade pulsante nas crônicas de Clarice Lispector”, pela escritora Cláudia Nina;
  • Entrevista com o jornalista e escritor Marcelo Pereira sobre os cronistas pernambucanos Antônio Maria e Clarice Lispector;
  • Leitura – trechos da obra de William Shakespeare, pelo seu tradutor Lawrence Flores Pereira;
  • Cinemateca pernambucana I – “O Rochedo e a Estrela”, longa-metragem de Katia Mesel, com Germano Haiut, Geninha da Rosa Borges, Pedro Oliveira, Sônia Bierbard. 
  • Palestra sobre Cervantes e Shakespeare, pelo professor João Cezar de Castro Rocha;
  • Recital de trecho do romance Don Quijote, pelo professor espanhol Ángel Espina Barrio;
  • O mundo do livro II – entrevistas com o presidente da Academia Pernambucana de Letras e da União Brasileira de Escritores.

NOITE – DAS 18H01 ÀS 0H

  • Palestra – “Por que ler os clássicos: por uma filosofia da leitura para entender o mundo”, pela escritora Marcia Tiburi;
  • Programa de Rádio/TV – A Hora das Estrelas;
  • Palestra – “Por uma questão de justiça: modos de ler Clarice Lispector”, pela escritora Clarisse Fukelman;
  • Cinemateca pernambucana II – “Clandestina Felicidade”, curta-metragem de filme de Marcelo Gomes e Beto Normal, com Luísa Phebo, Nathalia Corinthia, Germano Haiut, Sarah Hazin, Izabel Brito, Luci Alcântara, Elaine Kauffman, Samuel Vieira. 
  • Divulgação do resultado dos concursos “Claricem Imagens” e “Claricem Palavras”;
  • Encerramento – leitura de trecho do livro “Assombrações do Recife Velho”, de Gilberto Freyre 
Os Amantes da Pont-Neuf

Os Amantes da Pont-Neuf e a inocência dos sentidos


Os Amantes da Pont-Neuf

Foto: Divulgação. LOVERS ON THE BRIDGE,, (aka LES AMANTS DU PONT-NEUF), Juliette Binoche, Denis Lavant, 1991

Se olharmos para trás na história ocidental, mais precisamente para o Período Helenístico, iremos nos deparar com os cínicos. Esses filósofos viviam nas ruas da pólis, por escolha própria: o mais longe possível das convenções humanas e o mais próximo possível da natureza. Sua filosofia moralista acreditava que deveriam viver apenas guiados pelo seus instintos para alcançar a plenitude máxima ao final da vida.

Em “Os Amantes de Pont-Neuf” (1991), dirigido por Leos Carax, nos deparamos com Alex, um inocente jovem que mora na Pont Neuf, mais antiga e famosa ponte da capital francesa, que está interditada para revitalização. 

Alex mora na ponte por desejo próprio. No entanto, ao contrário dos cínicos, seu desejo não é motivado por um moralismo de se livrar das convenções humanas, ou – atualizando para o vocabulário moderno – do “terrível capitalismo”. Ele está na ponte porque está perdido. Dilacerado. Apenas vaga pelo mundo em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é. Vive seus dias a base de alimentos roubados, álcool e soníferos fornecidos por Hans, seu companheiro de ponte.

Ao voltar para sua “casa” depois de um automóvel passar por cima de sua perna, Alex encontra Michele; uma desenhista que foi morar na rua após ser acometida por uma doença que a está deixando cega e ter sido largada por seu antigo amante.

Sabemos disso porque, curioso e interessado na vida da bela mulher, o jovem invade a casa dela e pega seu diário. Ao lê-lo, se indaga: “O que quer dizer primeiro amor?”

Dois seres opostos que se encontram por um acaso do universo. Em diferentes extremidades. Ela quer fugir. Ele encontrar.

Esses corpos se unem pela primeira vez em uma cena conduzida por Carax com uma energia pulsante. Em uma sintonia homogênea, os personagens se entrelaçam no momento mais puro, selvagem e livre de suas vidas. 

Eles atiram. Correm. Dançam no meio de París. Movidos por seus instintos, imersos no barulho dos fogos que explodem no céu – da mesma forma que suas energias vitais explodem dentro deles – e na trilha sonora que transita do rock ao hip hop, do hip hop à valsa; submersos em um caos que paradoxalmente se torna harmônico, em meio a confusão de sons e afetos que movem aqueles corpos, ao mesmo tempo que aqueles corpos os movem.

Roubam uma lancha policial. Michele esquia no rio Sena, deslizando através de uma explosão de som e cores artificiais,  guiada pelos violinos da trilha, enquanto Alex assiste encantado a esse belíssimo espetáculo.

Cena de “Os Amantes da Pont-Neuf”. Além deste filme, Leos Carax dirigiu filmes como “Pola X” (1999) e “Holy Motors” (2012).

Então a música para. A câmera treme e perde o foco. Os instrumentos da trilha tornam-se dissonantes. Alex paralisa. Observa. Contempla. Uma epifania de milésimos, mas que fica congelada na eternidade. Finalmente achou o que procurava. Mergulham no Sena. Purificados por um encontro improvável. Libertos pelo amor.

Pouco importa como terminará suas histórias, não no tempo da narrativa, mas no tempo da vida. Esse momento único onde espaço, imagem, som, texturas e tudo o que existe se unem, eternizam-se como uma coisa só; é o fim da jornada daquelas almas. E também um novo começo.

Porém, tudo o que passou, ou virá, já não importa. Só por esse instante, onde a inocência e a pureza da vida foram alcançadas; a existência desses seres já terá valido a pena.