Dia: 24 de abril de 2020

Ícaro and Black Stars é uma das peças disponíveis no site Espetáculo Online

A dramaturgia e direção do musical Ícaro and Black Stars é coordenada por Pedro Brício. Foto: André Hawk/Divulgação

Espetáculos de artes cênicas, música, dança e outras performances teatrais estão sendo oferecidas gratuitamente pelo site Espetáculo Online. O acervo é fruto da organização do produtor audiovisual e cineasta carioca Eduardo Chamon, que registra peças teatrais para a sua produtora Chamon Audiovisual. A partir de uma videoteca colaborativa, são adicionados materiais toda quinta-feira do acervo pessoal do cineasta e de outras produtoras como a Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo e Target Filmes. 

O projeto surge com o objetivo de levar a produção audiovisual e teatral para os dias de quarentenas do público e foi iniciado no dia 9 de abril,. Em entrevista ao jornal Diário de Pernambuco, Chamon ressalta a importância do sitem “nesse momento de tão pouco recurso, o mais importante é que ele exista gratuito. O primeiro passo agora é formar uma plateia”, afirma. 

A peça Os vilões de Shakespeare tem texto de Steven Berkoff e adaptação de Geraldo Carneiro. Foto: Divulgação

Ícaro and Black Stars, com atuação de Ícaro Silva e as stars, Cássia Raquel e Hananza, é uma das peças disponíveis no site. No show, é contado e cantado histórias e músicas de alguns artistas que compuseram a cena do Black Music desde 1940 até os dias atuais. Tim Maia, Michael Jackson, Bob Marley e Beyoncé são alguns dos cantores referenciados em paralelo às histórias pessoais vividas por Ícaro. Outras peças como “Os vilões de Shakespeare” interpretado por Marcelo Serrado e “Incêndios” que possui no elenco a atriz Marieta Severo, também estão na listas dos filmes ofertados pelo site.

A direção da peça infantil “A bruxinha que era boa” é de Cacá Mourthé. Foto: Divulgação

O site também conta com uma sessão de Teatro infantil. “A bruxinha que era boa” com texto de Maria Clara Machado e o musical “Makuru, um musical de ninar” com texto de José Mauro Brant, são algumas das peças disponibilizadas.

Além disso, Chamon destaca a importância da videoteca para o registro das peças teatrais. E menciona que elas não vêm com o intuito de substituir os espetáculos que ocorrem presencialmente. “Eu entendo o espaço do teatro como um lugar sagrado, um templo. Então envolve muito respeito, eu participo do processo, penso em como contar aquela história também através das câmeras. E criamos uma regra de tentar ser invisível para o público. Filmar o teatro é uma das coisas mais contraditórias que se possa fazer, então tudo que a gente faz é ir na contramão e encontrar meios para que seja parecida, porque nunca vai se comparar, é mais como uma abordagem em vídeo sobre uma outra obra”, admite.


De onde é que vem o Baião: Forró, mídia e matrizes culturais

Primeiro artigo da série sobre forró exclusiva para o Café Colombo


Foto: divulgação

Reconhecido nacionalmente como música nordestina por excelência, o forró atravessa hoje um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Desde 2019, uma equipe de pesquisadores espalhada por vários estados brasileiros vem se dedicando a uma empreitada de fôlego, cujo objetivo é contribuir para a sua transformação em Patrimônio Imaterial do Brasil. Trata-se do Inventário Nacional das Matrizes Tradicionais do Forró, coordenado pela Associação Respeita Januário de pesquisa e valorização dos cantos e músicas tradicionais do Nordeste, sediada no Recife (PE). A pesquisa, que tem o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), é fruto do engajamento e da mobilização de artistas, produtores, jornalistas, colecionadores, fóruns e associações de diversas regiões do país que, articulados, conseguiram chamar a atenção do poder público para a relevância da patrimonialização deste bem cultural.

Mas que música é essa que nos acostumamos a chamar de “forró”? A princípio, é importante ressaltar que os significados mais arcaicos da palavra não aludem a um gênero musical. Se a admitirmos como uma derivação da palavra “forrobodó”, termo que consta nos primeiros dicionários do século XIX, tem o significado de festa com bebida. 

A canção Forró na roça, interpretada pela dupla cearense Xerém e Tapuya, lançada em compacto pela Victor em Julho de 1937, é a primeira a trazer “forró” em seu título. Todavia a palavra “forró”, tanto nesta como em outras gravações posteriores, tem aqui o significado de festa, e não de um gênero musical propriamente dito. A descrição que aparece no rótulo do compacto a caracteriza como um “choro sertanejo”. Contudo, a maneira como a sanfona é executada na faixa já nos permite identificar marcas do estilo que consagraria Luiz Gonzaga pouco tempo depois, em gravações instrumentais como “Vira e mexe” (1941). 

O forró, tal qual o senso comum o define hoje, pode ser considerado um termo genérico para nos referirmos a alguns estilos musicais tidos como tipicamente nordestinos, tais como arrasta-pé, xote, xaxado e, é claro, o baião.

Aliás, um marco de referência na trajetória do que hoje conhecemos como forró é, sem dúvida, o lançamento no Rio de Janeiro da canção Baião (1946), parceria de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira, interpretada pelo grupo 4 ases e 1 coringa. A composição reúne elementos que dão forma a um gênero de música popular homônimo, marcadamente urbano, porém com algumas de suas matrizes ancoradas no mundo rural nordestino. Os versos enfatizam o caráter de originalidade do novo estilo e a proposta sensual de uma dança a dois. 

“Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestá atenção

Morena chegue pra cá,
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião

Eu já dancei balancê
Xamego, samba e xerém
Mas o baião tem um quê
Que as outras danças não têm”

Sucesso nacional, a canção seria regravada pelo próprio Luiz Gonzaga em 1949. Pesquisadores como Elder Maia Alves e Climério de Oliveira consideram esta composição como definidora de toda uma linhagem posterior de canções que viriam a ser enquadradas no gênero “baião”. Em primeiro lugar, porque a própria letra anunciava que ali estava a ser criado um novo ritmo e uma nova dança. Em segundo lugar, porque apresentava características formais que se tornaram recorrentes no chamado forró “gonzagueano”. Por fim, os discursos dos próprios autores sobre a canção forjam a ideia de uma música representativa da identidade nordestina em âmbito nacional, engendrando um lugar simbólico que viria a ser ocupado nas décadas posteriores pelo forró.  

Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga em canções como “Baião”, “Assum Preto” e “No meu pé de serra”. Foto: Reprodução.

Apesar de ser um produto comercial feito sob medida para as plateias urbanas da época, no Baião também é possível identificar certas matrizes culturais oriundas do meio rural nordestino. O conceito de matriz cultural, utilizado inicialmente pelo estudioso Jesus Martin-Barbero para explicar a frequente incidência de elementos das narrativas tradicionais populares nas novelas televisivas, nos ajuda a compreender que, muito além de serem meros formatos comerciais, os produtos midiáticos dialogam intimamente com a memória coletiva dos povos. Por esta perspectiva, muitos dos elementos desta memória popular, tidos como arcaicos e recalcados pelas modernas instituições educacionais, políticas e econômicas, encontram nos produtos da mídia de massa uma válvula de escape e um meio de expressão. 

Até o lançamento da composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “baião” havia sido um termo amplamente utilizado, pelo menos desde o século XIX, para designar uma grande variedade de manifestações de música e dança nordestina. Entre todas estas manifestações, o tradicional repicar das violas sertanejas, executado nos interlúdios das cantorias, teve particular ascendência na construção do novo ritmo, segundo o próprio Gonzaga.

A semelhança entre o toque da viola e o ritmo do gênero musical baião é reconhecida por pesquisadores como Adriana Fernandes e Climério de Oliveira. Contudo, é consenso entre os pesquisadores que, muito mais do que a derivação de um modo de tocar viola, o baião como o conhecemos corresponde à fusão de diversas outras matrizes culturais oriundas do Nordeste brasileiro. Há características harmônicas, como o eventual uso do modo mixolídio, que pode ser identificado em várias tradições musicais do nordeste, a dança de par, comum nas festas populares tradicionais, o sotaque característico da sanfona de Luiz Gonzaga que, com seu “resfolego”, dialoga com a tradição dos foles de oito baixos, tal qual eram tocados no interior do Nordeste por músicos como seu próprio pai Januário, e em letras que destacam narrativas, cenários e personagens do interior nordestino. 

A cultura da viola nordestina é uma das matrizes culturais que inspiraram Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga a pensar o gênero “Baião” e sua canção homônima. Foto: Marcelo Lyra/Secult-PE/Fundarpe

De modo mais geral, podemos interpretar o gênero musical baião como produto da reconfiguração de certas particularidades regionais no seio da rádio e da indústria fonográfica, durante o processo histórico de formação de uma cultura midiática nacional no Brasil. Embora seja uma música urbana e moderna para os parâmetros da época, a compreensão de suas matrizes culturais exige um esforço de mapeamento que vai do rural ao urbano, do popular ao massivo, do folclore das feiras ao espetáculo midiático. Implica ainda um deslocamento que vai do Nordeste ao Sudeste e acompanha os processos migratórios da diáspora nordestina. 

Entendido desta forma é possível classificar o baião como uma moderna tradição brasileira tal qual define Renato Ortiz. Para o autor, no Brasil, a cultura nacional-popular é reinterpretada em termos mercadológicos no seio da indústria cultural, cujos veículos se encarregam de elaborar e disseminar massivamente as legítimas representações de identidade nacional e regional.  Estas representações seriam nossas “modernas tradições”. 

A consolidação do forró como um dos símbolos maiores da identidade nordestina ocorre em concomitância com o crescimento do fluxo migratório do Nordeste para o Sudeste, entre os anos 1950 e 1980. Não é possível separá-la do movimento da diáspora nordestina e nem da necessidade histórica de representações simbólicas que, naquele período, unificassem a identidade da região. 

Feito predominantemente por nordestinos, o forró acaba por ser um produto midiático que representa a identidade nordestina não apenas para os povos do Nordeste, mas também para brasileiros de outras regiões. Porém, este produto cultural de massa, forjado também sob o influxo da musicalidade urbana da época, não teria sido adotado como referência para construção de subjetividades, até mesmo pelas populações dos rincões mais distantes do interior do Nordeste, se não houvesse nele elementos de uma memória popular ancestral, capazes de mobilizar afetos em torno de uma identidade regional comum.   

No próximo artigo desta série trataremos da diáspora nordestina e como ela se relaciona com a História do forró. 

REFERÊNCIAS: 

ALVES, Elder Maia. A sociologia de um gênero: o baião. Maceió: IPHAN-AL, 2017

BARBERO, Jesus-Martin. Dos meios às mediações: Comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 2001. 

SANTOS, Climério de Oliveira. Forró: a codificação de Luiz Gonzaga. Recife: CEPE, 2013.