Dia: 5 de maio de 2020

Festival Takorama disponibiliza filmes infantis gratuitos

O site não tem publicidade e permite que o público escolha seus favoritos


festival infantil takorama

Lançado em 2014, o curta dinamarquês Vagabond é um dos selecionados pelo Festival Takorama. Imagem: Reprodução/Vagabond

O público infanto-juvenil ganhou uma nova opção de entretenimento durante a pandemia da Covid-19. O Festival Takorama, produzido pela associação francesa Films Pour Enfants, oferece 15 filmes de países de todo mundo, como Argentina, Dinamarca, Japão, Rússia e Estados Unidos. Os curta-metragens são destinados ao público de três a 17 anos, que pode votar em seus favoritos.

Com o tema Solidariedade, a seleção de animações busca apresentar novos universos a crianças e jovens, “além de permitir que as crianças vejam imagens em movimento não apenas como entretenimento, mas como uma ferramenta de comunicação”, como é citado pela organização no site oficial. O festival, patrocinado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), também se mostra como uma alternativa educativa em meio ao distanciamento social ao proporcionar que professores dêem continuidade às atividades pedagógicas neste período. Acesse os filmes no site oficial clicando aqui.

Reflexões sobre o sertão de nosso isolamento

Como três obras, de linguagens artísticas e tempos diferentes, podem ajudar a compreender nossa época e a nós mesmos?

Uma das peças narrativas do livro “Dog Days – Bogota”, do fotógrafo americano Alec Soth. Foto: divulgação.

Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
– “Genipapo Absoluto” (1989), de Caetano Veloso

Ao terminar de ler “Vento do Amanhecer em Macambira”, novela de 1987 do escritor pernambucano José Condé, não pude deixar de notar – com a consternação e a sensação de enorme lacuna que uma boa obra deixa – certa semelhança em relação a outra produção: o filme “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, dos diretores Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Entre formas específicas de se construir enredos e personagens, essas duas peças, de linguagens artísticas e tempos tão diferentes, parecem se comunicar.

De 2009, a produção cinematográfica retrata – guiada pela voz em off do protagonista – a viagem de um geólogo cearense a serviço do governo em direção ao interior do Nordeste: em meio a uma separação, o geólogo sai de Fortaleza em mil pedaços e, ao passo que executa seu trabalho, em meio àquela imensa planície sertaneja, e conhece inúmeras pessoas ao longo da estrada, vai, pouco a pouco, reconstruindo-se.

O romance de Condé, por sua vez, é ambientado nos anos 1950 e narra, também em primeira pessoa, os conflitos existenciais de um funcionário público que sai do Recife para o interior onde nascera para, também, executar uma missão do governo. Acompanhado inicialmente do colega Albérico, a personagem retoma o contato com lugares que, apesar de terem lhe testemunhado os primeiros passos, pouco se assemelham a ele: uma vez em Poti e, posteriormente, em Macambira, em busca de notícias de Lívia, um amor juvenil relembrado durante a viagem, as lembranças da infância e da adolescência emergem e começam a guiá-lo. Ele não consegue sair dali sem tentar descobrir o que acontecera com sua antiga – e até então pouco lembrada, diferente do drama do geólogo – paixão.

Assim, após essa breve apresentação, lhes convido ao questionamento: o sertão, mesmo que ligado a signos extensivamente utilizados, como a seca, a desigualdade, o coronelismo e as crendices populares, também pode se desconstruir semanticamente e configurar-se como o lugar do encontro do ser humano consigo mesmo, uma espécie de laboratório existencial e, à primeira vista, solitário? Por enquanto, nos contentemos em refletir sobre essas personagens que, por uma razão ou outra, se vêem obrigadas a realizar um trabalho qualquer e, tendo apenas como companhia o descampado sertanejo, começam a refletir sobre a vida, num exercício filosófico que demanda, antes de tudo, isolamento. 

Para lembrar um chavão exaustivamente usado por jornais, revistas e textos em geral, é seguro afirmar que, “em tempos de pandemia”, esse isolamento – sempre que é possível exercê-lo –, ainda que dentro de casa, nos leva a searas semelhantes às do geólogo e do funcionário público? De fato, pensamos em nós mesmos; no nosso lugar neste mundo; naqueles que nos cercam; e, continuamente, nas nossas experiências e lembranças. Somos, em meio ao caos de uma pandemia, impelidos à essa espécie de mergulho interior.

Dessa forma, destaco outro aspecto de “Vento do amanhecer…” e “Viajo porque preciso…”: o caráter essencial e misterioso da memória nas nossas vidas. Inventamos a linguagem para lidarmos com a natureza que nos cerca. Exercemos o ato de lembrar como parte do nosso eterno esforço enquanto raça humana de conferir sentido a essa mesma natureza. De levar, racionalmente, ordem ao caos. Esse sentido se aprofunda à medida em que a arte pode ser usada como uma forma de recriar a lembrança, numa busca incessante por uma experiência que não queremos que suma, como Serge Gainsbourg canta, sur la rivière du souvenir – pelo rio da memória.

A obra-prima de Marcel Proust foi publicada em sete volumes, os três últimos postumamente.

Tal procedimento estético tem um precedente célebre: “Em Busca do Tempo Perdido”, magnum opus extremamente debatido do francês Marcel Proust. Nele, somos imersos no universo de fins do século XIX que o Narrador, ora deitado em sua cama em Paris, ora após comer uma madeleine, tradicional bolinho francês, relembra: num átimo, provocado pelo que o autor entende como “memória involuntária”, a personagem se vê em Combray, pequena vila do interior da França em que nasceu e viveu a infância. As famílias do lugar, envoltas na rígida etiqueta francesa; as longas descrições das catedrais da vila; as reflexões acerca de sua curiosa decepção ao ver que a Duquesa de Guermantes, da aristocracia local, não se assemelhava aos reis e rainhas dos vitrais das igrejas, implicam numa busca para que aquilo tudo, existente apenas em seus pensamentos – já que todos que compartilharam daqueles anos em Combray se foram –, não se perca. Afirma um Proust nostálgico:

Em mim, tantas coisas foram destruídas, coisas que eu julgava fossem durar para sempre, e se construíram novas, dando origem a penas e alegrias novas que eu não teria podido prever então, assim como as antigas se tornaram difíceis de compreender (PROUST, 2016, p. 48).

Na obra de Aïnouz e Gomes, o geólogo se vê às voltas com as lembranças de um relacionamento acabado. Em “Vento do Amanhecer em Macambira…”, as experiências de infância, da família, e dos primeiros amores, obcecam e deslumbram o protagonista. Guardadas as devidas proporções, Macambira e o sertão, ou mesmo Combray, se assemelham como metáforas da reflexão existencial e se revelam de forma diferente para cada transeunte.

São nessas viagens em direção a nós mesmos, em nossa obrigatória reclusão, nos nossos quartos “escuros” e solitários, semelhante a Proust, que ativamos um pouco desse caráter extremamente criador e abismal da memória e do isolamento como chaves para tais meditações? Metáforas à parte, são em obras como a de Proust, de Condé e da dupla Aïnouz/Gomes, em uma estética introspectiva e íntima, que se produz aquilo que, afinal, parece cumprir uma das mais importantes funções da arte: antes de tudo, inquietar.

Referências

PROUST, M. Em Busca do Tempo Perdido: Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.