Dia: 7 de maio de 2020

Cinema da Fundação recebe cineasta no quadro Cinema Convida

O diretor de história da eternidade (2014), Camilo Cavalcante, discute sobre suas produções ao longo da carreira

O recifense Camilo Cavalcante nasceu em 1974 e, desde 1995,  trabalha como roteirista, produtor e diretor. Foto: Aline Arruda/Cinemateca Pernambucana.

Em meio a pandemia mundial da Covid-19 e a necessidade de isolamento social, o Cinema da Fundação em parceria com a Cinemateca Pernambucana, irá realizar sexta (8), a partir das 19h, um bate papo virtual com a temática “Cinema”, no instagram da Fundação  com o cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. A live faz parte do quadro “Cinema Convida”, criado para fomentar discussões sobre o audiovisual.

O diretor irá falar sobre o lançamento da sua última produção, o filme documental “O Beco” (2019), que aborda a vida no subúrbio do nordeste brasileiro, mostrando o abismo entre uma elite dominante e pessoas que vivem à margem da sociedade. Além disso, Camilo também conversa sobre o seu sucesso com “A História da Eternidade” (2014), que recebeu o prêmio do público de Melhor Ficção Brasileira na 38ª Mostra internacional de Cinema de São Paulo.

Uma ponte universal entre as aldeias poéticas do Ceará de 1970 e do Pernambuco atual

Os olhares musicais diferentes sobre uma mesma janela cultural da MPB


O cantor e compositor PC Silva. Foto: Felipe Schuler.

Não tem muito tempo que escutei “Flor da Paisagem” na voz de Amelinha, canção que dá nome ao primeiro disco solo da cantora, produzido por seu amigo e conterrâneo Raimundo Fagner e lançado no ano de 1977. A primeira coisa que me ocorreu foi uma identificação com o vocabulário e paisagem nordestina da música, composta pelo cearense Fausto Nilo e o pernambucano Robertinho do Recife. A segunda coisa que pensei foi que, de alguma forma, essa música de uma beleza singular tinha ao mesmo tempo algo que me soava familiar na Música Popular Brasileira (MPB).

A letra da música traz consigo um lirismo e uma poesia com expressões linguísticas características do léxico nordestino além de remeter a um espécie de bucolismo poético-sonoro, aspectos típicos também da música de outros artistas que assim como Fagner e Amelinha ficaram conhecidos a partir da década de 1970 como o grupo “Pessoal do Ceará”, do qual também faziam parte Belchior, Ednardo e Rodger Rogério.

Também pensei que a familiaridade pudesse ser devido ao sotaque nordestino da Música Popular Brasileira, primeiramente introduzido através da música de Luiz Gonzaga, reconhecido como símbolo maior da música do Nordeste através do forró e seus subgêneros, como o baião, o xote e o xaxado. Ou ainda outros personagens importantíssimos também responsáveis por essa assinatura nordestina na MPB como é o caso de Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Zé Ramalho e Alceu Valença, na década de 70; ou então Chico César, Zeca Baleiro e Lenine já na década de 90 e início dos anos 2000. E eu não estava errado em atribuir aos já citados uma semelhança não só cultural, mas também musical.

Capa do álbum Flor da paisagem, 1977. Capa: Fausto Nilo, Mauricio Albano, Dado e Maxim.
Foto: Reprodução

Acontece que a familiaridade que eu sentira se dava em relação a uma produção musical relativamente mais recente, que eu vinha ouvindo com certa frequência aqui em Pernambuco.

Foi então que assisti tardiamente ao videoclipe da música Meu amorzim, do cantor e compositor PC Silva, lançado no dia 8 de abril deste ano. E então todo o percurso mental de busca pela familiaridade da música Flor de Paisagem encontrou o destino. 

O que liga a música Flor da Paisagem e todos o artistas já mencionados às composições de PC Silva é justamente a influência poética e linguística local para traduzir sensações universais, seguindo a afirmação do célebre escritor russo Leon Tostói de que para ser universal se deve começar a pintar a própria aldeia, isto é, a abordar o local-pessoal.

O local pessoal de Meu amorzim se faz presente tanto no léxico da letra da música, como também no próprio cenário do clipe, gravado no distrito Caiçarinha da Penha, pertencente ao município de Serra Talhada, local natal do compositor pernambucano. No entanto, embora tenha sido essa a música que me lembrou das semelhanças de PC com esse conjunto de artistas, a familiaridade com a música cantada por Amelinha se encontrava especificamente na música Ciclone de PC.

Tal como em Flor da paisagem, em Ciclone o sentimento de amor se une ao lirismo dos versos recheados de metáforas em relação a imagens pertencentes a um lugar físico-temporal tomado como querido pelos compositores das músicas. A semelhança também está na descrição metafórica das sensações que ligam o ser amado a memórias locais da origem dos compositores.

Já quanto à forma, Ciclone, assim como Espelhos Cristalinos, de Alceu Valença, bebem da influência dos versos dos cantadores de viola do sertão nordestino. Entretanto, com diferenças que deixam claro as “cores” pessoais que cada compositor utiliza para pintar esse lugar comum entre eles.

É importante ressaltar que esse modelo mais moderno de PC abordar características léxicas e poéticas, que compartilha com os demais artistas de sotaque nordestino da música popular brasileira, vem sendo trabalhado desde suas composições anteriores a sua carreira solo, quando fazia parte da bandavoou. Como por exemplo as  músicas Peraí e Perfume na Pinta.

Vale destacar também que PC não está só e que Pernambuco abriga muitos outros compositores contemporâneos da MPB como Isabela Moraes, Martins, Revoredo, Juliano Holanda e tantos outros que, como o fizera o Pessoal do Ceará e todos os artistas citados no meu percurso mental descrito, bebem de uma poesia cuja nascente local desemboca em mares universais.