Dia: 25 de junho de 2020

Museu do Louvre retoma as atividades com regras de distanciamento social

Em julho, a instituição volta a abrir as portas e não permitirá aglomerações para ver a “Mona Lisa”

Localizado às margens do Rio Sena, o Museu do Louvre é considerado o maior museu de arte do mundo. Foto: Divulgação.

Em Paris, fechado por quase quatro meses devido a pandemia da Covid-19, o Museu do Louvre prepara-se para retomada das atividades no dia 6 de julho. A instituição espera não voltar a receber turistas estrangeiros por meses, o que tornará as visitas mais tranquilas que o normal. A reabertura do local será dada seguindo as rigorosas medidas de distanciamento social. 

Os administradores prevêem que o local receberá somente um quinto do número dos visitantes registrados antes do surto. Durante o verão, o museu costumava receber cerca de 1 milhão de visitantes, sendo três quartos deles turistas estrangeiros.

No museu, em dias normais, é comum as constantes aglomerações em frente a pintura “Mona Lisa” (1503) de Leonardo da Vinci. Como não será permitida a entrada de muitos visitantes de uma única vez, as visitas deverão ser marcadas por agendamento e funcionará com um trajeto de mão única. No local haverá recipientes de gel antisséptico,  sinalizações reforçando as regras do distanciamento, além do uso obrigatório de máscaras.

‘São João na roça é bem melhó’: forró e identidades nordestinas


Antologia do forrozeiro caruaruense Camarão lançada em 2018 por um selo alemão com o título “Trilha sonora imaginária para um filme de faroeste (1964-1974)” (tradução live). Foto: Divulgação/Analog Records

Quando eventualmente aludimos a uma suposta identidade cultural nordestina, quase sempre vêm à mente as tradicionais comemorações juninas com os diversos signos a ela associados: o forró, as comidas típicas, os fogos de artifício, a indumentária matuta e o cenário decorado com bandeirinhas coloridas e balões, entre outros elementos. Todavia, por mais contraditório que pareça, é no bojo de processos de modernização econômica e integração cultural do Nordeste ao restante do país que toda essa simbologia junina tradicional passa a ser percebida pelo grande público como signo de identidade nordestina.

O forró, como música e poesia, tem muito a dizer sobre as experiências históricas e cotidianas da região, mas é impossível imaginar sua aderência à memória coletiva dos nordestinos não fosse o papel fundamental desempenhado pelas rádios e pela indústria fonográfica nacional na formatação, distribuição e consumo deste gênero musical por todo o país.

Com o advento de meios de comunicação de massa como o rádio e a televisão comerciais a partir dos anos 1930 e 1950, respectivamente, as populações de diferentes regiões brasileiras – antes relativamente isoladas umas das outras devido às imensas distâncias geográficas – tornam-se culturalmente mais próximas ao compartilharem, mais intensamente, fluxos simbólicos comuns. Num país pobre e de dimensões continentais como o Brasil, no qual a circulação das formas de cultura letrada ainda se restringia, na época, a uma parcela ínfima da população, os fluxos radiofônicos e audiovisuais desempenhariam um papel central na formação de uma moderna cultura nacional.   

Neste projeto de integração nacional levado a cabo por empreendimentos de comunicação de massa, emergem novas representações de identidade regional que circulam nacionalmente e legitimam as diferenças culturais no interior da nação. É daí que brota um novo regime de visibilidade do Nordeste como espaço não apenas da fome e da seca, mas também de festas populares e sonoridades telúricas. O forró é a linguagem musical que vai sintetizar esta nova imagética já a partir dos anos 1950, com artistas como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro alcançando projeção nacional pelas ondas das rádios. Citamos aqui dois exemplos entre inúmeros sucessos musicais que, ao longo de décadas, teceram verdadeiras crônicas dos festejos juninos no Nordeste rural.   

“A fogueira tá queimando 

Em homenagem a São João 

O forró já começou 

Vamos gente, rapa-pé nesse salão

Dança Joaquim com Zabé

Luiz com Yaiá 

Dança Janjão com Raque 

E eu com Sinhá

Traz a cachaça Mane!

Que eu quero ver 

Quero ver paia avuar”

(São João na roça, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1962)

“Como é bom São João na roça

Vamos brincar!

Como é bom São João na roça

Vamos festejar!

Como é bom São João na roça

Num arrasta-pé

Como é bom São João na roça

Quando tem muita mulher

Quero tocar fogo na fogueira

Quero ver balão subir

Se formou a brincadeira, vou entrar

Não vou sair

Piririn Piririn Piririn toca sanfona num tom só

Piririn Piririn Piririn São João na roça é bem melhó”

(São João na roça, de Antonio Barros e Jackson do Pandeiro, 1963)

Narrativas da Diáspora

Sucesso comercial incontestável na então capital federal durante a primeira metade da década de 1950, o baião atingiu um público urbano que não se restringia à massa de migrantes nordestinos. Contudo, atingia a este público de maneira especial, tanto pelas sonoridades familiares como pelas referências nostálgicas ao sertão natal. A partir daquela década, a diáspora se intensifica e milhões viriam a deixar o Nordeste rumo a uma vida melhor nas metrópoles sudestinas. É exatamente no auge desse processo migratório, entre 1950 e 1990, que o forró se consolida – também a partir de uma poética da migração –  como signo de nordestinidade. Compositores como Gordurinha, Guio de Moraes, Zé Dantas e Rosil Cavalcanti, entre outros, contribuíram para a construção deste filão de narrativas, conforme podemos verificar nos exemplos abaixo:

“eu fui para São Paulo procurar trabalho

E não me dei com o frio (…)”

(Meu Enxoval, de Gordurinha e José Gomes, 1958)

“quando eu vim do sertão seu moço do meu bodocó

A maleta era um saco e cadeado era um nó

Só trazia a coragem e a cara

Viajando no pau-de-arara

Eu penei, mas aqui cheguei”

(Pau-de-arara, de Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952)

“Fui pra cidade do Rio de Janeiro,

Trabalhei o ano inteiro, fiz até serão

A vida do Paraíba não foi brincadeira

Fui servente de pedreiro pra ganhar o pão”

(Radinho de pilha, de Namd e Graça Góis, 1979)

Em vários momentos, uma melhora das condições de vida na região natal acena com um retorno idílico:

“Já faz três noites
Que pro norte relampeia
E a asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da plantação”

(A Volta da Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1950)

“se meu Deus der um jeito

De chover todo ano

se acaba o desengano

meu viver lá é certo

no meu Cariri,

pode se ver de perto

quanta boniteza, pois a natureza

é um paraíso aberto”

(Meu Cariri, de Dilú Melo e Rosil Cavalcanti, 1953)   

É muito comum se alardear a relevância que tiveram as redes de televisão, a partir dos anos 1960, para a unificação de um mercado simbólico nacional a partir da centralização da produção e da difusão de conteúdos padronizados para todo o país. Contudo, a indústria musical já vinha há muito desempenhando este papel, distribuindo fonogramas em escala nacional pelo menos desde os anos 1920. As ondas de rádio, por sua vez, a partir dos anos 1930, se encarregavam de levar aos ouvidos de um número ainda maior de pessoas as novidades musicais.

Todavia, a impossibilidade técnica de se construir um aparato radiofônico em rede, que integrasse o país a partir de um único centro emissor, fez com que a atuação das rádios se restringisse ao âmbito local/regional e proporcionou um diálogo mais próximo destes meios de comunicação com as comunidades em que se inseriam. A este propósito, podemos citar o notório papel desempenhado pelas rádios caruaruenses a partir de 1950 na legitimação do baião e de outros gêneros associados ao forró como representativos de uma cultura local/regional pelo interior do Nordeste. Mas isso já é assunto para o próximo artigo desta série.