professor arnaldo fala sobre aulas online

Literatura, aulas remotas e audiovisual: Professor reinventa ensino durante a quarentena

O professor Arnaldo Gomes durante a VI Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2019. Foto: Acervo Pessoal

Durante a pandemia do novo coronavírus, escolas no Brasil e no mundo têm optado pelo ensino à distância. Acostumados com o dia a dia nas salas de aula, professores e alunos são acometidos de bastante estresse no novo cotidiano de trabalhar e estudar de casa. Neste cenário, os docentes vêm buscando alternativas para tornar o ensino mais proveitoso — um deles é o professor Arnaldo Gomes, da rede municipal e privada de Garanhuns, agreste meridional de Pernambuco. Formado em Letras pela Universidade de Pernambuco, ele leciona no Colégio XV de Novembro, onde trabalha o incentivo à leitura, produção e interpretação textual.

A trajetória de Arnaldo com a língua portuguesa não se resume às salas de aula: ele já foi, por duas vezes, finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa (em 2014, na categoria Memórias Literárias, e em 2019, na categoria Crônica). Além disso, no início deste ano, foi um dos 20 professores, de todo o Brasil, selecionados para participar do Geração Futura Educadores, projeto da TV Futura que busca inserir os profissionais da educação no mundo do audiovisual. Em entrevista ao Café Colombo, Arnaldo falou sobre o ensino remoto de literatura, os novos projetos que surgiram neste período e deu dicas de como aperfeiçoar as aulas online.

Atualmente, você desenvolve um projeto literário no Instagram. Como surgiu a ideia dos Stories Literários?

Isso. O projeto nasceu a partir de uma necessidade que eu vi nas turmas, principalmente no 3º ano. Eu vi que os alunos estavam para baixo, muito parados, por não terem aquela visibilidade que os pré-universitários têm na escola. Então pensei: “Preciso fazer algo que envolva a disciplina de interpretação textual e desenvolver uma prática que eles possam ter mais destaque”. Daí surgiram os Stories Literários. Inicialmente, eu propus que eles lessem um trecho e falassem o nome do autor e da obra. Achei que, fazendo esse roteiro, seria mais interessante para chamar o público, o que tem dado muito certo.

Nós temos alcançado um público bem significativo: entre 1000 a 1500 pessoas visualizam estas dicas de livros, nos meus stories e nos perfis do Colégio e da turma. O feedback também tem sido muito legal, as pessoas cobram para que as postagens sejam feitas sempre às 20h, todos os dias — originalmente, seria apenas de segunda a sexta. Depois deste mês, eu pretendo publicar os vídeos das turmas dos primeiros e segundos anos.

Os livros são bem variados, alguns clássicos da literatura, outros mais populares entre os adolescentes atualmente. São os próprios alunos que escolhem os títulos?

Sim, eu não interfiro na escolha dos títulos, apenas dou orientações na filmagem dos vídeos. Eu deixo eles à vontade para escolherem, pois a ideia é que indiquem um livro que marcou a época dos estudos, podendo ser tanto agora, como também, o primeiro livro que eles leram e que possa servir de recomendação aos alunos e às pessoas que estão assistindo. Acho que ver uma pessoa lendo um trecho de alguma obra gera um incentivo à leitura.

Como você enxerga essa diversidade das obras, tanto no projeto como em sala de aula? 

Eu acredito que a sala de aula tenha espaço tanto para os clássicos como para os contemporâneos, mas vai depender de como nós, professores, vamos conduzir isso, principalmente as leituras obrigatórias. Se eu apresento Machado de Assis de uma maneira dinâmica, a leitura se torna fácil e aceita pelos alunos. Por exemplo, ano passado nós lemos Dom Casmurro e A Hora da Estrela. Só que fomos pelo viés do protagonismo feminino na história, e, antes de passar os livros, assistimos os filmes Estrelas Além do Tempo (2016, dir. Theodore Melfi) e Histórias Cruzadas (2011, dir. Tate Taylor). Assim, quando eles já estavam inseridos nessa atmosfera, eu apresentei Macabéa, uma representação feminina diferente e emblemática, e depois Capitu, momento em que eles ficaram curiosos para saber sobre a maior “treta” da literatura.

Já nas aulas online, eu sempre tento criar um espaço para falar de uma obra. Acredito que o professor leitor transforma o aluno também em leitor, então sempre posto foto com livros e dou dicas. Nos últimos dias, estou fazendo uma brincadeira: todo dia, eu tiro uma foto com uma camiseta que remete à literatura e indicando um livro. Acho que essa é uma forma de incentivá-los.

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Em seu Instagram, Arnaldo compartilha dicas de livros e os Stories Literários de seus alunos. Foto: Acervo Pessoal

É interessante o uso das redes sociais, já que elas estão muito inseridas no cotidiano dos alunos. Antes da quarentena, você já investia nessa ferramenta?

Eu usava o Facebook, criei uma página chamada Leitura XV, onde divulgava os trabalhos, atividades e as leituras dos alunos, mas nada que destacasse tanto o protagonismo dos meninos, como acontece nos vídeos. E isso vai de encontro com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prega que será por meio do protagonismo que o aluno vai conseguir aprender, bem como tornar significativa aquela aprendizagem.

A sua participação no projeto Geração Futura Educadores contribuiu para o surgimento desses novos projetos?

Sim, o projeto contribuiu bastante com essa visão do uso da tecnologia. No curso, nós trabalhamos a disciplina de Transmídia, onde trabalhamos com diversas plataformas, como Youtube, Instagram e Tiktok, a favor da educação. Inclusive, eu estou preparando um projeto com uma colega do Geração Futura, que é professora do Sesi São Paulo, onde estamos pensando em fazer uma troca cultural e linguística entre nossos alunos por meio de vídeos.

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Em 2020, Arnaldo participou do Geração Futura Educadores. Foto: Acervo Pessoal

Como você vê que o conhecimento em audiovisual agrega no ensino atualmente?

Ele tem feito toda a diferença para minhas aulas remotas, porque eu tenho visto com um olhar mais diferenciado e repassado algumas coisas para meus alunos e colegas professores. Coisas como o ambiente sem ruído, a iluminação, procurar o melhor ângulo têm feito bastante diferença, tanto para os alunos na hora de gravar os Stories Literários, como para mim, pois tenho me cobrado muito sobre como o aluno está me vendo para que a aula não se torne cansativa. Eu tenho que lembrar sempre de olhar para a câmera, para mostrar para o aluno que estou olhando para eles. Vale ressaltar também que a BNCC vem buscado muito a questão das tecnologias de informação e comunicação, assim, cabe ao professor estar mais bem familiarizado com essas tecnologias para tornar o ensino mais atrativo para o estudante.

Existem muitas dificuldades que professores e alunos estão enfrentando nesse período. Qual a dica que você dá para os professores tornarem as aulas online mais produtivas?

Geralmente, eu peço dicas de livros, filmes e séries para os alunos, pois eu acho que quando você começa a contextualizar o conteúdo com uma série, por exemplo, eles gostam muito. Por exemplo, nós trabalhamos, em interpretação textual, os tipos de interlocutores usando a série Dark. Eu acho que o professor tem que relacionar sempre esse cotidiano do aluno, trazendo o conteúdo para dentro do universo dele, e não o contrário. E procurar movimentar o estudante com atividades mais variadas também, por exemplo: eu pedi para que a turma assistisse ao filme O Menino e o Mundo e procurasse em casa um objeto que represente a infância e, na próxima aula, eles vão contar a história por trás dele. Acho que isso faz toda a diferença quando nós estamos nesse processo de ensino-aprendizagem remoto.