Dia: 23 de julho de 2020

Ariano Suassuna: amante obstinado da identidade nordestina

O artista ganhou reconhecimento mundial com a obra O Auto da Compadecida. Foto: Antônio Duarte.

Em 2014, no dia 23 de julho, o renomado escritor, poeta e dramaturgo brasileiro Ariano Vilar Suassuna, faleceu na cidade do Recife. Amante e defensor da identidade e do  folclore nordestino, dono de um humor inconfundível, o artista deixou seu nome gravado na literatura e no teatro nacional.

Paraibano, nasceu em 16 de junho, na cidade de Nossa Senhora das Neves, conhecida hoje por João Pessoa. Filho do ex-governador da Paraíba João Suassuna e de Rita de Cássia Villar, foi o oitavo entre os nove filhos do casal. 

Após o assassinato do seu pai, durante a revolução de 1930, a família se mudou para a Taperoá, uma cidade localizada no interior do Estado. Nesta época, Ariano deu início aos estudos primários e passou a ter contato com a cultura regional por meio dos sons de violas e das apresentações de mamulengos. 

Mudou  para o Recife em 1938, onde estudou nos colégios Americano Batista, Oswaldo Cruz e Ginásio Pernambucano. Em 1945, estreou na literatura com o poema “Noturno” publicado pelo Jornal do Comércio.

Primeira estrofe do poema Noturno de Ariano Suassuna

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, em 1946 e, no mesmo ano, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto a Hermilo Borba Filho e outros colegas de classe. No ano seguinte, escreveu sua primeira peça chamada “Uma Mulher Vestida de Sol” e “Cantam as Harpas de Sião”, em seguida.  Em 1950,  concluiu o curso de Direito, dedicando-se à advocacia e ao teatro. 

Ariano Suassuna ficou reconhecido por sua obra-prima “Auto da Compadecida” (1955), uma peça teatral em forma de auto — de grosso modo, uma composição teatral cômica de linguagem simples, composta por um único ato  —, cultura popular e tradição religiosa. A peça foi encenada pela primeira vez no Teatro Adolescente do Recife, em 1957. Ainda no mesmo ano, conquistou a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A obra foi traduzida em nove idiomas e representada no exterior. 

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”

Ariano Suassuna.

Filme O auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes. Foto: Divulgação/Filme

A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1968 e, só 31 anos depois, apresentada em formato de minissérie pela Rede Globo. Com o sucesso desta última adaptação, em 2000, ganha seu espaço nos cinemas. Deste então, nome da peça recebeu o acréscimo do artigo “o” tornando-se “O Auto da Compadecida”. O filme recebe a participação de Rosinha, Vicentão e Cabo Setenta, personagens das obras “Torturas de um Coração” e “O Santo e a Porca”, também escritas pelo autor. 

O Auto da Compadecida continua sendo repercutido e inspirando muitas pessoas. Recentemente, alunos do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, criaram a radionovela  “Auto da Compadecida em Tempos de Pandemia”, inspirada nas fortes críticas trazidas por Ariano  a temas como a corrupção e a exploração da pobreza. A ação faz parte do projeto de extensão Literatura nas Ondas da Rádio, que tem como objetivo veicular radionovelas que são adaptações de obras literárias produzidas por autores nordestinos. Confira a entrevista produzida pela equipe do Café Colombo clicando aqui para saber mais sobre a iniciativa. 

No ano de 1956, Ariano abandonou a advocacia e passou a lecionar na Universidade Federal de Pernambuco, onde mais tarde foi nomeado diretor do Departamento de Extensão Cultural da instituição. Além de escritor, ocupou cargos políticos e atuou como  membro do Conselho Estadual e Federal de Cultura de Pernambuco. 

Em 19 de janeiro 1957, casou  com Zélia de Andrade Lima, com quem teve seis filhos. No mesmo ano, escreveu a peça “O casamento suspeitoso”, uma comédia que carrega características da literatura de cordel e dos folguedos populares nordestinos. A obra conta a história do casamento entre Geraldo e Lúcia, que havia planejado casar apenas com interesse pela fortuna do rapaz. 

Em 1970, fundou o Movimento Armorial. A iniciativa buscava orientar as mais diversas expressões artísticas —  dança, literatura, música, cinema e outras — na criação e valorização dos aspectos eruditos  da arte a partir da cultura popular nordestina. Faziam parte do movimento o músico Antônio Madureira, o autor Francisco Brennand, o jornalista Raimundo Carrero

No ano de 1971, lançou a obra “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, inspirado no evento ocorrido no município de São José do Belmonte, próximo à  Recife. Realizado em 1836, foi criado uma seita na tentativa de reviver o rei Dom Sebastião, que havia desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, na África, e tornou-se lenda em Portugal.  Com mais de 15 livros e 18 peças de teatro, Ariano passou ocupar a cadeira de nº 32 na Academia Brasileira de Letras, em 1990. Já em 1993, foi eleito para a cadeira nº 18 da Academia Pernambucana de Letras. Em 2000, ocupou a cadeira de nº 35 da Academia Paraibana de Letras.

Já aposentado pela UFPE, foi convidado, em 2007, pelo  ex-governador   Eduardo Campos para assumir a Secretaria Especial de Cultura de de Pernambuco. No segundo mandato do governador, passou a integrar a Assessoria Especial do Estado. 

O escritor percorreu o Brasil ministrando aulas-espetáculos em teatros e universidades. O célebre artista, faleceu aos 83 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Com personagens e tramas cativantes, Ariano Suassuna deixou um grande legado de obras dentro da cultura popular nordestina.  

The Midnight Gospel e o poder da resiliência


The Midnight Gospel, série de animação da Netflix. Foto: Reprodução

Alguns propositalmente a esquecem, outros a escondem por trás de antigos retratos e da história. Os filósofos, misteriosamente, embarcam numa longa viagem para entendê-la. Se algo sei é que neste século ainda podemos celebrar uma das últimas – e únicas – verdades absolutas: a morte a todos visita.

É, paradoxalmente, um mistério sem mistério, o inesperado esperado. O que pode ajudar a nos reconciliar com esse conceito? O que compreender enquanto aguardamos a derradeira hora? Questões como essa invadiam a minha mente enquanto eu assistia ao The Midnight Gospel. Um conceito simples, que talvez não se aguentaria por si só se as conversas de Duncan Trussell Family Hour que o suportam, desconstruindo com serenidade e lucidez alguns dos maiores medos da nossa existência, não fossem tão extraordinariamente impactantes.

A nova série de animação da Netflix mergulha em cenários apocalípticos e deixa-se guiar por reflexões existencialistas sobre algumas das maiores inquietações da existência humana. Entre os cenários mais apocalípticos, bizarros e coloridos, somos convidados a ouvir e viajar por reflexões sobre o significado da vida, para onde vamos depois dela e como fazer a estranha travessia pelo meio.

A obra leva a assinatura de Pendleton Ward, animador e argumentista responsável pelo clássico Adventure Time (2010), e do humorista Duncan Trussell: “Midnight Gospel” mescla uma narrativa surreal e fantástica com clipes do podcast The Duncan Trussell Family Hour, apresentada – como o próprio título indica – por Duncan Trussell, também protagonista do programa. Ambientada num planeta extraterrestre, Clancy (Duncan em inglês, e Fábio Lucindo em português brasileiro) é um apresentador do espaço-cast, um “simulador de universos” que usa para explorar mundos em diferentes estados de caos e fragmentação que, no fundo, é a mesma coisa que um podcast, mas “vai para o espaço todo”. 

Por todos os momentos, senti que contemplava uma experiência extremamente íntima, um momento de comunicação genuíno e espiritual. A própria narrativa não faz questão de separar claramente os limites entre Duncan e Clancy, gerando muitos significados ao diluir os limites entre a realidade do desenho e a nossa. Em um dado momento, a mãe de Duncan/Clancy é entrevistada, e essas fronteiras ficam, como nunca, ainda mais turvas. No episódio 8, em um diálogo real entre Trussell e sua mãe (psicóloga que morreu em 2013), ela afirma: “Chorar quando precisar e encarar a morte, mesmo que tenha medo, não vai te machucar. Veja o que ela tem a ensinar. Ela é uma ótima professora, e não cobra nada”.

A mortalidade é uma sombra que fica pairando sobre as nossas cabeças a vida inteira, dançando entre pesadelos, sonhos, e lembranças. Transformamo-nos mesmo sabendo do destino final, convertemos-nos em pessoas diferentes a cada dia.

Assim como a Árvore da Vida da Cabala – símbolo que tem destaque no episódio 7 – e a tríade hindu, formada pelos deuses Vishnu, Shiva e Brahma, as informações do desenho podem se dividir em três categorias principais: vida, morte e renascimento. Um dos paradoxos mais legais da existência é que essas três forças (da preservação, da destruição, e da regeneração) funcionam no Universo simultaneamente, por meio de uma dança incrível.

A animação trata de assuntos como meditação e mindfulness – o aqui e o agora. Se há uma coisa que esse fenômeno invisível do novo coronavírus deixou claro é que nós não controlamos nada. Não controlávamos antes e não controlamos agora. Temos, apenas a ilusão de controle. Isso é algo evidente na série: é preciso um exercício de contemplação e introspecção. O personagem Clancy descobre que a única forma de interromper o ciclo de sofrimento de morte e vida é assumindo a nossa total falta de controle e aceitando a situação como ela é.

The Midnight Gospel toca na religião e no existencialismo da mesma forma que reflete sobre como lidar com a perda e a morte.
Reprodução: Netflix.

Todos estamos tendo experiências de luto, não só pelas pessoas que perdemos para a Covid-19. O luto da pandemia envolve fatores além da perda de pessoas queridas. É a perda do nosso mundo normal, de atividades, de encontros.

É difícil entender exatamente o que se sente ao ver as mortes em série provocadas pelo Coronavírus. Em geral, elas nos deixam comovidos e nos fazem pensar na finitude, na fragilidade da vida, nos nossos planos interrompidos e no mundo pós-pandemia, que é desconhecido.

O que talvez possamos aprender com a pandemia e com a ameaça da morte é transformá-la em uma aliada, aceitando o que passou e nos responsabilizando pelo porvir. É possível que, depois da pandemia, as pessoas fiquem com mais vontade de viver. Não se trata de uma resignação com a situação atual, mas uma mistura de indignação e esperança. “The Midnight Gospel” oferece ferramentas para lidar com questões existenciais antes trazidas por Sócrates, Epicuro, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche. Apesar de recorrente, a morte não é tratada da mesma forma por eles e apresenta variações de correntes e de pensamentos. De qualquer maneira, buscar entender essas teorias pode nos ajudar a ter uma relação de clareza e, obviamente, de menos sofrimento. A maioria acredita que a filosofia é capaz de tornar a nossa aceitação da morte algo mais branda, afinal, essa é uma das poucas certezas que temos e algo que nos torna iguais.

Os convidados dos episódios têm falas maravilhosas e oferecem métodos pragmáticos para atravessar o sofrimento e encontrar um lugar estável, e que não seja baseado nos noticiários. Essa forma diferente de entender o fim da existência pode ser útil em um momento no qual William Bonner nos lembra disso toda noite. 

O importante é cultivar a esperança, pois a desorganização interior provocada pela crise pode dar lugar a um novo equilíbrio. É necessário fazer uma reflexão profunda. Vai sobreviver a tudo isso quem tiver a capacidade de ressignificar seus sentimentos e relações, quem tiver capacidade de doar amor, de perdoar, de esquecer coisas que não têm muito sentido, de deixar o orgulho e passar a dar valor às pessoas. Procuramos conforto na ideia de que, mesmo perante o desespero, mesmo com a mutação de um sinistro novo mundo e a decadência do velho, sobreviverá o amor.

No entanto, os momentos verdadeiramente gratificantes de “The Midnight Gospel” são aqueles que dão lugar à vulnerabilidade, a exemplo da entrevista que Duncan Trussell – transformando o último episódio em sua contribuição principal – fez com sua mãe, Deneen Fendig, pouco antes de seu falecimento vítima de câncer de mama. De repente, o excesso de adrenalina dos universos a um passo do colapso sai de cena e é substituído pela tranquilidade de um sonho. Num leve mundo de ursinhos, um Clancy bebê é embalado por Deneen, que o leva num passeio pelas memórias que criaram juntos.

Os dois personagens envelhecem gradualmente, até Clancy ganhar o cabelo e a barba de Duncan e, antes de se metamorfosearem, adquirirem a forma de pequenos planetas numa rota de desintegração, lançam uma questão reflexiva: quando o dia de dizer adeus bate à porta para quem amamos, como é que se cuida de um coração partido? Para uma série com tanto a dizer sobre tantos assuntos diferentes, a resposta é fantasticamente tocante em sua simplicidade. “Você chora! Você chora…”

Live ‘Elza in Jazz’ irá comemorar os 90 anos de Elza Soares

Elza Soares é reconhecida com um dos grandes nomes da música popular brasileira. Foto: Daryan Dornelles/Divulgação.

No dia 25 de julho, em comemoração aos seus 90 anos, a cantora Elza Soares realizará a live “Elza in Jazz”. O evento está sendo preparado desde o início da pandemia diante da impossibilidade de ser realizado ao vivo. O repertório será transmitido às 21h, no Youtube.

A live conta com a participação do  quarteto de jazz formado por Jorge Helder (baixo acústico), Gabriel de Aquino  (violão e guitarra), Márcio Bahia (bateria) e Netão (backing vocal). No mesmo dia, a artista vai  cantar, pela primeira vez, o single “Negão Negra” criado em parceria com o cantor Flávio Renegado, que vai ser lançado nesta  sexta-feira (24). A artista também lançou recentemente a canção “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho. 

Elza da Conceição Soares nasceu no dia 22 de julho de 1930, mas  também celebra sua vida no dia 23 de junho, data que consta na sua certidão de emancipação. A carioca, negra e feminista leva ao público samba e muito exemplo de vida.