Dia: 28 de agosto de 2020

Grande Prêmio do Cinema Brasileiro divulga finalistas da sua 19° edição

‘’Divino Amor’’, lançado em 2019, conta a história da escrivã Joana, que trabalha em um cartório e ajuda os casais a reatarem quando vão pedir o divórcio. Porém, Joana se ver em uma controvérsia quando também vive uma crise em seu casamento. Foto: Divino Amor/Divulgação

A Academia Brasileira de Cinema e Artes Visuais, responsável pelo Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, divulgou os finalistas das 32 categorias da premiação. O evento ocorrerá no dia 10 de outubro, com transmissão pela TV Cultura. Os vencedores receberão o Troféu Grande Otelo em suas casas, ao final da premiação. O longa-metragem pernambucano “Bacurau” de Kléber Mendonça e Juliano Dornelles, foi o filme mais indicado do prêmio, concorrendo à 15 categorias. Além dele, os filmes pernambucanos “Divino Amor” de Gabriel Mascaro e “Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar” de Marcelo Gomes, também foram indicados para as categorias de Melhor Longa-Metragem de Ficção e Melhor Documentário, respectivamente.

Neste ano, a 19° edição da premiação irá homenagear a indústria audiovisual. Segundo o jornal Diário de Pernambuco, o Presidente da Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais, Jorge Peregrino, comenta que “mesmo diante de tantas adversidades, estamos realizando o Grande Prêmio. Este ano vamos homenagear o trabalho dos milhares de profissionais que dedicam suas vidas a encantar as nossas vidas”.

A lista com 32 categorias, indica 200 profissionais, 35 longas-metragens brasileiros, 10 longas-metragens estrangeiros e 15 curtas-metragens também brasileiros. Nesta edição, foram inscritos mais de 1.300 profissionais, 81 longas de ficção,  56 de documentários, 64 curtas, 82 séries, 37 longas estrangeiros e 14 ibero-americanos. Além de “Bacurau”, “A Vida Invisível” (14 indicações) de Karim Aïnouz e “Simonal” (10 indicações) de Leonardo Domingues lideram o pódio de filmes indicados.

Confira a lista completa:

Melhor longa-metragem de ficção

A Vida Invisível

Bacurau

Divino Amor

Hebe – A Estrela do Brasil

Simonal

Melhor longa-metragem documentário

Alma Imoral

Amazônia Groove

Bixa Travesty

Estou me Guardando para o Carnaval Chegar

O Barato de Iacanga

Melhor longa-metragem comédia

Cine Holliúdy – A Chibata Sideral

De Pernas pro Ar 3

Eu Sou Mais Eu

Maria do Caritó

Minha Mãe É uma Peça 3

Socorro, Virei uma Garota!

Melhor longa-metragem animação

A Cidade dos Piratas

A Princesa de Elymia

Tito e os Pássaros

Melhor longa-metragem infantil

Cinderela Pop

Sobre Rodas

Turma da Mônica – Laços

Melhor direção

Daniel Rezende (Turma da Mônica – Laços)

Flavia Castro (Deslembro)

Gabriel Mascaro (Divino Amor)

Karim Aïnouz (A Vida Invisível)

Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau)

Melhor primeira direção de longa-metragem

Alexandre Moratto (Sócrates)

Armando Praça (Greta)

Claudia Castro (Ela Disse, Ele Disse)

Dennison Ramalho (Morto Não Fala)

Leonardo Domingues (Simonal)

Melhor atriz

Andrea Beltrão (Hebe – A Estrela do Brasil)

Bárbara Colen (Bacurau)

Carol Duarte (A Vida Invisível)

Dira Paes (Divino Amor)

Julia Stockler (A Vida Invisível)

Melhor ator

Daniel de Oliveira (Morto Não Fala)

Fabrício Boliveira (Simonal)

Gregório Duvivier (A Vida Invisível)

Marco Nanini (Greta)

Silvero Pereira (Bacurau)

Melhor atriz coadjuvante

Alli Willow (Bacurau)

Bárbara Santos (A Vida Invisível)

Fernanda Montenegro (A Vida Invisível)

Karine Teles (Bacurau)

Sônia Braga (Bacurau)

Melhor ator coadjuvante

Antonio Saboia (Bacurau)

Caco Ciocler (Simonal)

Chico Diaz (Cine Holliúdy – A Chibata Sideral)

Flávio Bauraqui (A Vida Invisível)

Júlio Machado (Divino Amor)

Melhor direção de fotografia 

A Turma da Mônica – Laços

A Sombra do Pai

A Vida Invisível

Deslembro

Kardec

Bacurau

Melhor roteiro original

Los Silencios

Hebe – A Estrela do Brasil

Deslembro

Divino Amor

Bacurau

Melhor roteiro adaptado

Greta

Minha Fama de Mau

Carcereiros – O Filme

A Vida Invisível

Alma Imoral

Turma da Mônica – Laços

Melhor direção de arte

Turma da Mônica – Laços

Kardec

A Vida Invisível

Bacurau

Simonal

Melhor figurino

Hebe – a Estrela do Brasil

Kardec

Simonal

A Vida Invisível

Bacurau

Melhor maquiagem

Kardec

Morto Não Fala

Simonal

A Vida Invisível

Hebe – a Estrela do Brasil

Bacurau

Melhor efeito visual

Kardec

Morto Não Fala

Carcereiros – O Filme

Turma da Mônica – Laços

Bacurau

Melhor montagem ficção

Bacurau

A Vida Invisível

Greta

Turma da Mônica – Laços

Simonal

Melhor montagem documentário 

Amazônia Groove

Torre das Donzelas

Fevereiros

Meu Amigo Fela

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Bixa Travesty

Melhor som

Turma da Mônica – Laços

A Vida Invisível

Simonal

Bacurau

Melhor trilha sonora

O Juízo

A Vida Invisível

Bixa Travesty

Bacurau

Simonal

Melhor longa-metragem internacional

Cafarnaum

Coringa

Dor e Glória

Era uma Vez em… Hollywood

Parasita

Melhor longa-metragem ibero-americano

A Odisseia dos Tontos

As Filhas do Fogo

Família Submersa

O Tradutor

Vermelho Sol

Melhor curta-metragem animação

Apneia, de Carol Sakura e Walkir Fernandes

Céu da Boca, de Amanda Treze

Poética de Barro, de Giuliana Danza

Ressureição, de Otto Guerra

Só Sei que Foi Assim, de Giovanna Muzel

Melhor curta-metragem documentário

Amnésia, de Susanna Lira

Extratos, de Sinai Sganzerla

Fartura, de Yasmin Thayná

OLhos D’Água (Tuã Ingugu), de Daniela Thomas

Viva Alfredinho, de Roberto Berliner

Melhor curta-metragem ficção

Alfazema, de Sabrina Fidalgo

Angela, de Marília Nogueira

Baile, de Cíntia Domit Bittar

Rã, de Ana Flavia Cavalcanti e Julia Zakia

Sem Asas, de Renata Martins

Melhor série animação TV paga/OTT 

Bobolândia Monstrolândia

Charlie, o Entrevistador de Coisas

Lupita no Planeta de Gente Grande

Turma da Mônica Jovem

Zuzubalândia

Melhor série documentário TV paga/ OTT

#OFuturoÉFeminino

1968 – O Despertar

Bandidos na TV

Diálogo sobre o Cinema

Quebrando o Tabu

Melhor série ficção TV paga/ OTT

Aruanas

Coisa Mais Linda

Detetives do Prédio Azul (DPA)

Sessão de Terapia

Sintonia

Melhor série ficção TV aberta

Carcereiros

Cine Holliúdy

Elis – Viver É Melhor que Sonhar

Segunda Chamada

Sob Pressão

O anjo pornográfico: pequenos recortes para pensar aspectos da arena política brasileira contemporânea


Nascido em 1912, o autor de obras como “O Anjo Negro” e “A Dama do Lotação” faria 108 anos em 2020. Foto: Reprodução

Durante essa pandêmica quarentena paguei algumas dívidas de leituras. Uma delas foi “O anjo pornográfico”, a famosa biografia do escritor e jornalista Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. Essa era uma dívida que muito me incomodava, tendo em vista que nutro um grande fascínio pela persona do biografado e pelo próprio sucesso que o livro alcançou, desde o seu lançamento no já longínquo ano de 1992 (foi o vencedor do prêmio Jabuti na sua categoria no ano seguinte).

Ler “O anjo pornográfico” com tanto atraso me confirmou um prejuízo que eu já suspeitava acumular, pois a obra tem méritos enormes, que vão desde o primoroso trabalho de pesquisa, passando pelo estilo fluido de Castro, até o cuidado editorial (entre outros tantos acertos). No entanto, lê-la nessa distância temporal e, mais destacadamente, no presente momento da vida pública brasileira, trouxe-me algumas conexões (e reflexões) interessantes. É sobre essa relação obra/realidade atual do país que gostaria de comentar neste pequeno artigo, destacando dois trechos da biografia que me levaram a inferências sobre posturas/práticas políticas dos nossos (supostos) pólos ideológicos nos dias que correm, um para cada lado.

O primeiro excerto do livro que destaco aqui é a abertura do capítulo 19, intitulado “O tarado de suspensórios”, que retrata um pequeno instantâneo da luta do político Carlos Lacerda contra o então presidente Getúlio Vargas. De acordo com Ruy Castro, na sua estratégia anti-getulista, Lacerda precisava primeiro destruir o jornalista Samuel Wainer e o seu “Última Hora”, jornal em que Nelson Rodrigues trabalhava na circunstância dessa querela. Estando, pois, empregado na empresa de Wainer, as “bordoadas” do udenista sobraram para o tal anjo pornográfico:

“O tarado Nelson Rodrigues!”, gritava Carlos Lacerda pela rádio Globo em 1953. “Um dos instrumentos do plano comunista da “Última Hora” para destruir a família brasileira!” 

Carlos Lacerda citava Marx e Engels, para mostrar o péssimo conceito que os dois filósofos alemães tinham da família, e lia trechos de “A vida como ela é…”, para provar que Nelson Rodrigues fazia parte do insidioso movimento comunista internacional. Quem ouvisse Carlos Lacerda falando aquilo pelo rádio, e não conhecesse Nelson, era bem capaz de acreditar. Mas qualquer um que já tivesse trocado duas palavras com ele só podia rir. (Castro, 2001, p. 243)

A passagem nos faz lembrar que a retórica anticomunista já era utilizada no país muito antes da ascensão da força política que atualmente ocupa nosso governo federal. Na historiografia nacional podemos facilmente constatar que as hostilidades aos comunistas já aconteciam desde as primeiras décadas do século passado, sendo intensificadas após a Intentona Comunista em 1935. Mas a semelhança dos discursos nos salta aos olhos. E um mesmo propósito: ativar uma maquinação ideológica para desqualificar opositores e colocar no debate/espaço público brasileiro temas e convicções extemporâneos, frequentemente centrados no apelo confuso à religião e à moral. “Vai haver uma limpeza como nunca houve antes nesse país. Vou varrer os vermelhos do Brasil. Ou vão embora ou vão para cadeia”, vociferou o então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral (ou seja, 65 anos após Carlos Lacerda!) na sua famosa transmissão para a avenida Paulista. Obviamente, o despropósito do presidente é muito maior. Lacerda não foi testemunha da queda do muro de Berlim e nem de toda derrocada do Leste Europeu que assistimos ao fim do século XX, eventos que desvelaram, definitivamente, um modelo político nada desejável. Diante disso, torna-se inevitável pensarmos o “fantasma do comunismo” como uma desatinada estratégia retórica sem vínculos muito concretos com a nossa realidade (ainda que setores da esquerda no país insistam na crença em caminhos pouco democráticos e supostamente redentores para a “nossa salvação”). 

Edição da editora Companhia das Letras da biografia “O anjo pornográfico”. Foto: Reprodução.

O segundo trecho está logo adiante, no capítulo 22 da obra, intitulado “O sangue em flor”. Trata-se de outra citação de terceiros, dessa vez do jornalista e escritor mineiro Paulo Mendes Campos. Na sua crítica à peça de Nelson “Os sete gatinhos”, que acabara de estrear (era outubro de 1958) no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro, P.M.C. escreveu: 

O mundo perde sempre um pouco da sua potencialidade trágica quando um preconceito é destituído. Se admitirmos, por hipótese, um mundo mentalmente asséptico, varrido de todos os preconceitos, estejamos certos de que o drama e a tragédia desaparecerão dos palcos. (Castro, 2001, p. 287)

De forma ousada, Paulo Mendes Campos sintetiza nesse excerto o teatro livre e sem concessões de Nelson Rodrigues. “Os sete gatinhos” narra em sua trama a história de uma família na qual quatro irmãs se deixavam prostituir pelo pai para que a caçula se casasse virgem – uma tragicomédia que expõe as vísceras de uma realidade suburbana brasileira, permeada de preconceitos e contradições. Parafraseando o próprio Nelson, o que ele nos oferece é a vida como ela é… 

Ao ler o fragmento de Paulo Mendes Campos acima, podemos facilmente nos lançar a pergunta: como seria hoje a recepção dessa sua crítica por parte da nossa atual esquerda identitária? Mesmo considerando que o leitor, como já nos alertou um teórico alemão, “nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua compreensão é justa” (Iser, 1979, p.87), desconfio que, muito provavelmente, ela não teria um bom acolhimento. No entanto, o que vemos nas palavras do autor de “O Amor acaba” não se trata de uma exaltação de ideias que nos remetem a discriminação e/ou a intolerância. O que elas nos trazem é a valorização do exercício teatral mimético, transferidor, cujo efeito catártico nos oferece antes a possibilidade de enxergarmos nossos valores e sentimentos e, aí sim, nos dando a chance de nos livrarmos dos preconceitos.

Eis dois pequenos recortes, retirados da minha leitura extemporânea d’O anjo pornográfico, que me levaram a aspectos/inferências da arena política brasileira contemporânea. Nessa condução, a admirável biografia me reafirmou aquilo que aprendemos desde cedo, que a literatura sempre nos consente unir a obra do escritor com a realidade do leitor, onde este último busca discernir como texto e repertório/experiência (aqui pode ser até mesmo um momento político) se encadeiam – esses são os motores do processo de significação. Um livro nunca é o mesmo, seja a cada releitura ou mesmo em sua primeira e distante leitura atemporal, como no caso descrito neste texto. O trabalho de Ruy Castro também me confirmou outra velha lição: “a literatura permite àquele que lê pensar e até organizar/reorganizar a complexidade que é a vida”. (Cassiano/Tofalini, 2012, p.1) 

Sobre o autor: Doutor em Estudos de Literatura pela PUC-Rio, Roberto Azoubel atualmente é Coordenador de Literatura na Secretaria de Cultura de Pernambuco.

Referências Bibliográficas:

CASSIANO, Luzia de Queiroz; TOFALINI, Luzia Aparecida Berloffa. Romance regionalista e denúncia social. In: PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. O professor PDE e os desafios da escola pública paranaense, 2009. Curitiba: SEED/PR., 2012. V.1. (Cadernos PDE). Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2009_uem_portugues_artigo_luzia_de_queiroz_cassiano.pdf>. Acesso em 23/08/2020. ISBN 978-85-8015-054-4.

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Hans Robert Jauss et al.; coordenação e tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.