Dia: 11 de setembro de 2020

E-Pífano: a desconstrução da narrativa única sobre Nordeste

O E-Pífano estreou dia 18 de julho e lança vídeo novo toda semana no Instagram. Foto: E-Pífano/Divulgação

A história do Nordeste sempre foi algo contado e recontado diversas vezes por grandes clássicos da arte. Os temas seca, pobreza e desigualdade estiveram vinculados ao imaginário nordestino continuamente, reforçados em músicas como “Asa Branca” de Luiz Gonzaga, e livros como “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Essa imagem repetida e internalizada pelas outras regiões e pelo próprio povo que nela vive, faz crescer a narrativa única sobre o Nordeste que apresenta imensa diversidade cultural e geográficas. 

Na contramão dessa repetição imagética do Nordeste do “nem um pé de plantação”, parafraseando Gonzagão, o projeto “E-Pífano” busca mostrar novos rostos e abrir espaço para as diferentes identidades que existem na região. Formado pela aluna de Direito Vitória Chaves Araújo de Farias, apelidada de Vivi, e o estudante de Publicidade e Propaganda Yuri Vieira Silva, apelidado de Yuro, o E-Pífano, com menos de dois meses de execução, publica vídeos e posts sobre as temáticas nordestinas na  rede social Instagram.

A equipe do Café Colombo entrevistou a dupla, que nos contou sobre o nascimento do canal, os desafios de produzir conteúdo, o Nordeste como cenário do “curral eleitoral” recorrente na política e as novas cenas da cultura popular da região.

Como surgiu a ideia e qual é o objetivo de vocês com E-Pífano? 

Yuro: No início de junho, em meio à pandemia, eu surgi com a proposta para Vivi de criar esse canal, porque a gente conversa muito sobre isso. Ela concordou e fomos construindo a identidade de uma página que falasse de Pernambuco e da região inteira. Hoje, temos menos de dois meses de execução do projeto.

Vivi: Conheci Yuro a partir do nosso ciclo de amigos em comum. Embora nossos amigos também gostassem de cultura local, eu e ele sempre conversamos muito sobre o Mangue Beat e muitas outras formas de expressão cultural. Então, vimos a necessidade de ter meios de comunicação que discutisse essas questões. Também achamos  importante fixarmos a nossa fala enquanto pernambucanos. Nosso intuito é exatamente democratizar esses espaços da cultura.

Yuro é nascido em Natal (RN) e Vivi nasceu em Belo Jardim, mas ambos moram em Caruaru. Foto: Acervo pessoal.

Por que o nome E-Pífano?

Yuro: O nome surgiu depois de realizar um trabalho na faculdade no qual precisávamos criar uma agência de publicidade fictícia para clientes com interesses regionais. Como era só um trabalho acadêmico, o nome ficaria inutilizável após o término dele. Quando surgiu o projeto, eu vi uma boa oportunidade de usar o nome, pois as ideias se encaixavam.

Por que foi escolhido a rede social Instagram para compartilhar esse conhecimento acerca da cultura nordestina? 

Vivi: Nós entendemos que seria melhor o Instagram porque ele possui uma versatilidade melhor nas suas publicações. Vídeos, stories e cards, permitem que essas interações sejam mais dinâmicas. Além disso, nós começamos a aumentar a nossa relação com o público por outras plataformas, como na nossa playlist “Nordeste na Voz’’.

Yuro: A comunicação é bem mais fácil também, na troca de comentários, do que no Youtube, por exemplo. No Youtube é algo mecânico e distante do público. Já no Instagram você tem essa troca de feedback mais rápida.

Como ocorrem as parcerias do E-pífano com outras marcas, como com a loja O Facheiro?

Yuro: A parceria com O Facheiro é algo tão natural. Também fazemos divulgações de outras páginas que tenham um conteúdo legal, mas sem o intuito de uma parceria formal.

Vivi: Assim como fizemos com o pessoal do Instagram Além da Lenda, que tem um trabalho muito massa. Queremos que outras pessoas conheçam para divulgar cada vez mais esses projetos que exaltam a cultura popular.

Vocês têm perspectiva que o E-Pífano se torne um trabalho rentável?

Yuro: Seria muito legal! Porque é um projeto que nós trabalhamos de livre e espontânea vontade. Lógico que é massa o feedback positivo da galera, mas seria muito interessante a gente ter um retorno financeiro, poderíamos nos empenhar mais e trazer novidades todos os dias. 

Os vídeos produzidos por vocês tiveram bastante repercussão. Quais são os desafios de se trabalhar com conteúdo cultural que alcança tantas pessoas?

Vivi: Até agora o projeto tem bastante comentários positivos. Não veio nenhum comentário xenofóbico. Mas eu acho que é porque essas pessoas que nos assistem são simpatizantes das nossas ideias. Mas, no geral, tomamos cuidado sobre as palavras usamos prevendo os possíveis haters que podem surgir.

Yuro: Eu acho que o resultado tem sido muito positivo. Como a gente dividiu os nossos vídeos em temas, estamos trabalhando agora com a parte mais teórica. Mas quando entrarmos em temas mais delicados, como política, podem vir vários tipos de comentários. E tudo bem se forem comentários respeitosos que discordem do nosso ponto de vista. Não queremos doutrinar pessoas, mas, abrir o diálogo e gerar discussões. No início do canal, nossa maior preocupação era soarmos como professores, porém não temos formação para isso. O que nós falamos é fruto dos nossos estudos, do nosso ciclo familiar e de amizade. E caso chegue um assunto que não sabemos, chamaremos um especialista. 

Vivi: Usamos bases teóricas, como a nossa bíblia “A Invenção do Nordeste e outras artes” de Durval Muniz de Albuquerque, que fundamenta muitas das perspectivas que nós temos. Nosso intuito é tentar aguçar esse pensamento crítico das pessoas, e tornar o E-Pífano em um canal para se debater ideias.

Nos vídeos produzidos por vocês existe a forte presença de desconstrução da imagem do Nordeste. Como vocês enxergam a importância dessa identidade para uma região e para um povo? 

Yuro: Como faz parte do meu tema de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) falar sobre os estereótipos acerca do Nordeste, eu tava refletindo sobre isso há um tempo. Querendo ou não, os estereótipos existem para tornar mais fácil a identificação de um povo, mas eles não nos definem por completo. São nove estados que as pessoas resumem de uma maneira muito simples e superficial. E isso interfere na nossa impressão sobre a região também. Quando as pessoas usam os termos “povo sofrido’’ e “seca’’ para nos classificar, esquecem que essas carências existem aqui e em outros locais. Esses termos não são uma única verdade.  Queremos dar outras linhas para essa história. No livro de Durval esse é um tema bastante trabalhado:  como a mídia e as artes repetiram uma única narrativa acerca do Nordeste. É muito difícil você ouvir sobre isso em outras regiões. Como a expressão “povo sudestino’’, que não é tão comum quanto “povo nordestino”. 

Vivi: Ainda existe a ideia da região estar relacionada ao atraso. Nós não apagamos os fatos de que, por uma questão geográfica, existe a seca, mas não é só isso que caracteriza esse espaço. Observar esses estereótipos e como eles nos cabem e até onde nos cabe é um dos principais objetivos do E-Pífano. Também queremos que o canal abrace outros estados, para que eles se sintam acolhidos em mostrar sua identidade.

Observar esses estereótipos e como eles nos cabem e até onde nos cabe é um dos principais objetivos do E-Pífano.

O quanto esses estereótipos representam ou não representam vocês? 

Yuro: Acho que um estereótipo positivo do Nordeste são as nossas tradições. Gosto muito da forma como o Nordeste é lembrado pela cultura do São João e do forró, por exemplo. A identidade cultural é muito forte e ampla. Até mesmo nós, nordestinos, não conhecemos sua variedade. Existe um estereótipo de que somos um povo batalhador e forte. E sim, existem dois viés nessa frase. O primeiro, da pessoa que saiu da seca e precisou encontrar novas formas de sobrevivência, e, o segundo, do nordestino forte e batalhador. Acredito que esse último seja um estereótipo do bem, já que nossa história retrata isso. 

Vivi: Um estereótipo massa que acho de Pernambuco, é que o nosso povo é muito defensor de si. Não no sentido egoísta. As guerrilhas, por exemplo, são uma demonstração dessa nossa força. Meu TCC é sobre o patrimônio cultural e direito à cultura, e eu faço uma análise da feira de artesanato de Caruaru. É muito lindo nós termos uma cultura de artesão e artesãs. Ao meu ver, dois estereótipos negativos recorrentes são a forma que é representado a mulher nordestina em filmes, livros e música, extremamente masculinizada, e o preconceito linguístico com a nossa fala. 

Como vocês se sentem com essa representação do Nordeste, idealizada não só pelo Governo Federal atual como os antigos, de um lugar necessitado de dinheiro e comida? Uma representação feita, inclusive, pelo candidato à presidência em 2018 Geraldo Alckmin (PSDB) e também por nordestinos, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Yuro: Nós do Nordeste somos vistos como pobres e necessitados por termos votado em líderes de esquerda, como Lula, visto que o seu plano de governo ofereceu moradia e comida àqueles que precisavam. Parece assim que nós precisamos viver de esmolas, no olhar dessas pessoas. Alguns julgam que o Nordeste troca política por favores, e nós vemos que isso não é uma concepção correta. Nós estamos mudando esse cenário atualmente. Caminhamos diariamente para uma polarização política no Brasil entre bolsonaristas e lulistas, deixando de lado outras questões importantes. Acho que precisamos dialogar sobre políticas públicas, não só bipartidarismo. Nós precisamos de um posicionamento e de uma consciência política forte para não elegermos representantes que classificam todo o Nordeste de “paraíbas”. Democratizar a educação e acabar com a pobreza não são esmolas, isso deveria ser algo básico. Questionamentos de “como podemos mudar esse quadro? Como podemos pressionar os representantes?” merecem ser feitos pela população. O que também acho interessante refletir é como tantas pessoas se incomodam com o Nordeste ter ganhado visibilidade pelos benefícios que recebeu. 

Vivi: As pessoas que não moram no Nordeste costumam pegar um espaço-tempo específico da região que, sim, foi beneficiada com escolas, universidades, declínio da fome, bolsa família, e afirmam que não sabemos votar. E com esse argumento esquecem todas as negligências do Governo Federal. Eles não fizeram nada além da obrigação deles. Por muito tempo, houve um apagamento da nossa história. E, em um dado momento, governos de esquerda passaram a trazer mudanças, nas quais os nordestinos tornaram-se gratos por isso. O governo atual do presidente Bolsonaro, por exemplo, não só negligencia a região, mas a ciência, a educação e reforça estereótipos sobre nós. Eu e Yuro conversamos esses dias sobre como as pessoas que se incomodam com esses incentivos na região, gostam de passar as férias em praias daqui e aproveitar as festividades, mas durante o resto do ano é esquecida por eles.

Qual é a visão de vocês sobre uma cultura popular dita como pura e uma cultura popular que se insere dentro de outros movimentos, como o bregafunk?

Yuro: Falando de Pernambuco, nós temos muitos nomes interessantes e plurais, desde os mais clássicos até a nova geração. As movimentações artísticas não são antigas e esquecidas, elas são utilizadas para novos ritmos e conceitos. O frevo, o forró e o manguebeat estão sendo representados por novos artistas atualmente. Duda Beat e Lucy Alves são representantes disso. Assim como o bregafunk, que alcançou e continua alcançando muitas pessoas de outros países. Não só o antigo merece visibilidade, mas o novo precisa também ser visto. 

Vivi: Eu acho que nós somos muito inventivos. Nós temos uma cultura regional, do agreste, sertão e litorânea muito massa. E tentamos abranger vários estilos e buscar cada vez mais sobre esses ritmos. É impressionante como em todo carnaval temos algo diferente. Sou muito apegada à tradição, mas o novo dá uma repaginada enorme. 

‘Narciso em Férias’ e a segunda abolição


Para o documentário, o cantor e compositor brasileiro regravou “Hey Jude” (Lennon/McCartney), uma lullaby do grupo inglês The Beatles que pode ser aludida aos seus dias de cárcere. Foto: Reprodução.

O subsolo do Narciso enjaulado

Era 27 de dezembro de 1968 quando Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso teve sua casa invadida, sem maiores explicações, a pretexto de participar de um interrogatório que, muito antes de acontecer, serviu de justificativa para que sua prisão fosse decretada. O crime, adivinhem, hoje nós chamamos de Fake News.

Sim. Caetano foi preso por uma mentira, um boato, 14 dias depois da promulgação do Ato Institucional Número 5 (AI5), decreto que revogou direitos civis e políticos e autorizou ao Regime ditatorial militar a agir com mão de ferro. O que nós chamamos 52 anos depois de Fake News, e que culminou com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil foi a falsa notícia vinculada pelo então apresentador de televisão,vinculado ao Regime Militar, Randal Juliano , de que os dois haviam desrespeitado os símbolos nacionais ao cantar uma paródia do hino nacional e atear fogo à bandeira brasileira. Tratava-se de uma Fake News, evidentemente, como depois Caetano, com testemunhas a seu favor, pôde comprovar.

Apesar disso, a prisão durou de 27 de dezembro de 1968 a 19 de fevereiro de 1969, embora a história do artista com o enfrentamento do regime militar não tenha terminado por aí, já que após a prisão propriamente dita, veio a prisão domiciliar em Salvador, e por último, o Exílio em Londres.

Entretanto, o documentário “Narciso em Férias”, que participou do Festival de Cinema de Veneza e estreou ontem no Brasil pela Globo Play, dedica-se exclusivamente à narração em primeira pessoa da experiência penitente do artista: do instante da invasão de seu apartamento, da troca de sela, de seu interrogatório, dos dias vividos no cárcere, até o instante de libertação e retorno para a prisão domiciliar em Salvador. “Quando a gente é preso uma vez, a gente é preso para sempre” decreta Veloso, com voz soturna, citando Rogério Duarte.

A segunda abolição

Com o devido respeito à história de um homem preso pela ditadura militar iniciada em 1964, e com o intuito de acrescentar às suas palavras sobre a tortura psicológica de ver um carro na prisão enquanto aguardava o interrogatório, eu complementaria dizendo que, com o tempo, mudam apenas as maneiras com as quais nos relacionamos com nossas prisões. O documentário “Narciso em Férias” recebeu esse título em razão de que, durante a prisão, Caetano não teve acesso a espelhos e, portanto, não viu sua imagem refletida.

O documentário “Narciso em Férias” foi produzido por Paula Lavigne e lançado no Festival de Veneza. Sobre sua prisão, Caetano cita Rogério Duarte: “quando a gente é preso, é preso para sempre”. Foto: Reprodução.

Se me permitem uma licença poética, como no longa-metragem o próprio Caetano cita “um negócio de Freud com Marx”, é bom não esquecer que o Narciso (de Freud) diz respeito à maneira como cada pessoa relaciona-se consigo mesma a partir do outro (sua imagem). Nesse sentido, é extremamente necessário prestar atenção às palavras de Caetano quando denuncia (do lado de Marx) a partir da própria prisão, as desigualdades de classes sociais e o racismo (mesmo não sendo negro): “Eles nos tratavam como se não fossemos gente e como se eles mesmos não fossem gente como nós. Gil tinha direito ao violão só porque tinha ensino superior. Não precisa assistir Tropa de Elite pra saber que isso existe. Esse negócio de que com o preso preto e pobre pode fazer tudo tem que acabar”

De acordo com Caetano Veloso, esse fenômeno é a reafirmação da escravidão. De tal modo, em última observação, afirmo que é preciso lutar para que haja a nova e segunda abolição. Enquanto o Presidente da República nega a existência da ditadura militar que prendeu e tenta cafajestizar a imagem do Brasil, Caetano, subversivo e desvirilizante, leva do Brasil para o mundo o seu testemunho de um autêntico, vivo e legítimo patriotismo brasileiro.

Sobre o autor: Kleberson Ananias é pesquisador negro, psicólogo e psicanalista. Ativista dos direitos humanos e crítico da cultura brasileira. Escreve para a página Gal Plural. Atualmente, dedica-se ao estudos das sexualidades, e das relações da teoria psicanalítica com a Cultura Africana.