Dia: 1 de outubro de 2020

Quino, pai de Mafalda

Artistas prestam homenagem a Quino, criador da Mafalda

Quino, criador de Mafalda

Quino parou de desenhar Mafalda em 1973, mas continuou a desenhar histórias que mantiveram seu legado crítico. Foto: Miguel Riopa/AFP/Arquivo.

O cartunista argentino Quino morreu nesta quarta-feira (30), aos 88 anos. Joaquín Salvador Lavado Tejón nasceu em 1932 e publicou seu primeiro quadrinho aos 18 anos, mas foi em 1962 que criou a garotinha Mafalda — cujo nome foi inspirado em um personagem da novela “Dar la Cara”, escrita por David Viñas. A menina de 6 anos que odiava sopa, era fã dos Beatles e se preocupava com política e questões de gênero foi criada para uma campanha de eletrodomésticos, porém, foi engavetada; Mafalda só começou a ser publicada em 1964, tornando-se um grande sucesso de público. Quino parou de desenhá-la em 1973, mas suas indagações são atemporais.

Questionando as desigualdades latentes da sociedade, Quino influenciou gerações de artistas pela América Latina. Confira as homenagens deixadas por cartunistas:

Adão, André Dahmer, Fabiane Langona e Estela May homenageiam Quino na Folha de S. Paulo. Foto: Twitter/Divulgação

Projeto reúne vozes para leitura coletiva da obra Grande Sertão: Veredas

Livro Grande Sertão: Veredas, edição de 2001 publicada pela editora Nova Fronteira. Foto: Osmar Freitas

O projeto “Ler Grande Sertão: Veredas” propõe a leitura coletiva do romance de Guimarães Rosa, da primeira à última frase, a partir de vídeos que são publicados diariamente no Instagram e no Facebook. A ação movimenta a cena literária cultural brasileira e conta através das vozes de várias pessoas  interessadas na história de amor de Riobaldo por Diadorim.

Mais de 120 pessoas se dispuseram a emprestar a voz às reflexões filosóficas de Riobaldo — personagem que narra a própria vida, desde a adolescência, antes de virar jagunço. As inquietações do pensamento do personagem vagueiam entre questões como a vida, o bem o mal, Deus e diabo.

A iniciativa surgiu como consequência do amor em comum dos poetas e coordenadores do projeto Alberto Pucheu, Caio Meira e Cláudio Oliveira pela obra de João Guimarães Rosa, um dos mais importantes escritores modernistas do século XX.

Publicada em 1956, Grande Sertão: Veredas é considerada uma das mais relevantes obras da literatura brasileira. Com elementos regionalistas e modernistas, o livro recebeu adaptações em formato de filme, minissérie, história em quadrinhos, documentário e até ópera.

Sobre o parecer ser

A alma que não tem objetivo estabelecido se perde,

pois, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar nenhum.

Michel de Montaigne

São Jerônimo escrevendo – Caravaggio. Foto: Reprodução

Ninguém é. E, ao mesmo tempo, todos são. Como, em um mundo com uma infinidade de opções, acontecimentos, informações, todo mundo sabe tanto sobre tantas coisas? Parece que vivemos em um universo habitado por milhares de Aristóteles. Uma vez me disseram que os sábios eram raros; mas, nos dias de hoje, desconfio dessa afirmação. 

“Você está errado. Sim. Você está errado!” Sentenciam eles, juízes da verdade. Detentores da razão. Como eu poderia discordar? Tanta segurança. Tanta certeza. Devo ser um asno, porque a exemplo de Sócrates, apenas sinto que nada sei quando estou frente a tamanha pluralidade de assuntos. E olha que leio. Leio. Leio. Num ou noutro tema até posso ter algum domínio, falar com certa propriedade. Porém, quanto mais assuntos escavo, quanto mais informações absorvo, mais eu me deparo com a incerteza.

Tantas perspectivas. Tantas nuances. Como fazem esses sábios do nosso tempo para possuírem esse monte de certezas? Nossos Aristóteles. Os gênios das redes sociais. Jamais conheceram uma aporia. Tão sabedores. Como encontram fácil a verdade. Talvez precisem só de um vídeo no YouTube. Ou apenas visualizar alguns stories. E pronto. Eureka!

Como eu queria ser sábio assim! Mas será que eles realmente são? Quando Górgias fala que “nada é”, dá até calafrios. É assustador. Será que essa convicção tão certeira, tão exata, não é medo de não ser? Mas eles parecem ser. Formam comunidades inteiras parecendo ser. Derrote o inimigo! Destrua-o com essas palavras tão ansiosas e raivosas expelidas ao agredir seu teclado! Ah, geração tão sábia. E eles ainda dançam…

Mas a partir de quais princípios esses sábios dançarinos chegam ao encontro de verdades tão absolutas? 

Um filósofo da rua – daqueles que nunca são lembrados pela história – certa vez me falou que todos esses “sábios”, detentores da certeza ideológica, se veem lutando em favor da limpeza e do bem, cuja única forma de purificação seria através de sua causa. Todo ímpeto que possuem é destinado a combater os nefastos, disse-me ele. 

“Mas sabe quem é mesmo nefasto? Aquele que imagina que é puro, esse sim é nefasto! Eu sou puro, eu sou nefasto!”

Será? Não sei. Porém, às vezes tendo a concordar com ele. Após morderem aquela maldita maçã, os humanos nunca mais foram os mesmos; orgulho e vaidade se tornaram medida de tudo.

E quanto a tu, Prometeu, o que tinha naquele fogo? Será que era a extrema sabedoria, a verdade que a minha geração julga ter encontrado? Você deveria cuidar melhor do seu irmão, Prometeu. Mas talvez seja ele, Epimeteu, o rei da nossa era. A era dos tolos. Condenados a viver sem objetivos. Submetidos ao vazio da falta de valores concretos. Movidos por ressentimento. Obrigados a  vestir máscaras de bondade. Fadados a criar ídolos de plástico.

Mas, o que eu sei? Nada. Vivo correndo de patinete atrás do vento, assim como todos os outros. Pior. Eles conhecem a verdade. Já eu, só conheço a dúvida.

Leia mais:

Sócrates e uma reflexão sobre momentos extremos