Patativa do Assaré: A poesia por trás do Dia do Nordestino


Patativa do Assaré é um dos poetas populares mais importantes do Brasil. Foto: Fernando Travessoni

Passará de Assaré

Do céu da boca

A voz tão rouca

A trova louca, trova louca

Oh letra bem escrita sem papel

– “Passarim de Assaré” (1979), de Fagner e Fausto Nilo

Desde 2009, em 8 de Outubro, celebra-se o dia do Nordestino, criado por meio do Legislativo da capital São Paulo. Sabe-se que a idealização do dia do Nordestino nessa cidade específica nada tem de obra do acaso. O caminho trilhado de diversos pontos do Nordeste com destino à capital paulista foi muitas vezes realizado, de forma árdua e precária, por famílias nordestinas e retratado tanto na literatura regionalista de 30 quanto nas  artes visuais, a exemplo de Os retirantes, de Cândido Portinari. Todo esse movimento também resultou no conhecimento da cidade enquanto aquela não situada no Nordeste com mais nordestinos residentes.

Contudo, a data que visa homenagear e celebrar a diversidade e riqueza do Nordeste tem como iniciativa – ou mote, já introduzindo o vocabulário característico da poesia nordestina – uma homenagem ao centenário de um importante personagem cultural oriundo da região. Normalmente, ao falar em cultura e Nordeste, é comum já surgir o nome de Luiz Gonzaga. Porém, o sujeito em questão é o Antônio Gonçalves da Silva, o célebre Patativa do Assaré. 

O poeta, cordelista, repentista e agricultor, falecido em 8 de Julho de 2002, completaria 100 anos em 2009. Mas porque a celebração de seu centenário justificaria a celebração de toda a diversa cultura nordestina?

Pro Nordeste, a poesia

“Deus quando fez o mundo / fez tudo com primazia … Para o Sul deu a riqueza / pro Planalto, a beleza / pro Nordeste, a poesia”. Esses versos do cordel “O Nordeste é Poesia”, atribuídos ao poeta popular Zé Bezerra, independentemente da constatação factual e social dos primeiros versos, deixa em destaque a importância que a poesia tem na identidade do povo nordestino. Patativa do Assaré, além de outras classificações, foi um dos principais expoentes dessa poesia típica e popular do Nordeste. Mas o que a faz tão singular e característica?

Acredito que os motivos são deveras diversos e profundos para abordar na coluna de uma forma que não fique muito extenso para o gênero. Mas alguns pontos são importantes e cabíveis de destacar de forma introdutória à poesia nordestina e também ao próprio Patativa. 

Pra gente aqui cê poeta e fazer rima compreta

não precisa professor,

basta ver no mês de maio

um poema em cada gaio

e um verso em cada flor.

– “Cante lá que eu canto cá”, Patativa do Assaré 

O primeiro e talvez mais evidente, seja o vocabulário, léxico e expressões que há muito tempo já são característicos do próprio nordestino. Então essa coloquialidade, juntamente à prosódia, talvez seja o que há de mais característico da poesia popular nordestina.

Outro fator bastante típico é a própria diversidade de subgêneros dentro do gênero abrangente da poesia popular. Entre eles está o cordel, a embolada, a glosa e a canção de viola. O repente, vez ou outra citado enquanto gênero poético, refere-se na verdade aos versos que são criados na hora enquanto o poeta recita na companhia de uma viola ou pandeiro. Improvisou e fez na hora, já é repente.

Outros dois elementos bastante característicos em todos esses subgêneros poéticos são o verso metrificado ou ritmo e a rima. Curiosamente tanto o ritmo quanto a rima possui uma mesma origem etimológica latina, que significa “repetição de coisas iguais para criar um efeito estético”. Isso é afirmado pelo poeta, pesquisador e escritor Bráulio Tavares na série Poetas do Repente. Cito já para deixar uma indicação de conteúdo para aprofundar no tema da poesia popular nordestina.

Pra poesia, Patativa do Assaré

Muitos são os poetas populares reconhecidos enquanto geniais, influentes e perspicazes. É o caso de Zé Limeira ou “O poeta do absurdo”, Zé da Luz, Ivanildo Vila Nova, Novinha de Passira, Pinto do Monteiro e Lourival Batista. Esses últimos, inclusive, já citei em outra coluna aqui no Café Colombo. Nesse contexto, o que explica o reconhecimento que se sobrepõe ao poeta Patativa do Assaré?

Se falar contra a injustiça é ser político, então sou político.

– Patativa do Assaré

Muito desse destaque se deve ao fato de suas poesias conterem reiteradamente temas sociais, políticos e de classe retratando muitas vezes situações dos nordestinos, no sertão ou cidade, injustiçados econômica e socialmente. Entre seus poemas são frequentes temas como a reforma agrária, no cordel “A terra é naturá”; a desigualdade social, em “Brasil de Cima e Brasil de Baixo”; a crítica ao poder governista, do municipal ao nacional, em poemas como “Prefeitura sem Prefeito e “Teia de Aranha”

Os temas de sua poesia rimavam metrificadamente com o contexto social, político e até cultural do Brasil entre as décadas de 60 e 70. Momento histórico não só de movimentos a favor da reforma agrária e contra a acentuada desigualdade social potencializada pelo governo militar, mas também uma época da politização da MPB em figuras como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Geraldo Vandré. 

A poesia de Patativa não só falava dos sofrimentos do nordestino, mas os denunciava, muitas vezes de uma forma lírica e ao mesmo tempo intensa. Um dos poemas mais tocantes do poeta é a “A morte de Nanã”, que versa sobre a morte de sua própria filha devido à desnutrição em virtude da falta de trabalho, alimento e seca.

Eu vendo meu burro,
Meu jegue e o cavalo
Nós vamo’ a São Paulo
Viver ou morrer.
– Triste Partida, Patativa do Assaré

Além disso, a época de meados do século XX ainda é fortemente marcada pelo êxodo dos nordestinos em direção a São Paulo. E sobre essa temática Patativa do Assaré escreveu “Triste Partida“, que deve seu reconhecimento nacional à musicalização e gravação desse poema por Luiz Gonzaga em seu álbum de 1964, também intitulado “Triste Partida”.

Outros pontos que valem o destacar no reconhecimento de Patativa do Assaré são os registros escritos e fonográficos de sua obra. Devido à origem frequentemente humilde e ao caráter oral da poesia popular, poucos foram os poetas do gênero no século XX que chegaram a ter suas obras gravadas, seja em suporte sonoro ou escrito. Sendo assim, Patativa do Assaré é um dos poucos que chegaram a ter livros publicados. Inclusive, o primeiro livro, “Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa” (1956), só chegou a ser publicado graças ao patrocínio de um admirador do poeta, o professor e jornalista José Arraes de Alencar.

Além da palavra escrita, os versos de Patativa do Assaré também ocuparam lugar no espaço fonográfico e LPs. Além da já citada música lançada por Luiz Gonzaga, Fagner, que já gravou diversos poetas, musicou também o poema “Vaca estrela e Boi Fubá”, de Patativa. Foi também Fagner o responsável pela produção musical do primeiro LP de Patativa do Assaré, “Poemas e Canções” (1979). Outros LPs com obras de Patativa são “A Terra é naturá” (1980) e “Patativa do Assaré – 85 anos de Poesia” (1995). Neste último LP houve as participações de outros ilustres repentistas como as duplas Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio e Otacílio Batista e Oliveira de Panelas. 

A poesia de Patativa do Assaré, que chegou a ser estudada em universidades fora do Brasil, em países como a França e Portugal, pouco é estudado nas instituições brasileiras do ensino básico ao superior, mesmo no próprio Nordeste. Entretanto, faz-se importante o resgate da obra de Patativa neste momento da história brasileira, em que as diferenças entre o “Brasil de cima e o Brasil de baixo” se tornam mais evidentes com o aumento da desigualdade social e com o voraz taxamento de comunista quando alguém defende políticas públicas, assim como aconteceu com o poeta no período ditatorial. 

É neste contexto sócio-político que sua poesia permanece um grandioso exemplo da utilização da arte enquanto um instrumento de denúncia social e sensibilização da sociedade para suas demandas mais urgentes e suas injustiças mais gritantes. E que o futuro do Brasil se mostre como Patativa do Assaré idealizou: 

…Em vez deste grande apuro,

Todos vão tê no futuro 

um Brasi de cada um. 

Brasi de paz e prazê, 

De riqueza todo cheio, 

Mas, que dono do podê 

Respeite o direito alheio. 

Um grande e rico país 

Munto ditoso e feliz, 

Um Brasi dos brasilêro, 

Um Brasi de cada quá, 

Um Brasi nacioná 

Sem monopolo estrangêro.

– Brasil de Cima e Brasil de Baixo, Patativa do Assaré