Sex and the City, (1998) – Foto: Reprodução/IMDb

5 séries que abordam o tema da sexualidade feminina


“Sex and the City” é uma série baseada no romance de Candice Bushnell. Foto: Reprodução.

O filósofo francês Michel Foucault, nos seus estudos sobre sexualidade humana, pôs em evidência as forças, disposições e  estratégias que condicionaram o cotidiano das pessoas. Em seu livro “Na Vontade de Saber”, a sexualidade é abordada como efeito de relações de força materializadas em discursos e práticas sociais ou, em termos foucaultianos, “em formas de poder e saber”. Poder, nesse sentido, seria um discurso moral sobre os corpos, resultando na sua identificação como sujeito de suas ações, de seus pensamentos, de seus desejos, de suas verdades. O corpo, suas sensações, prazeres, anatomia, disposições, tudo é colocado em análises discursivas e de poder: a igreja, as instituições disciplinares, a ciência e a medicina. Essas instâncias teriam como invariante a regra fundamental de posicionar os indivíduos em um esquema confessional, no qual o que era dito poderia ser usado contra ou favor dele, pois o que ele dizia tinha um estatuto de verdade sobre si. Assim, Foucault caracterizou a sexualidade como uma experiência discursiva, como algo que, para se tornar real e ser reconhecido, teria que passar pelo julgamento da palavra. A proposta foucaultiana da sexualidade, como objeto histórico, romperia com uma abordagem segundo a qual as várias formas de experiência do sexual, ao longo do tempo. Isto é, a sexualidade não precisaria mais do discurso das instituições para ser validada.

Sexo é um tabu, sabemos. Mas o que também já descobrimos é que falar sobre ele é necessário – até porque, para naturalizar tudo o que ele envolve em sociedade, temos que externalizar nossas dúvidas, desejos, fantasias. Por razões culturais o sexo até há algum tempo era visto somente como algo ligado a reprodução: o prazer era reprimido, por ser considerado pecaminoso ou moralmente condenável. A marginalização da sexualidade tem raízes firmadas na história. De tal modo, um novo entendimento sobre as mudanças sociais se mostra necessário porque as contribuições femininas e os direitos femininos têm sido um tema central nos papéis sociais, econômicos e políticos mundialmente. Mulheres são educadas por mulheres, numa sociedade onde a virilidade e o prestígio do macho estão longe de serem apagados. As mulheres são educadas para agirem como filhas e mães sem passar pelo estágio de mulher, uma vez que o campo religioso, especialmente católico, ao longo dos anos, construiu representações desiguais entre o feminino e o masculino, através de seu mito de criação, com a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Esta simbologia retratada no Velho Testamento foi, e muitas vezes ainda o é, usada para designar papéis e posições de gênero, assim como para criar representações femininas. A Eva pecadora e a Virgem Maria assexuada, imagem dupla feminina como que desde sempre acompanhando a história corporal das mulheres.

Hoje em dia, muito se fala em empoderamento feminino como parte da luta por direitos iguais. Mas será que as mulheres estão empoderadas de seu prazer? É necessário desconstruir os pensamentos a respeito deste tema.

Listei 5 séries com personagens incríveis, mulheres que vão em busca de seu prazer sem medo de serem julgadas:

Sex and the City, HBO (1998 – 2003)

Sex and the City, (1998) – Foto: Reprodução/IMDb

Baseada no livro homônimo da escritora Candice Bushnell, “Sex and the City” mostra a agitada vida de quatro belas mulheres solteiras e bem sucedidas de Nova York. Enquanto procuram pelo seu “Sr. Certinho”, quatro amigas se divertem pelos clubes da cidade, compartilham ousadas conversas sobre sexo e comentam as últimas novidades da moda. A série focaliza na história de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) e suas três melhores amigas. Com o decorrer das temporadas, a escritora Carrie, que também narra os episódios, tenta ter vários relacionamentos sérios, mas parece sempre ficar presa ao “Sr. Big” (Chris Noth) em um relação complexa e irresistível para os dois. Por outro lado, enquanto Samantha (Kim Cattrall), a mais velha das amigas, é a mais confiante de sua própria sexualidade e a mais extrovertida, Charlotte (Kristin Davis) é a mais conservadora e otimista do grupo, sempre em busca de um amor romântico. Enfim, acompanhamos Miranda (Cynthia Nixon), uma advogada extremamente cínica nos seus pontos de vista, principalmente quando se trata de homens. Essa mistura de personalidades em uma trama divertida e ousada, que traz uma boa dose de humor, drama e romance, é o que fez “Sex and the City” ser uma das séries mais aclamadas pelo público e pela crítica, tendo recebido diversos prêmios e nomeações, incluindo mais de 50 indicações ao Emmy, e ganhado 7 deles, além de 24 indicações ao Globo de Ouro, dos quais levaram  8 estatuetas, durante suas seis temporadas.

Girls, HBO (2012 – 2017)

Girls, 2012 – Foto: Reprodução/Divulgação.

Girls é uma série de TV norte-americana transmitida originalmente pelo canal HBO. A história é ambientada em Nova York e lança um olhar cômico sobre as humilhações e raros triunfos de um grupo de garotas com 20 e poucos anos. A série é centrada em Hannah (Lena Dunham), uma jovem escritora que trabalha em uma editora no SoHo, e suas amigas Jessa (Jemima Kirke), uma professora e aspirante a artista, Marnie (Allison Williams), uma assistente de relações públicas que quer trabalhar com questões ambientais e Shoshanna (Zosia Mamet), uma estudante de Marketing. Lena Dunham não teve problemas em aparecer nua logo nos primeiros episódios. A criadora da série exibe seios, barriga, bumbum, celulite e pelos pubianos sem pudor. É comum ver em Girls cenas dela nua em seu cotidiano, tomando banho ou se trocando. Ao mostrar seu corpo gordinho, Lena se coloca como representante de um movimento que há anos luta contra a hipersexualização da mulher e a representação de padrões de beleza na mídia. As críticas em relação à nudez excessiva foram muitas mas a ousadia de Lena de se mostrar como uma mulher imperfeita colabora para a diversidade na TV. Em Girls, as protagonistas não transam apenas porque estão apaixonadas, e nem apenas com seus parceiros. Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna já fizeram sexo por desejo, por curiosidade, por frustração, por interesse ou simplesmente porque não tinham nada melhor para fazer. Girls também foi inovadora nesse ponto: o sexo quase explícito, com discussões sobre IST’s e genitália, também era inédito para personagens jovens que ainda estão descobrindo sua sexualidade, nem sempre de forma prazerosa.

No Brasil, a série foi transmitida pelo canal HBO e pelo streaming HBO GO.

Masters of Sex, HBO (2013 – 2016)

Masters of Sex, 2013 – Foto: Reprodução/Divulgação.

Masters of Sex é uma série adaptada da obra de Thomas Mailer, intitulada “Masters of Sex: The Life and Times of William Masters and Virginia Johnson, The Couple Who Taught America How to Love”, de 2010. A atração narra as vidas, romances e trajetórias pouco usuais de William Masters (Michael Sheen) e Virginia Johnson (Lizzy Caplan), cientistas pioneiros no estudo da sexualidade humana. Por mais que esteja estudando o prazer, William não tem a menor ligação com ele. De uma forma velada, o roteiro se adianta em mostrar que o sexo não é fluído na vida do médico. Até mesmo para fins de reprodução, ele não funciona bem na vida do mesmo. Casado, William enfrenta uma série de problemas de fertilidade. Virginia é sua antítese. Indo de encontro a toda repressão que a rondava, ela vivia o sexo plenamente, entendendo e buscando a satisfação do próprio corpo. Isso se refletia no seu sucesso social, na sua postura perante o mundo, mais livre, mais relaxada. William logo se fascina pela evidência de que sucesso e competência não precisam estar atrelados a um comportamento severo. Virginia se torna indispensável e começa a contribuir ativamente para o estudo. Dr. Masters segue num processo de descoberta pessoal ao mesmo tempo em que desbrava os tabus do sexo. Virgínia acaba funcionando para ele como um exemplo vivo das muitas respostas que podem ser encontradas no corpo e na alma de uma mulher. É fascinante notar como o estudo acaba funcionando como um tratado de permissão para o prazer feminino, uma renúncia à centralização do macho e, virando por isso mesmo, uma obra maldita, que faz com que a série seja ainda mais estimulante.

Chewing Gum, Netflix (2015 – 2016)

Chewing Gum, 2015 – Foto: Reprodução/Divulgação.

A série acompanha a vida de Tracey Gordon (Michaela Coel), uma jovem criada por uma família religiosa que decide perder a virgindade aos 24 anos de idade. O problema é que ela não faz ideia de como fazer isso, pedindo conselhos para sua melhor amiga, Candice (Danielle Isaie). Tracey desafia sua repressora educação protestante por vias insólitas e ela reza para perder a virgindade, a princípio com seu noivo, frio e indiferente como um mármore que respira. Ele é um coquetel de mau gosto que mistura sexismo, homossexualidade e certa dose de colonialismo para tentar amargar sua vida. Mas ela é muito mais nobre do que sua performance avacalhada possa sugerir. Ela o apoia em sua orientação sexual. E sua busca por amor e sexo continua. Assim, ela vai bater na porta de um relacionamento inter-racial e dá de cara com um white loser que do alto de sua branquitude lança mão de fantasmas racistas para acertar seu coração, buscando capturá-la com sua suposta superioridade racial. Mas ainda assim a Tracey sai por cima, mostrando o quão falhos são os truques que ele traz na cartola.

Fleabag, BBC (2016 – 2019)

Fleabag, 2016 – Foto: Reprodução/IMDb

Fleabag ganhou o Emmy 2019 de Melhor Série de Comédia e Phoebe Waller-Bridge como Melhor Atriz em uma Série de Comédia. Além dela, estão no elenco Olivia Colman, Andrew Scott, Sian Clifford e Brett Gelman. 

Fleabag é um mergulho na mente fervilhante de uma mulher inteligente, sexual, inquieta e devastada pelo luto, em seu dia a dia na vida moderna de Londres. Uma mulher autêntica que tenta retomar sua vida, enquanto rejeita a ajuda de qualquer um que tente se manter ao seu lado durante a sua crise. Solteira, com 30 e poucos anos, Fleabag é uma mulher solitária. Logo no começo, vemos cenas dela com seu namorado e já conseguimos entender que ela não é boa para se relacionar. Os homens até gostam dela, mas acabam irritados com a sua personalidade. Parece que muito acontece na cabeça da personagem, mas nada é exteriorizado, ficando tudo abrigado em seu cérebro, em pensamentos acelerados e que não permitem a demonstração de sentimentos. E não é só em relacionamentos afetivos e sexuais que isso acontece, mas também com a família. Na série, a protagonista precisa lidar com seu pai e sua madrasta, sua irmã e seu cunhado. A sua irmã, Claire (Sian Clifford), é uma das pessoas que sentem mais dificuldades em lidar com a personalidade da Fleabag, mas que claramente nem pensa em desistir disso. Como um bom drama, a relação entre as duas é de cumplicidade e proteção, mesmo que não seja dito em palavras e quase nunca em atitudes. Mas um dos maiores dramas da série é a relação de Fleabag, sua melhor amiga e um porquinho da índia. Essa ligação é mostrada ao longo das duas temporadas, com flashbacks do passado que justificam os acontecimentos do presente e as atitudes da protagonista. Se existisse na vida real, Fleabag seria uma inacreditável ser possível existir. Intensa, impulsiva, absurdamente irônica e misteriosa. Essa seria a definição perfeita para a personagem.