“Do Meu Coração Nu”: A virtuosidade e sensibilidade sonora-social de Zé Manoel

Capa do álbum “Do Meu Coração Nu”, o terceiro de inéditas do artista Zé Manoel. Foto: Divulgação

Não me lembro exatamente a primeira vez que ouvi o trabalho de Zé Manoel. Tenho uma vaga lembrança de, há uns bons anos atrás, assistir a algum vídeo no YouTube no qual ele cantava ao piano, mas por algum motivo que eu mesmo desconheço (e se lembrasse agora me arrependeria), não cheguei a mergulhar mais no trabalho dele. Porém esse tardio (re)encontro com a obra do compositor e pianista se deu semana passada, quando despretensiosamente busquei por seu mais novo álbum “Do meu coração nu”, lançado no dia 26  de outubro pelo selo “Joia Moderna”. Desde então (inclusive enquanto escrevo esse texto) não canso de ouvi-lo.

Falo encontro tardio pois Zé Manoel, originário de Petrolina-PE,  já desenvolve há um bom tempo um trabalho artístico que conta com 4 álbuns de estúdio e 2 gravados ao vivo. Destes, o mais recente álbum é o terceiro com inéditas, os anteriores são “Canção e Silêncio” (2015) e “Zé Manoel” (2012). Ambos os álbuns são belíssimos e já deixam visível a sensibilidade sonora, o virtuosismo delicado e as notas precisas – das músicas mais lentas às mais movimentadas pelo samba e jazz na MPB –  de Zé Manoel. Contudo, há algo especial em “Do Meu Coração Nu”. 

Na verdade, não é somente um fator. Acredito que há muitos motivos que fazem deste mais recente disco uma obra que dá vontade de ouvir do começo ao fim, e de novo, e de novo. 

O Álbum

Para além das diversas funções que a filosofia, a psicologia e a crítica possam dar para arte, uma que pessoalmente me parece bastante importante é a função da arte de sensibilizar o indivíduo. Sem dúvidas esse já é um papel que o conjunto da obra do pianista cumpre. Mas, nesse álbum, toma uma proporção ainda maior. 

A música que abre o álbum, “História Antiga”, lançada como single em Junho, já dá uma ideia da proporção de toda a sensibilidade que a música não somente é, mas também suscita em quem a ouve. A canção remete a momentos em que o povo negro, devido ao preconceito institucionalizado e a políticas ultrapassadas, tem vidas usurpadas . Em certo momento a letra lembra o homicídio cometido por agentes do exército brasileiro contra Evaldo Rosa e Luciano Macedo, mortos após ação que terminou com o disparo de mais de oitenta tiros dos agentes contra o carro de Evaldo Rosa. 

Em certo trecho da faixa Zé Manoel canta “Fecho os olhos e me lembro de uma história que me dá vontade de chorar” e, deixando também o meu coração nu nesse texto, essa música também me deu vontade de chorar. Toda essa potência emocional é explorada de uma forma artisticamente bela, por mais triste que seja o tema abordado.

O preconceito racial também é posto em reflexão a partir da declamação dos versos da poeta Bell Puã e da faixa subsequente, “Pra Iluminar o Rolê”. A canção é um jazz leve e contemporâneo tanto pelo vocabulário quanto pela adição de sintetizadores e de arranjos minuciosos na guitarra.

A sonoridade leve também é representada pela faixa “Não Negue Ternura”, uma canção delicada e que conta com a brilhante participação de Luedji Luna. Vale destacar que a artista também lançou em outubro seu mais novo álbum de inéditas, “Bom mesmo é estar debaixo d’água”. Além dela, o álbum ainda conta com a participação da cantora Gabriela Riley na música “Wake my Divine” e do grupo Bongar, que aproxima ainda mais a obra da temática e sonoridade afro brasileiras na segunda canção do disco, “No Rio das Lembranças”. 

É, inclusive, sobre a influência da cultura afro brasileira na música interpretada como “essencialmente brasileira” a que se refere o trecho do interessante depoimento do arranjador e compositor brasileiro, Letieres Leite, também responsável por arranjos e metais do álbum de Zé Manoel. No trecho Letieres afirma “Toda música brasileira é afro brasileira” e um grandioso exemplo dessa afirmação é o próprio “Do meu coração nu”. Esse depoimento de Lutieres também funciona como uma introdução a “Adupé Obaluaê”, música que soa a mais visivelmente influenciada não só pela sonoridade da cultura originariamente afro brasileira, mas também pela cultura religiosa de origem africana. Vale ressaltar nessa música o teclado mais ritmado do álbum.

Outro depoimento importante tanto pelo conteúdo quanto para a compreensão das narrativas do álbum é o trecho retirado do documentário “O Negro da Senzala ao Soul”, no qual a historiadora e ativista do movimento negro, Beatriz Nascimento, reitera o quanto a história do povo negro é negligenciada e contada a partir do ponto de vista do povo branco. A partir desse depoimento, Zé Manoel traz a música “Notre Histoire”, uma canção em francês que reitera a importância de se contar essa história omitida. Contudo, o próprio álbum pode ser observado enquanto uma forma musical de narrar, tanto no que lhe é de mais ancestral quanto o que lhe é contemporâneo.

O álbum ainda conta com a música “Canto pra Subir”, uma canção romântica sobre o fim de um relacionamento, mas com um ar de aceitação e de percepção de que o término é a melhor opção no momento. Assim, apesar de ser sobre o fim, não é imbuída de um clima triste como “Canção e Silêncio”, do álbum homônimo de 2015, e “Acabou-se assim”, do primeiro álbum de Zé Manoel. Duas belas músicas que abordam o mesmo tema, mas sob uma perspectiva diferente.

Para além das questões que envolvem cada música, outro importante fator para o caráter especial do álbum foi o contexto social. Além da pandemia, 2020 foi o ano de discussões e reflexões mundiais suscitadas com o movimento Vidas Negras Importam (ou Black Lives Matters), que chamou a atenção para o preconceito social e institucional que incidiu não somente sobre George Floyd, mas que afeta toda uma população negra das periferias brasileiras e mundiais, que nem sempre têm disponível a gravação e midiatização do que acontece à surdina.

Contudo, através “do coração nu de Zé Manoel”, percebemos intensos e profundos sentimentos que atingem o povo negro e também a sociedade como um todo, especialmente a brasileira. Isso porque expõe sonora e poeticamente não somente aquilo que é belo e leve e rico na cultura afro brasileira e negra, mas também aquilo que entristece, que “dá vontade de chorar” e que expõe o preconceito no meio social e nas instituições governamentais.

Por isso, à você que eventualmente lê esse texto agora, um conselho: não deixem passar a oportunidade de mergulhar na obra de Zé Manoel como me aconteceu há uns anos atrás. Principalmente agora com esse novo álbum. O que ele tem para passar é belo, é emocionante, e é necessário.

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