I May Destroy You e a importância de falar sobre violência sexual


Pôster da série I May Destroy You. Foto: Reprodução/Divulgação.

Cerca de 120 milhões de meninas em todo o mundo − mais de uma de cada dez − sofreu violência sexual ao longo de sua vida, segundo dados do Unicef. Em nível mundial, uma de cada 14 sofreu algum tipo de agressão sexual − abusos com ou sem penetração, por exemplo − por parte de alguém que não é seu parceiro, como aponta um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o maior relatório global feito até agora. É um número assustador de casos que no entanto, segundo especialistas, não mostram a radiografia real do que elas consideram uma epidemia silenciosa.

Os abusos sexuais são, de tal modo, uma epidemia silenciosa com um alto custo social. Quem os sofre costuma se calar pela culpa, pelo estigma e pelo medo. Algumas mulheres começam a falar sobre a violência sofrida denunciando o agressor. Todas as mulheres têm uma história sobre abuso sexual para contar. Enquanto você está lendo isso, em algum lugar, uma mulher está sendo violentada.

Lembro-me de uma vez, em uma manhã de setembro, eu mudar a rota do meu destino. Todos os dias eu e minha colega íamos juntas à faculdade. Eu esperava o primeiro ônibus. Eram dois. Depois a encontrava para pegarmos o segundo e seguirmos para a (ex) Universidade Federal Rural de Pernambuco, hoje, Universidade Federal do Agreste de Pernambuco. Mas, por algum motivo do qual não me recordo, eu desci no ponto de ônibus errado, e então tive que caminhar mais alguns quarteirões para ir de encontro à colega. Por vezes me culpei. “Eu não deveria ter descido três pontos antes do qual meu segundo ônibus passaria”. Era por volta das 7h30 da manhã. Em uma cidade do interior, não era comum ter pessoas transitando pela rua tão cedo, exceto as que levariam seus filhos à escola, ou sairiam para trabalhar. Por isso eu me sentia segura. No entanto, aquele foi um dia estranho. Como de costume, caminhei até chegar a parada de ônibus para que pudesse ir para a universidade, eis que um estranho aproximou-se. Me assustei por achar que seria assaltada, (infelizmente, nesta sociedade capitalista onde nem todos têm a mesma oportunidade, essas coisas acontecem) ser roubada seria a melhor das hipóteses naquele momento. Mas não foi o que aconteceu. Esse desconhecido se achou no direito de tocar o meu corpo e me dizer palavras esdrúxulas. Além de exercer seu privilégio de “poder” físico (um homem, três vezes maior que eu), o que me deixou muito chateada. Não reagi, não tive forças. Apenas chorei de vergonha e frustração por ter minha liberdade invadida daquele jeito. 

Sim, caro leitor. Você pode achar que não foi “tão grave” quanto poderia ser, não obstante, a situação infracional mencionada é um exemplo da elevada quantidade de abusos sexuais a que muitas mulheres são submetidas, todos os dias, em nosso país.

No mais, o artigo 215 do Código Penal prevê o delito de violação sexual mediante fraude, com a seguinte redação: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima: Pena – reclusão, de 02 a 06 anos”.

O abuso sexual deixa sequelas na vida das vítimas difíceis de serem apagadas.

Eu não poderia deixar de citar um dos casos mais impactantes dessa semana, em que houve a divulgação da audiência do processo criminal destinado a apurar o estupro da digital influencer Mariana Ferrer, ocorrido em 2018. A promotoria, que se manifestou pela absolvição do estuprador André Camargo Aranha, alegou a tese de “estupro culposo”, inexistente no Código Penal.

Mariana foi humilhada, desacreditada, desvalorizada e, novamente, agredida na audiência. Há muitas “marianas” espalhadas pelo nosso país. Em uma sociedade machista, a violência contra a mulher é estrutural e estruturante. Esse caso expõe a nossa sociedade e a necessidade de se definir o que é estratégia de defesa e o que é ataque às vítimas, sua privacidade e intimidade devem ser preservados.

Baixando a timeline do twitter, me deparei com a capa da série “I May Destroy You”, exibida no Brasil pela HBO. A imagem e o título me chamaram atenção e comecei a assistir. Antes mesmo de qualquer detalhe técnico da produção ou até mesmo de falar da capacidade quase única de Michaela Coel, autora de Chewing Gum, em cena e no roteiro, a definição da série, para mim, só pode ser possível pensando além do simples ato de assisti-la. Baseia-se livremente em fato que aconteceu com a autora/atriz. 

A história se passa em Londres, onde a escritora Arabella Essiedu (Michaela Coel) precisa entregar seu novo livro para uma editora hype que está alavancando sua carreira. Arabella, que sai para beber com os amigos, é drogada e sofre estupro. Acorda no dia seguinte com flashes do ocorrido e precisa, a partir de então, lidar com o fato, além de descobrir quem a abusou. Dessa forma, ela passa a questionar o que aconteceu de fato e muito da história se desenrola a partir de perguntas e descobertas.

O interessante de pensar na obra é justamente perceber os detalhes de como certas questões são abordadas em tela. Dito isto, fica o aviso para os leitores desta coluna: aspectos importantes da obra de Coel serão expostos a seguir.

A noite de bebedeira desencadeia os futuros traumas que se apresentarão na vida de Arabella. Durante a saída com os amigos, a jovem escritora é abusada sexualmente quando fica inconsciente por conta de uma droga desconhecida na bebida e o tema só é revelado ao espectador enquanto a própria protagonista vai relembrando os momentos obscuros vividos por ela. Arabella não lembra de nada e seu desconforto causam também uma inquietação constante a quem assiste os episódios. 

A forma como Arabella lida com os traumas e o que tenta recordar geram alguns dos pontos altos dos episódios. Foto: Reprodução.

A história é baseada no abuso sexual que a própria Michaela sofreu em 2016 quando fez uma pausa no trabalho para se encontrar com um amigo em um bar. Nesta noite, ela foi agredida sexualmente por dois homens e se viu voltando à consciência no escritório de produção da Fremantle Media, onde trabalhava, com o celular quebrado. Nas 24 horas seguintes, ela lentamente começou a entender que a imagem do homem que aparecia em sua cabeça não era ilusão ou loucura, mas uma vivência da noite anterior.

Michaela tratou de deixar no olhar a falta de conhecimento sobre o trauma, a angústia provocada pela mistura de saber e não-saber. Como criadora e roteirista, aborda a questão dramática, vivenciada até mesmo no âmbito pessoal e que já relatou anteriormente, mas deixa a marca da ironia tratando o assunto de uma forma diferente sem perder a carga que o mesmo requer. 

Mesmo que o tema central da série já seja denso por si só, ele não é o único a preencher o total de 12 episódios, cada um com 30 minutos de duração. Outros assuntos como o machismo, o racismo, veganismo e a intolerância latente dos dias de hoje estão lá nas falas e vivências dos demais personagens da história. 

Diferentes formas de abuso em distintos relacionamentos estão em cenas como a que, em uma relação sexual, o homem que Arabella está transando tira o preservativo sem que ela saiba. Ou quando o amigo dela marca um encontro por aplicativo com outro homem, mas se recusa a ter relações com ele, que termina por cometer estupro, também são abordados.

Para mim, encontrar conteúdos como este tem sido importante nos últimos tempos. É gigante a notoriedade dessa discussão levantada em todas as suas nuances, em um tema que ainda não conseguimos evoluir como sociedade. Hoje entendemos melhor sobre essas agressões. Antes, nós apenas ignorávamos. Nós mulheres, agora, temos a voz para gritar e apontar para o que sofremos. Estamos diante da mudança, elevando o tom da conversa e assegurando nossos corpos. Depois de uma semana triste vivida no Brasil pela forma como o Estado e a Justiça falharam com Mari Ferrer, vítima de estupros sucessivos, fica clara a necessidade e a urgência de séries como “I May Destroy You”. Michaela Coel se abre para mostrar os próprios traumas ao passo em que propõe refletir sobre algo real, sobre a vida que cerca nossa tal modernidade e as relações de então.

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