De Charlotte Brontë a Jean Rhys: O que fazer com os clássicos?


Na foto, Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre e Jean Rhys, autora de “Vasto mar de sargaços”. Foto: Divulgação.

Começo com uma breve definição, a partir da ideia de Italo Calvino, do que são os clássicos: obras antigas ou modernas que têm “lugar próprio numa continuidade cultural”, e se consolidaram no imaginário individual ou coletivo. Contudo, clássicos não são somente os livros com os quais nos associamos de maneira particular ou comunitária, e sim, para Calvino, a literatura que permanece a ressoar na contemporaneidade mais complexa: “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer”. Porém, não raro esbarramos em narrativas canônicas absolutamente controversas que, atualmente, nos são desconcertantes – “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë, é uma delas. 

Publicada em 1847, a obra-prima de Brontë, uma das mais importantes da literatura inglesa, é um romance de formação que conta a história de sua protagonista, Jane Eyre, desde a infância até a fase adulta. O plot já nos é deveras conhecido: a mocinha, que trabalha como predecessora em uma casa grandiosa e, portanto, opressora, apaixona-se pelo patrão misterioso e problemático, décadas mais velho e, claro, mais rico. É possível achar diversos enredos semelhantes, sem dúvidas, o livro transformou-se em um paradigma literário, influenciando diversos trabalhos posteriores, tais quais, “Rebecca” de Daphne du Maurier e, em terra brasileiras, “A Intrusa” de Júlia Lopes de Almeida. Entretanto, a maior engenhosidade da trama está, sobretudo, no segredo do patrão de Jane, Edward Rochester, que não é apenas um boêmio amargurado ou um viúvo triste: no terceiro andar de sua propriedade, Thornfield Hall, ele esconde sua esposa Bertha Mason, uma mulher jamaicana que é, supostamente, lunática e violenta. 

Em consequência, não é sem um certo desconforto que lemos a frase inicial do último capítulo do romance, talvez quase tão conhecida quanto a abertura de “Orgulho e Preconceito”: “Leitor, eu me casei com ele”. Evidentemente, ainda estamos falando de um livro vitoriano e, logo, era preciso que Bertha, o empecilho moral e legal à felicidade dos dois, saísse, por completo, de cena. É assim que, de modo oportuno, algum tempo depois de Jane abandonar Thornfield Hall em busca de uma vida mais apropriada, longe de seu patrão e noivo, a primeira esposa de Mr. Rochester incendeia a casa inteira e suicida-se em seguida, pulando da sacada. Em suma, depois do acidente, Jane Eyre reencontra Edward cego e sem uma das mãos, absolutamente deprimido, embora, finalmente, viúvo. Em tal caso, a despeito das inseguranças de Rochester, que sente-se um “velho inválido”, de pronto, Jane decide casar-se com ele e, assim o faz, para a decepção de seus leitores mais progressistas.

Antoinette, Bertha ou Jane?

A escritora caribenha Jean Rhys, nascida e criada em Dominica, também ficou insatisfeita com o final de Jane Eyre, especialmente com o desfecho de uma de suas personagens mais fundamentais, conquanto sem fala e, por pouco, sem passado – no romance de Charlotte Brontë, tudo que sabemos sobre Bertha é através de perspectivas alheias e, consequentemente, duvidosas. À vista disso, não surpreende que ela seja um retrato autêntico do que significava ser um sujeito “crioulo” na Europa oitocentista, uma abominação irracional, quase inumana — quando Mr. Rochester tenta casar-se com Jane pela primeira vez e tem seu segredo, finalmente, desmascarado na cerimônia, ele diz: “Bertha Mason é louca. Vem de uma família de loucos. Idiotas e maníacos atravessam três gerações! Sua mãe, uma mestiça, era não só louca como bêbada, (…) Bertha, como uma boa filha, reproduziu a mãe em ambos os aspectos”. Em seguida, quando leva o sacerdote, a noiva e o irmão de Bertha, até o seu cárcere, é assim que apresenta a mulher: “Isto aqui é a minha esposa”. Ora, Jean Rhys, que só mudou-se para a Inglaterra aos 16 anos, era birracial e, assim, sua revolta quanto ao destino de Mason não foi à toa. 

Em 1966, Rhys escreveu, numa carta endereçada a Diana Athill, que em “Jane Eyre” “só há um lado, o inglês”. Portanto, no mesmo ano, publicou o seu mais célebre romance, “Vasto mar de sargaços”, uma refutação pós-colonial do livro de Brontë. A narrativa é dividida em três partes: na primeira, Bertha relata os acontecimentos iniciais de sua vida na Jamaica; na segunda, acompanhamos a personagem recém-casada em Dominica, segundo a própria, bem como, conforme o olhar de Mr. Rochester; na terceira, já na Inglaterra, Grace Poole, sua cuidadora em Thornfield Hall, toma a narração por algumas poucas páginas e, em seguida, a protagonista conclui o romance. Isto posto, é seguro afirmar que o trabalho de Jean Rhys é multifacetado e quase tão plural em perspectivas quanto possível — provavelmente o maior mérito da autora que, tal qual o fez Charlotte, poderia ater-se somente à ótica caribenha dos acontecimentos, mas arriscou-se a procriar um inglês sem nome, pressupostamente Edward Rochester, também narrador. 

Bertha Mason que, inicialmente, chamava-se Antoinette Cosway, passa a infância, com a mãe e o irmão, na Fazenda Coulibri de seu falecido pai, um proprietário de escravos, que depois da abolição da escravatura, cai em decadência financeira e social. Chamados de “baratas brancas” pela população majoritariamente negra do local, a família Cosway é odiada por todos e, sua branquitude paradoxal em nada impõe respeito na comunidade em que vivem — “Tinha muita gente branca na Jamaica. Gente branca de verdade, que tinha muito ouro. (…) Gente branca de antigamente não passava de negro branco agora e, negro preto era melhor que negro branco”. 

Sua mãe, no desespero da falência, casa-se com o Sr. Mason, um inglês abastado e, como muitos, à procura de aumentar seu patrimônio nas Índias Ocidentais. Contudo, pouco tempo depois, os negros queimam a fazenda e, às pressas, Antoinette e sua família mudam-se para Spanish Town, onde ela crescerá em um convento, enquanto a mãe enlouquece por causa da perda do filho, morto no incêndio. O momento da fuga é um dos mais interessantes de todo o livro, em particular, quando Bertha decide permanecer em Coulibri com sua amiga, filha de uma ex-escrava. Diante da menina, pensa: “Vou morar com Tia e ser igual a ela”. Ao que Tia responde atirando-lhe uma pedra na cabeça. Bertha, então finaliza: “Olhei para ela e vi seu rosto contorcer-se quando ela começou a chorar. Olhamos uma para  a outra, sangue no meu rosto, lágrimas no dela. Era como se eu estivesse vendo a mim mesma. Como num espelho”. Esta passagem é essencial para entender a confusão cultural em que se encontrava a protagonista, o tempo inteiro rejeitada pelos brancos e pelos negros — não há pertencimento possível para Antoinette/Bertha.

Não por acaso, Rochester sente-se enganado ao casar-se com ela. Persuadido pelo pai à unir-se a uma moça jamaicana por causa de seu dote substancial, a despeito do dinheiro, como uma figura colonizadora e patriarcal, ele não aceita o fato de que sua esposa é mestiça. Em uma da primeiras descrições que faz dela, diz: “Olhos oblíquos, tristes, escuros e estrangeiros. Ela pode ser crioula de descendência inglesa, mas eles não são ingleses nem europeus”. E, mais tarde, quando conta como convenceu Bertha a casar-se com ele, que conserva dúvidas acerca de seu caráter: “Não me agradava voltar para a Inglaterra no papel de pretendente rejeitado por essa rapariga crioula”. 

Quanto à esse deslocamento e rejeição, a própria Antoinette diz, ao ouvir uma das empregadas referindo-se a ela como “barata branca”: “É assim que eles chamam a todos nós que estávamos aqui antes do povo deles vendê-los para os mercadores de escravos. E eu ouvi mulheres inglesas nos chamarem de negros brancos. Então muitas vezes me perguntei quem eu sou e onde é o meu país e a que lugar eu pertenço e por que eu nasci”. Ademais, em Dominica, lugar onde moram depois do casamento, Rochester não tem a mesma autoridade que tinha na Inglaterra ou mesmo na Jamaica. Isso fica explícito diversas vezes ao longo do romance, na maneira pouco servil dos empregados negros em tratá-lo, sobretudo, Christophine, a aia que criou Antoinette. Em dada ocasião, já posterior às desavenças irreversíveis entre o casal, ela o confronta sem qualquer hesitação: “Ela ama o senhor e deu tudo o que tinha para o senhor. Agora o senhor diz que não a ama e acaba com ela. O que vai fazer com o dinheiro dela, hein?(…) O senhor está fazendo isso por dinheiro? Então o senhor é tão ruim quanto o Satanás!”

Após ouvir falar sobre os problemas mentais da mãe de sua esposa, Edward passa a abominar os detalhes mais, aparentemente, insignificantes de sua mulher e, um dos recursos que usa para estabelecer seu poder sobre ela é renomeá-la: “‘Boa noite, Bertha.’ Ele não me chama mais de Antoinette. Descobriu que esse era o nome da minha mãe. ‘Espero que você durma bem, Bertha.’”. Rochester, sempre que questionado sobre isso, responde apenas que pensa nela como Bertha, nome que ele gosta, mas a personagem chega a conclusão de que a decisão é simbólica: “O meu nome não é Bertha. Você está tentando transformar-me em outra pessoa, chamando-me por outro nome”. 

Deste modo, tudo que é de Antoinette e das Índias Ocidentais torna-se, para ele, uma angústia insuportável. De volta à Jane Eyre, Rochester conta que, uma noite, à beira do suicídio, sente uma vontade inelutável de voltar à Inglaterra: “A doce brisa da Europa ainda está sussurrando na folhagem, e o Atlântico marulha em gloriosa liberdade; meu coração, por longo tempo constrangido e dilacerado, acelera a pulsação e enche-se de sangue vivo; meu ser sonha com a renovação,(…) ‘Vai’, dizia a Esperança, ‘vai e vive novamente na Europa’”. Essa Europa, no entanto, não tem o mesmo significado de libertação para Antoinette que, a propósito, desconfia que a Inglaterra da qual os colonos falam não é sequer real. Mas, uma vez em Thornfield Hall, ela tem certeza de que está perdida em algum outro lugar que não na nação imponente do marido: “Eles me dizem que eu estou na Inglaterra, mas eu não acredito neles”. Como podem as paredes terríveis de seu sótão serem parte da “esperança” e do progresso de todo um continente?

Assim, como o próprio Mr. Rochester afirma no livro de Brontë, depois que encarcera sua Bertha, procura somente por “antípodas da crioula” – o que imagina encontrar em Jane. Contudo, de acordo com Sandra Gilbert e Susan Gubar, na tese “The Mad Woman In The Attic”, Bertha age, muitas vezes, como Jane Eyre e vice-versa: “Na sombra espessa, na extremidade mais distante do quarto, um vulto ia e vinha. O que era, se um ser humano ou um fera, ninguém o poderia dizer ao primeiro olhar: caminhava de gatinhas, saltava e grunhia como um animal selvagem. Mas estava vestido”. Anteriormente, Jane diz sobre si mesma: “Quem quiser que me censure à vontade por mais esta declaração; às vezes, enquanto Adèle brincava com a ama e a senhora Fairfax fazia geleias na despensa, eu vagava nos campos, (…) a inquietação estava em mim e não raro me arrastava ao sofrimento.” Afinal, ambas são personagens aflitas, que, similarmente, recusam-se a submeter-se à autoridade patriarcal de Rochester — ao descobrir o segredo de Thornfield, mesmo diante do desespero do noivo, que a acusa de irracionalidade, tal qual fez à primeira esposa, Jane deixa a casa com intenção definitiva, resolução, à princípio, tão concreta quanto o suicídio emancipatório de Bertha. Aliás, as semelhanças entre as duas não terminam por aqui, são consideravelmente numerosas. E, no romance de Rhys, sem a presença de Jane, a personagem ainda se faz bastante presente em Antoinette: pois, seria Bertha Mason uma outra face de Jane Eyre?

Por que ler Jane Eyre?

“Vasto mar de sargaços” é um livro completo em si mesmo. Apesar de seu caráter pouco explicativo, acredito que nenhum leitor estaria, precisamente, obrigado a ler a obra de Brontë para aventurar-se na de Rhys. Não obstante é insensato negar a relevância de “Jane Eyre” para uma melhor compreensão do outro, já que são, com efeito, tão correlatos: de maneira alguma, entretanto, significa dizer que “Jane Eyre” serve apenas como complemento para a leitura de “Vasto Mar de Sargaços”, o que seria afirmar que Jean Rhys superou, em enredo e estilo, o clássico de Charlotte Brontë. Em uma carta de 1964, escrita para um amigo, a autora declara sua admiração pela “genialidade” das três irmãs Brontë, já que, embora “chocada com o retrato da lunática que ela (Charlotte) traça, as cenas crioulas erradas, e sobretudo a crueldade real de Mr. Rochester”, a fluidez com que se lê “Jane Eyre” é inegável. Essa qualidade, presente em todos os trabalhos de Charlotte Brontë, não dá-se unicamente pelos seus plots envolventes, mas, principalmente, em virtude de sua escrita, absolutamente límpida e, ao mesmo tempo, lírica. “Jane Eyre” não é somente um livro excitante, é, também, bonito e revolucionário apesar de tudo. 

Antes de qualquer conclusão, é preciso levar em conta que Charlotte Brontë escreveu seu romance em uma dupla escuridão. Seu pai, o reverendo Patrick Brontë, havia, recentemente, feito uma operação de catarata nos dois olhos e precisava ficar no escuro para recuperar-se. Charlotte aguentou a vigília com ele e, ela mesma, sem ver quase nada, escreveu boa parte de “Jane Eyre”. O caso é que, presas às obrigações domésticas, as mulheres só podiam empunhar suas penas sorrateiramente, sem privacidade, sob a pressão desanimadora do anonimato. Sobre isso, em “Um teto todo seu”, Virginia Woolf procurou perceber se essa furtividade havia afetado, diretamente, a obra literária das mulheres oitocentistas: provavelmente, mas, decerto, a obscuridade da inexperiência foi ainda mais danosa. Charlotte, tal qual tantas outras autoras, saía de casa poucas vezes e, quando fora, o exterior lhe era muito mais limitado do que para seus colegas homens. Isto posto, faz imenso sentido que a imagem de Bertha, pessoalmente estranha à sua criadora, seja absolutamente estereotipada, pois que dependia unicamente de relatos alheios, esses repletos de mitos e preconceitos, em maioria, escritos a partir de uma mesma perspectiva eurocêntrica. 

Além disso, não se retira uma obra de sua época. O maior erro de um historiador, segundo Chartier, é “o esquecimento das diferenças dos tempos”. Creio que, do mesmo modo, esse seja erro comum aos leitores. Consumir uma literatura não escrita no século XXI, demanda, certamente, abstração histórica; ler Shakespeare, Homero, Victor Hugo, sem pensá-los em seu espaço/tempo, apesar do excedente valor literário de seus trabalhos, é uma atividade pouco satisfatória, porque, conforme Antonio Candido, “só podemos entender (a obra) fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra”. Quando primeiramente publicado, “Jane Eyre” foi avaliado como “imoral” e “pouco feminino”. A reputação espalhou-se muito rápido e, na terceira edição do livro, Charlotte, ainda sob o pseudônimo Currer Bell, precisou escrever um prefácio. Nele esclarece: “Refiro-me aos poucos tímidos ou desconfiados que suspeitam da tendência de livros como “Jane Eyre”, que veem tudo o que é incomum como errado e ouvem cada protesto contra o fanatismo como um insulto à religião. (…) Convencionalismo não é moralidade. Farisaísmo não é religião.” Hoje, o romance de Brontë pode, em alguns aspectos, parecer obsoleto, contudo, em sua época, foi subversivo e orientou vários textos feministas posteriores. Pois bem, acho que ainda não é necessário queimarmos nossos exemplares de “Jane Eyre”, visto que, conquanto um pouco socialmente atrasado, literariamente é ainda atualíssimo. E, todavia, seu contraponto, “Vasto mar de sargaços”, já é uma leitura quase tão obrigatória quanto o livro que o inspirou — uma solução adequada para “o perigo de uma única história”. Por conseguinte, concordo com Woolf: “As obras-primas não são frutos isolados e solitários; são o resultado de muitos anos de pensar em conjunto, de um pensar através do corpo das pessoas, do modo que a experiência da massa está por trás da voz isolada”.