A outra

A Outra (1988)

A outra

O diretor nova-iorquino possui mais de 50 filmes e uma carreira entre comédia e drama. Foto: Reprodução.

Woody Allen é um cineasta muito conhecido por suas comédias, porém, é por seus dramas que sempre quis ter reconhecimento. Como ele mesmo brinca “Me chamam de gênio da comédia. Eu diria que um gênio da comédia está para um gênio de verdade assim como o presidente de uma sociedade beneficente está para o presidente dos Estados Unidos”. Todo seu apreço pela profundidade faz com que acabe se decepcionando com seus próprios filmes dramáticos, gostando assim apenas de alguns poucos dos diversos filmes que realizou.

No entanto, contrariando o próprio Allen, creio que seus dramas de estilo europeu – muito inspirados em seu maior ídolo Bergman – sejam um dos pontos máximos de qualidade em sua vasta obra, tanto em profundidade quanto em estilo. Um desses dramas de grande poder é A Outra, lançado em 1988.

A Outra apresenta Marion, uma mulher de 50 anos aparentemente segura e satisfeita, tanto na vida pessoal quanto profissional. É casada com um cardiologista e desfruta de um respeitado cargo de reitora de uma faculdade feminina de filosofia. Sua vida parece ser sólida e sem surpresas, até que um dia, ao alugar um apartamento para escrever seu livro, ela ouve através das paredes uma paciente melancólica desabafando para seu psiquiatra.

Esse discurso carregado de angústia a atinge como um soco em seu ser. Allen filma o rosto dessa mulher, que parecia ser uma fortaleza, em primeiríssimo plano e expõe todo o impacto causado pelo discurso da desconhecida. Nunca vemos o outro lado da parede, é como se os sentimentos enterrados por toda uma vida fossem se infiltrando através de sua parede interior, assim como as palavras se infiltraram através da parede da realidade. A partir disso, ela começa a enxergar coisas da sua vida que sempre estiveram lá, sempre a encararam, embora os muros de sua razão imperativa nunca tenham a deixado enxergar. 

A profundeza do semblante de Marion. Foto: Reprodução.

Em seus cinquenta anos, Marion jamais escolheu algo que ameaçasse a solidez de sua vida. Tinha amor pela pintura, mas parou ainda jovem. Em vez de escolher qualquer coisa movida por seus sentimentos e instintos, sempre escolheu exercer a arte dos responsáveis. Passou toda a sua vida alimentando seu talento para o prosaico, alimentando esse pragmatismo necessário para uma vida de sucesso. As cenas em que Woody Allen filma Marion passando por corredores, nos expõe de uma forma sutil que ela está encurralada, presa entre paredes repletas de vazio.

Cada sessão da mulher é uma sessão terapêutica para Marion. Cada sessão é como se ela se enxergasse através de um espelho. Ela passa a enxergar seus sentimentos no presente e também viaja pelo seu passado, que Woody Allen estrutura através de flashbacks e em uma sequência magnífica de um sonho.  Marion passa a rever e sentir as consequências de todas as suas escolhas pragmáticas. Seus olhos passam a enxergar a realidade ao seu redor, e, pouco a pouco, seu castelo frio da razão começa a ruir. 

Aos cinquenta anos, essa mulher que nada sentia, passa a sentir tudo de forma intensa e dolorosa. Aos cinquenta anos, essa mulher que achava que tinha tudo, descobriu que não tinha nada. Porém, aos cinquenta anos, essa mulher que só tinha objetivos frios, descobriu que era possível ter paz.