Amar não acaba (ou a tentativa de dizer o que eu sinto de Clarice)


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Clarice Lispector, em 1961. Foto: Claudia Andujar.

Comecei a ler Clarice Lispector em 2009, a partir de uma escolha aleatória que fiz, explorando os livros das estantes de uma biblioteca recém inaugurada na rua de minha casa, em Sítio dos Nunes, distrito localizado no sertão do Pajeú pernambucano. Eu tinha 15 anos e, com minha pouca leitura – por falta de acesso, incentivo ou vontade -, estava diante de “Perto do Coração Selvagem”, justamente o primeiro romance escrito pela autora, publicado em 1944. Foi o meu primeiro contato com a esfinge. A comunicação com Joana, personagem principal do romance, parecia ser de uma dificuldade bastante confortável: estranhamente, os seus questionamentos e anseios conversavam com necessidades e questões que habitavam em mim àquela época. Questões que eu não sabia dar nome. Consigo dizer que me identificar com o que Clarice escreveu era animador e estranho, enquanto estava perdida numa adolescência confusa, cheia de tato e de uma necessidade infinita de ajustes.

Tenho a impressão de que falar do impacto e do susto que é estar diante das palavras de Clarice Lispector, sem antes ter topado com algo equivalente, já parece coisa batida, mas, também, é coisa necessária e inevitável. Eu sinto que estabelecer contato com a introspecção lispectoriana é como entrar no labirinto de Minotauro, disposta a enfrentar a criatura, sem um novelo de linha para garantir o retorno de toda a confusão. As mensagens são telegráficas, construídas em códigos que, talvez, nem a própria Clarice tenha tido a intenção de construir como coisa difícil. Arrisco dizer que seu texto é uma fuga das suas próprias incompreensões na esperança de que alguém a salve de estar só, encarando a sua própria imagem e o seu próprio espírito.

Já são onze anos de conversa com Clarice. Seria lógico que, calejada, já tivesse propriedade e segurança para discorrer sobre qualquer assunto que envolva o seu nome – pelo menos, é o que se espera de quem se mete a sustentar a imagem de admirador de qualquer ser, não é mesmo? Acontece que, até hoje, eu guardo a sensação do “primeiro encontro”. Clarice Lispector me espanta na mesma medida, mesmo quando as nossas conversas se repetem com os mesmos temas.

Nessas conversas a que eu me refiro, Clarice usa um idioma sem tradução, cujo entendimento não se apoia em palavra. Isso exige corpo e espírito para sentir e comunicar. Como ela mesma disse: “ou toca ou não toca”. O contato precisa ser alinhado, para que o sentido encontrado, dentre vários, seja o que ela teve a intenção de lançar. Quem tem a sorte de atingir o nervo da palavra de Clarice, quem consegue traduzir os seus códigos, transcende e se perde na impossibilidade de explicá-la, porque tudo é sensação. O descrever não está pronto. E essa coisa inacabada me apaixona. Eu sigo perdida e satisfeita.

Se Clarice pudesse ler o que escrevo agora, eu incluiria neste texto uma mensagem que lhe agradecesse o acolhimento. Diria que eu ainda tento capturar a sua simplicidade e que, pretensiosamente, eu ouso dizer que me encontro em sua subjetividade. Também aproveitaria o espaço para dizer que a desordem angustiante e cotidiana que me rodeia, encontra o prumo em suas palavras, que é onde ela vive agora.

Géssica Amorim é formada em Letras, estudante de Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco – Campus Agreste. Além de fotógrafa amadora e repórter do Observatório da Vida Agreste (OVA). Atualmente, Géssica também escreve sobre os impactos da pandemia no cotidiano de moradores e moradoras de cidades do sertões do Pajeú e Moxotó.