Missa do Galo: dois contos de natal


Na foto, Machado de Assis, autor de Dom Casmurro e outras obras. Ao lado, a contista e romancista Lygia Fagundes Telles, autora de As meninas. Foto: Divulgação.

Na noite de natal, enquanto o marido está com a amante, Conceição, em seu roupão branco, vai até a sala, onde encontra o agregado, Nogueira, a ler, muito entretido, “Os três mosqueteiros”, esperando para ir com o vizinho à missa natalina na corte.  Em intimidade secretiva, os dois iniciam uma conversa que o jovem, mais tarde, dirá jamais ter entendido, embora, para a maioria de nós, pareça inteiramente explícita em sua sensualidade inadequada: um milagre de natal erótico e, conquanto, quase imaginário. Este é o enredo do conto, talvez, mais célebre de Machado de Assis, “Missa do Galo” (1893). Um texto de clímax aparentemente inerte, embora nada infrutífero. 

Escrever um conto não é um exercício simples, “apesar da aparente facilidade”. Assim pensava o próprio Machado, mais conhecido por seu romances, sem que tivesse deixado de escrever duzentas narrativas menores, grande parte delas de valor excepcional, tal qual o resto de sua obra: não é novidade para ninguém que o autor tenha sido um dos maiores escritores da literatura brasileira, no seu tempo, com certeza o maior. Há quem diga, inclusive, como o fez a crítica Lúcia Miguel Pereira, que Machado de Assis tenha se saído melhor nos contos que nos romances e poesias. De qualquer forma, o certo é que “Missa do Galo” é uma pequena obra-prima, e as reverberações de suas poucas páginas são evidências bastante convincentes disso.

Em 1977, o escritor pernambucano Osman Lins reuniu uma série de autores dispostos a reescreverem o conto machadiano, num livro que foi intitulado “Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema”. No prefácio, ele diz que o objetivo era uma homenagem a Machado e “através dele, à arte da ficção”, ainda que não seja sem certo receio que se mexe num texto de tamanho porte. Na coletânea, o próprio Osman Lins e outros contistas, tais quais, Antonio Callado, Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles, apropriam-se de perspectivas diferentes para recontar os eventos daquela véspera de natal. Um parte da personagem de Conceição, outro de Nogueira, outro do marido, Menezes, mas somente o de Lygia está fora e, ao mesmo tempo, inteiramente dentro da narrativa. Sobre isso, Lins coloca no prefácio que, em sua reescritura, a autora está “manipulando um ‘eu’ onisciente”, enquanto busca apoderar-se do conto, “luta por modificá-lo e vê que tal tentativa é vã”.

Escolho, então, a adaptação de Lygia Fagundes Telles para pôr em destaque junto à de Machado, não só pela importância tremenda da autora, mas porque no momento que a li, senti-me em sincronia substancial com seu narrador impotente a espreitar a sala de estar de Conceição. No conto de Lygia, quem narra não é nenhum dos personagens envolvidos na trama, não está sequer dentro da casa, espia pela janela, com a luz de um lampião e, contudo, sabe demasiadamente o que se passa na cabeça de todos os envolvidos, apesar de contradizer suas certezas continuamente. Inquieta-se com o desenrolar (ou não) das coisas, sempre clamando para que, enfim, algo aconteça, tendo em mãos apenas conjecturas: “Queria ser exata e só encontro imprecisão, mas sei que tudo deve ser feito assim mesmo, dentro das regras embutidas do jogo”. É um jogo que nós, leitores, jogamos a todo momento. Por isso, o personagem de Lygia é quase um inseto, um fantasma, um ser presente que, aparentemente, não interfere na narrativa, mas que, ao mesmo tempo, assemelha-se à imagem do leitor em contato com o conto machadiano. Também nós encontramos os protagonistas já escritos, a situação pulsante em sua nulidade e, também nós nos sentimos impotentes diante dela, muito embora, a manipulamos o tempo inteiro. 

No livro “A personagem de ficção”, o crítico Anatol Rosenfeld afirma que a literatura, apesar de suas muitas camadas, só tem de sensivelmente real, os tipos impressos em suas páginas, e, portanto, tudo que se afigura concreto, a partir da escrita do autor e, claro, da nossa própria leitura, não é tão certo assim. Logo, é com frustração que o “leitor” de Lygia encara a conversação entre Nogueira e Conceição:  “Quero entender por que ele não entende o que me parece transparente mas não estou tão segura assim dessa transparência, ah, se ao menos acontecesse alguma coisa meu Deus!” Essa “coisa”, sempre prestes a acontecer, mas que nunca, de fato, ocorre, se insinua, principalmente, através da sensibilidade de Machado de descrever o nada através de todos os objetos simbólicos da narrativa. Um dos que mais me chama atenção, entre todos eles, é o roupão de Conceição. 

É fundamental compreender que não era conveniente, no século XIX, que uma mulher, casada ou não, estivesse na companhia de um jovem solteiro em trajes de dormir, como faz Conceição, com desenvoltura impressionante. Esse detalhe não aparenta passar despercebido por Nogueira, pois que, de imediato à chegada da moça, lemos: “Vestia um roupão branco, mal-apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica”. Mais tarde, o roupão continua a aparecer, um tanto personagem por si próprio. A propósito, não é a primeira vez que um roupão se faz tão relevante na narrativa de Machado, em “A mão e a luva” (1874), o roupão de Guiomar chega a nomear um capítulo. Bem como em “Missa do Galo”, Guiomar conversa secretamente com um homem, usando a mesma vestimenta. No capítulo do romance em que a cena está, o autor descreve a roupa da personagem em seus mínimos detalhes, o que não acontece no conto, sem que, entretanto, a peça não se faça essencial no texto: Guiomar, em seu roupão, é tão “dissimulada” quanto Capitu em seu vestido de chita e, assim, também apresenta-se Conceição, pelo menos naquela noite.  

O Nogueira de Lygia, no entanto, faz mais evidente sua atração pela imagem noturna da personagem feminina: “Toda a fragilidade na cintura, ele adivinha nas reticências do roupão amplo, confuso, tantos panos, pregas. Bonito babado (aquilo não é um babado) que lhe contorna o pescoço e vai descendo, que curiosas essas roupas de alcova, ele pensa e sorri, fascinado”. Em outras passagens, é o narrador que nota esse detalhe: “Deixou travesseiro e quarto numa disponibilidade sem espartilho, livre o corpo dentro do roupão que arrepanhou sem muito empenho para que a barra não arrastasse, a outra mão fechando a cintura, ah, essas roupas para os interiores!”, e ainda: “Dirá que dormia, acordou há pouco e então veio sem muita certeza de encontrá-lo. Mas sabemos que nem se deitou na larga cama com coberta de crochê, por que mentiu? Para justificar o roupão indiscreto (acordei e vim)”. Segundo Lygia, “sabemos” que a roupa de Conceição pode ser uma evidência de suas intenções menos castas do que seriam durante o dia, em seus vestidos cotidianos, conformada com sua condição direita

Isto posto, é sensato concordar com Roland Barthes: “Pode-se esperar do vestuário que ele constitua um excelente objeto poético”. E, contudo, o ápice do fascínio de Nogueira, talvez, tenha sido a vista dos braços nus de Conceição, outro tema comum na literatura machadiana. Em “Dom Casmurro” (1899), os braços de Capitu têm um capítulo particular e outro de seus contos retrata o magnetismo dessas partes, hoje, pouquíssimo interessantes em tal aspecto. Mas, na sala de estar do escrivão, com as mangas do roupão abertas, os braços de Conceição, que insinuam-se naturalmente na posição em que está (com o rosto sobre as mãos), são responsáveis por uma impressão grande no  jovem, ainda que não tenha sido a primeira vez que os tenha visto. Esse momento sugere certa indiscrição da personagem feminina. No romance mais famoso do escritor, Bentinho tortura-se com a cena imaginária dos braços de Capitu, à mostra no seu vestido de baile,  em contato com o casaco de outros homens, ao que, mais tarde, condena a personagem a usar apenas vestidos de manga. Os braços de Capitu são simbólicos na ideia de traição que se torna obsessão para Bentinho. Não dissonante, os de Conceição, são, igualmente, significativos na interação inadequada entre ela e Nogueira.

É imprescindível, também, que se faça noite durante o conto, tanto para que Conceição, mais de dez anos mais velha que Nogueira, deixe sua austeridade de mulher casada, quanto para que o jovem deixe de vê-la como “apenas simpática”. Primeiramente, o roupão só seria possível muito tarde ou muito cedo, mas a conversa íntima e clandestina só poderia se dar sob a permissão do sono e da ausência dos outros. Não seria igualmente necessário que fosse escuro para que Conceição se sentisse à vontade com a ideia daquele encontro? O Nogueira de Lygia esclarece: “A frouxidão da conversa, por que durante o dia as conversas não são assim frouxas? Ainda de dia ela parece tão objetiva, eficiente e agora essa inconsistência. Efêmera nas frases, nas ideias. E eterna na essência como a noite”. Já o de Machado admite que a impressão que teve dela no momento é que de insípida “ficou linda, ficou lindíssima.” No fim, descobrimos que Conceição não era a mesma que fora naquela espera pela missa: “Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera”. Quem sabe, era o contrário?

Mas por que seria essa uma história, de certa forma, natalina? Em uma leitura apressada, o fato de ser natal pode passar despercebido ao leitor, pois que, o conto de Machado não é nenhum texto dickensiano e, logo, o cenário da festividade é menos categórico na narrativa, sem, claro, perder relevância nela: não é a toa que seu título seja “Missa do Galo”, celebração católica que acontece, tradicionalmente, à meia-noite do dia 25 de dezembro. Se não fosse pela missa, Nogueira, presumivelmente, estaria, como o resto da casa, dormindo. Em consequência, sua espera pelo vizinho na sala possibilita a conversa entre ele e Conceição. Contudo, que esta estivesse acordada também pode ter haver com a data. 

O conto se passa entre 1861 e 1862, cerca de quarenta anos depois da Independência do Brasil, durante o império de D. Pedro II. Nesse período, em território nacional, não se comemorava o natal como hoje fazemos ou, pelo menos, antes da pandemia. Isto é, não era incomum que a maioria das pessoas fossem à missa e, os que não quisessem, escolhessem dormir sem maiores compromissos com amigo secreto ou peru. O feriado era mais religioso que festivo e, assim, faz sentido que Conceição se ressentisse da falta de tato do marido em visitar a amante naquela noite. Na reescritura de Lygia, a autora, apropriando-se de uma personagem ausente no conto de Machado, a mãe de Conceição, faz evidente o imoralismo de Menezes: “Que procure suas distrações fora do lar, muito natural, (…) mas isso de não respeitar nem a noite de natal!”. Desse modo, Conceição que “resignara-se” e “acostumara-se” com o adultério, pode ter sentido uma inquietação capaz de tirá-la de seu quarto, em horas e trajes inapropriados, afim de entabular uma interação com o agregado pouco inocente para um data tão religiosa, bem como o próprio marido. Tamanha atmosfera de erotismo, ainda que sutil, em um dia sagrado, é um paradoxo próprio da ambiguidade moral presente na maioria das obras de Machado, bem como, é uma característica fundamental da literatura lygiana.

Com efeito, o profano e o sagrado se misturam algumas vezes no conto. Em dado momento, Conceição queixa-se dos quadros na parede, ao que Nogueira diz serem retratos do “principal negócio” de seu marido – mulheres. Ela argumenta que sejam velhos e manchados, além de achá-los indecorosos: “eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.” O paralelo com o nome da personagem é instantâneo: ela se chama Conceição, tal qual um dos títulos da Virgem Maria, a “Imaculada”. Similarmente, ela é, com frequência, conhecida como “santa”, a “boa Conceição!”. Porém, a situação em que se encontra pouco tem haver com tais denominações.

Portanto, ao mesmo tempo que pode ter se ofendido com o descaramento do marido em não ficar em casa nem no natal, de maneira similar, ela flerta com Nogueira. E, entretanto, nada acontece. À vista disso, o narrador de Lygia diz que esperar que as coisas se dessem mais satisfatoriamente entre os dois, seria equivalente a desejar um milagre. Mas não seria, de alguma maneira, milagroso, que aquela senhora, tão resignada aos abusos do marido e à sua própria condição, tenha tido coragem para deixar seu quarto naquela noite? Assim, a consumação de qualquer sensualidade furtiva não se faz tão necessária à subversividade da personagem, porque já é muito que tenha sequer se rebelado contra a própria solidão, condição comum à grande parte das mulheres de seu tempo, sem que nunca tenha sido escusável qualquer revolta da parte delas.

Desnecessário dizer que o narrador é pouco confiável. O próprio o admite ao afirmar que suas impressões da noite lhe surgem “truncadas  ou confusas”: “Contradigo-me, atrapalho-me”. Em consequência, os acontecimentos não nos são dados de maneira exata, visto que são contados muitos anos depois por um personagem que diz serem estes confusos e pouco compreensíveis – outra causa de desconfiança, tamanha ingenuidade diante de uma conversa que é escrita pelo mesmo de maneira bastante sugestiva. O “eu” de Lygia se questiona: “Não entendo – o jovem dirá quando lembrar o encontro e a conversa com a senhora que vai aparecer daqui a pouco, não entende?” Se o conto parece, para a maioria dos leitores, absolutamente sensual, por que seu narrador apresenta-se tão simplório, embora ele tenha total parte no desenrolar da reunião? Mais um dos mistérios do texto, esse personagem tão “nítido”, mas tão “distante”.

Logo, é a inocência de Nogueira que mais nos perturba, já que se, possivelmente, tivesse tomado qualquer iniciativa, o conto deixaria sua estagnação. Diante disso, o narrador lygiano revolta-se: “E os dois de mãos abanando, fala mais baixo! ela suplica. E o grande relógio empurrando seus ponteiros, quando ambos se juntarem, estarão se separando, ela no quarto, ele na igreja – tão rápido tudo, mais uns minutos e o vizinho virá bater na janela, vamos? Perdidos um para o outro, nunca mais aquela sala, naquela noite, vocês sabem que dentro de alguns minutos será o nunca mais?” Todavia, Nogueira é jovem demais e Conceição cautelosa demais – o que, de fato, poderia ter acontecido? Pelo contrário, é esse “nunca mais” que se faz tão fascinante no conto machadiano, nada dependente de um clímax absurdo: Machado, tal como Lygia, era tão grande contista quanto Tchekhov ou Katherine Mansfield e, assim, seus textos não precisavam de excessos. Portanto, o leitor pode apagar a luz do lampião tranquilamente, sem que tenha presenciado um espetáculo histriônico, mas, com certeza, tendo espiado um episódio de uma sutileza e vigor somente possível para os mestres.