Cena de Boca (Conto)


Pina Bausch, diretora e bailarina, em “Café Müller”, obra de 1978.

Por Marco Polo Guimarães

A atriz desta vez não está no palco, seu lugar natural, sua terra-mãe. Ela está na plateia. Sozinha na plateia. Observa a boca de cena coberta pela cortina de veludo cor de vinho. Se se prestar atenção, talvez olhando de perto, vê-se que é uma cortina peluda. Provavelmente esquenta o que cobre, o que veda aos olhos. O palco. E todas as possibilidades que podem acontecer no palco. Mas não se move. Nem sequer uma brisa estremece de leve sua superfície, provocando iridescências em seus brilhos discretos, em suas dobras verticais, frágeis colunas de tecido. A atriz sobe ao palco e começa a examinar as cortinas. Será que a quem tem mais imaginação ela pode insinuar a presença de algumas formas, figuras, talvez narrativas? Será ela um elaborado tapete no qual o espectador tem que adivinhar sua trama? Suas possíveis tramas? Suas impossíveis tramas? Seus segredos e mistérios? E, como nos tapetes, será que seu avesso esconde um universo de nós, pontas soltas, emaranhado caótico de fios que oscilam numa quase imperceptível sobreposição de tons monocromáticos? O que há por trás da cortina? O que ela esconde da atriz que, ávida, olha insistentemente vários pontos de sua opaca superfície? E tenta e tenta e tenta e nada vê. E se joga exausta para trás no chão, ante uma plateia vazia e silenciosa, embora iluminada pelo grande lustre de cristal que paira no alto feito uma nave espacial abandonada.

Mas, quando já se desespera e pensa em desistir, a atriz nota um leve estremecer na cortina. Ergue-se atenta. E percebe um suave ronronar que se acopla ao zumbido tão contínuo que quase já não se nota do ar-condicionado. É mais um sibilar que um ronronar. O som que se supõe que as serpentes fazem quando exploram o ambiente com suas línguas bifendidas. O ondular das cortinas (agora se vê: são duas, laterais, antes unidas como se fossem só uma), o ondular das cortinas se intensifica e agora não há mais dúvida, o ciciar vem das engrenagens e roldanas acionadas para abri-las, lado a lado, deixando ver ao centro primeiro uma fenda, depois um espaço, depois um grande abismo, para onde a atriz mergulha correndo. E ao fundo do abismo aparece um ator. Um ator bailarino, que é ela própria, a atriz, transmutada. Ainda na sombra. Embora, agora que o palco está totalmente aberto, exposto, já se note o crescer paulatino de uma onda luminosa. Uma onda que acende um tom vermelho sangue. O ator bailarino, que permanecia imóvel, começa a abrir os braços, joga a cabeça para trás, dá um passo para a frente, como se estivesse pronto para voar.

E neste instante irrompe a orquestra. Primeiro num suave naipe de violinos e cellos, depois acordando para um tema repetitivo, insistente, mas sempre, cada vez mais, um tom acima. Para depois descer rodopiando numa súbita mudança de timbres para metais graves e agudos misturados. A essa altura o ator bailarino está dançando. Às vezes para, como se ouvisse um silêncio que ninguém mais escuta. Depois dá um salto, como se levasse um susto ou visse uma fera, um tigre de neve ou um dragão de fogo. A intervalos aleatórios ele para e se auto acaricia, ora com suave sensualidade ora freneticamente, ora de modo sutil ora desavergonhadamente.

Mas ele não sabe mais nada. Sabe apenas que precisa dançar. E interpretar o que já está fora de qualquer interpretação. Ele já nem mesmo tem controle sobre seu corpo, que é arremessado em todas as direções, como se dominado por ventanias irresistíveis. Ele oscila para um lado e para outro. Para a frente e para trás, numa convulsão. Às vezes estaca, olhando para os lados como se buscasse ver, desesperadamente, algo de que sua vida dependesse. Às vezes rodopia até cair. E logo pula, se levanta. E dança.

A essa altura a orquestra sobe cada vez mais alto, num crescendo turbilhonante em que todos os instrumentos parecem esgotar todas as suas potencialidades, até que os timbales rufam num estrondo de trovões e os pratos ressoam como relâmpagos cegando a atriz-ator-bailarino que se estica toda curvada para trás, como um arco retesado a ponto de se partir e, finalmente, tremendo pelo corpo todo, dela jorra um fluxo de prazer que inunda todo o teatro de repente repleto de manequins nus e cegos que de pé aplaudem e urram em uníssono: Bravo! Bravo! Bravo! Bravo! Bravíssimo!

Subitamente tudo silencia e as luzes se apagam. No centro do palco, iluminada por um foco de luz e abraçada imaginariamente ao ator bailarino, a atriz goza. E tudo que se ouve são seus arquejos, gemidos, soluços e gritos.

Marco Polo Guimarães é escritor, poeta, cantor e compositor. Faz parte do Ave Sangria, antológico grupo de rock psicodélico. Seu conto “Cena de Boca” foi publicado originalmente na terceira edição da Revista Café Colombo, em 2015.