Nação, etnia e comunidade em “Pachinko” de Min Jin Lee


Na foto, Min Jin Lee, autora de “Free Food for Millionaires” (2007) e “Pachinko” (2017). Foto: Divulgação.

Uma combinação entre o pinball e o slot machine, pachinko é o jogo mais popular do Japão e, contudo, um dos mais controversos. O jogador deve inserir o dinheiro na máquina e, em troca, ele recebe bolinhas de prata, que custam de um a quatro ienes e podem ser trocadas por prêmios. Apesar de competições de aposta serem proibidas no país, o pachinko ocupa uma área cambaleante entre o legal e o ilegal, permanecendo ativo devido à seus lucros exorbitantes: as mais de 18,000 casas do jogo, espalhadas pelo Japão, faturam bem mais que os  cassinos de Las Vegas, cerca de 25 trilhões de ienes. A reputação desse entretenimento é seriamente afetada por seu caráter vicioso e sua associação com a Yakuza. Ademais, a maioria dos donos dos estabelecimentos são etnicamente coreanos, como é o caso de Mozasu, que faz fortuna com o seu negócio, na tentativa (infrutífera) de não mais encaixar-se no estigma de “segunda classe” a que são condenados todos os zainichis, coreanos que moram em território japonês. Apesar disso, o personagem não se envergonha de seu trabalho, já que, para ele, pachinko é muito mais que simples sorte ou azar: “Mozasu acreditava que a vida era como esse jogo, no qual o jogador pode ajustar o botão e, no entanto, esperar pela incerteza dos fatores que ele não pode controlar. Ele entendia por que seus clientes queriam jogar algo que parecia tão fixo, mas que deixava espaço para aleatoriedade e esperança”.

“A história falhou conosco, mas não importa.” – é assim que inicia-se o segundo livro da escritora coreana-americana Min Jin Lee, “Pachinko” (2017), sugerindo a atmosfera que se seguirá em suas mais de 500 páginas. O romance segue a trajetória de uma família, desde sua formação no início do século vinte, em uma Coréia sob dominação japonesa e, posteriormente, sua fuga para o Japão e seu estabelecimento no país, até o fim dos anos 80. A obra foi altamente elogiada depois de sua publicação, bem mais do que o livro anterior da autora, “Free Food for Millionaires” (2007), tornando-se, rapidamente, um best-seller. “Pachinko”, considerado um dos melhores livros de 2017 segundo o The New York Times, foi recomendado por Barack Obama e figurou na lista dos finalistas do National Book Award, maior premiação literária dos Estados Unidos. No Brasil, depois de entrar na coleção do Clube Intrínsecos, assinatura mensal de livros da Intrínseca, a editora o publicou para os não-assinantes no fim de Dezembro de 2020. E, em terras brasileiras, o romance também parece que fará sucesso.

Com efeito, a história dos imigrantes coreanos no Japão é pouco sabida. Sobre isso, a própria Min Jin Lee, que também é historiadora e socióloga, afirma que tamanha falha histórica tem mais haver com a falta de documentos dessas pessoas, muitas vezes analfabetas ou pobres demais para ter tempo ou condições de documentar a própria vida, do que com um apagamento proposital. De qualquer maneira, sua saga familiar surge na ideia de contar – ficcionalmente – a biografia dessa comunidade gigante (há mais de seiscentos mil coreanos no Japão) e, contudo, negligenciada. O livro, pois, começa durante a ocupação japonesa da Coreia, com o casamento arranjado entre Sunja, uma moça de um vilarejo pequeno, próximo à Busan, na área que hoje é a Coréia do Sul, e Isak Baek, um pastor presbiteriano de Pyongyang, na atual Coréia do Norte. A união se dá depois que Sunja engravida de um dos negociantes do mercado de peixes, Koh Hansu, que, posteriormente, descobrimos ser um yakuza. Em 1933, após o casamento, ambos vão para Osaka, no Japão, onde moram o irmão e a cunhada de Isak, Yoseb e Kyunghee. A partir disso, acompanhamos as tentativas de sobrevivência dessa família, e de alguns figurantes com os quais essa se relaciona, durante períodos dramáticos (Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra Fria), em um local hostil à sua mera existência – ora, como uma boa saga, “Pachinko” é um livro triste. 

Dentre os muitos personagens do romance, um dos mais curiosos é Noa, o primeiro filho de Sunja, fruto de seu caso com Hansu, um homem casado e, apesar de coreano, bastante bem-sucedido no Japão. O jovem, ainda aos oito anos, tem alguns segredos – um deles é que, há algum tempo, ele deixou de acreditar em Deus, depois que seu pai, Isak (Noa não sabe de Hansu), é preso pela polícia japonesa, envolvido em um caso político/religioso. O outro, e o mais interessante deles, é que ele odeia ser coreano e, acima de tudo, tem certa repulsa por Ikaino, o pobre bairro onde ele e a maioria dos imigrantes da Coréia moram em Osaka, já que, ainda que esses pessoas conseguissem dinheiro o suficiente para mudar-se, não era fácil, para eles, locomover-se no país, devido ao preconceito. Portanto, ainda muito pequeno, Noa esforça-se para ser o melhor aluno da escola, aparentemente irredutível a toda e constante descriminação sofrida e, mesmo quando a Segunda Guerra obriga ele e sua família a deixarem Osaka e, consequentemente, parar de frequentar o colégio, o menino jamais perde o empenho e a vontade de estudar. Quanto a isso, Hansu, que não tem filhos homens com sua esposa, decide patrociná-lo usando a desculpa de ser um amigo da família e um coreano patriota. Noa, então, ingressa em Waseda, uma das maiores universidades japonesas.

Nascido em território japonês, conquanto etnicamente coreano, a narrativa hegemônica que Noa tem sobre si mesmo e sua família são os inúmeros e execráveis estigmas ao redor dos zainichis: um povo menor, preguiçoso, sujo e criminoso. Nas ruas de Ikaino, o menino depara-se várias vezes com sujeira e crime, com homens bêbados nas portas de casa e com vícios em álcool e apostas. Na escola, a maioria dos alunos não lhe dirigem a palavra e, os professores, impressionados com sua capacidade intelectual, o chamam de “bom coreano”. Hansu o convence de que a única maneira de separar-se do preconceito é estudando e, por consequência, enriquecendo. O próprio, porém, só tem dinheiro por causa de sua conexão com o crime organizado. Assim, Noa acostuma-se com a ideia de ser o “bom selvagem” nos mínimos detalhes: “Koh Hansu havia, com frequência, mencionando que um homem deveria aparentar o seu melhor todos os dias. Para os coreanos, isso era especialmente importante: Pareça limpo e bem arrumado. Em todas as situações, mesmo nas que você tem o direito de sentir raiva, um homem coreano deve falar calma e sobriamente”.

Já em Waseda, estudando literatura inglesa, deslumbrado pela nova facilidade de sua vida, Noa começa a namorar a japonesa Akiko, outra das personagens mais intrigantes do livro. A jovem, de uma família de negociantes de classe média, estuda sociologia e não tem medo de questionar os professores sobre qualquer questão política e social, além de muito orgulhar-se de não ser racista como os pais: ela até namora um coreano! Todavia, como Noa perceberá, Akiko em nada se diferencia dos outros que, em maioria, o discriminam e ignoram: “Vê-lo apenas como coreano – bom ou ruim – era o mesmo que vê-lo simplesmente como um mau coreano. Ela não conseguia enxergar sua humanidade e Noa percebeu que isso era o que ele mais desejava: ser visto como um ser humano.” Fetichismo étnico é um dos tópicos mais relevantes deste livro e, não somente Noa, mas, principalmente, as personagens femininas, têm de aprender a conviver com ele. 

Pouco antes de morrer, devido à extrema violência policial, Isak diz à Noa: “Viver todos os dias na presença daqueles que se recusam a reconhecer sua humanidade requer grande coragem”. No entanto, depois de saber que seu pai não é um pastor honesto e intelectual, e sim um yakuza, Noa acredita que nada pode mudar sua essência “suja e criminosa”, tal qual a do resto dos zainichis. Então desiludido e com um ódio extremo de si mesmo, o jovem deixa a faculdade e afasta-se da família na tentativa de tornar-se japonês à força. Contudo, embora tenha abandonado seu sobrenome coreano e se casado com uma mulher que sequer desconfia de suas origens, a única oportunidade de trabalho que consegue é em uma casa de pachinko, bem como a maioria da sua comunidade: “Para um coreano, todas as opções eram uma merda.”

Noa muito me evocou um outro personagem, do mesmo modo interessante, Akira Kido de “A man” (2018), do escritor japonês Keiichiro Hirano, infelizmente ainda não publicado no Brasil. Akira também é etnicamente coreano, mas há muito tempo, sequer conhece sua herança histórica: fala apenas a língua japonesa e não convive, de fato, com outros zainichis, além de envergonhar-se de ser igualmente um deles. Porém, depois do grande terremoto ocorrido no Japão em 2011, ressurge com força total a onda nacionalista e racista contra chineses e coreanos no país inteiro. Pela primeira vez, Akiro se vê completamente cercado e aterrorizado pela ideia de fazer parte de uma minoria, mesmo anos depois da geração de Noa, quando a situação parecia melhor para todos os imigrantes: “É insuportável ter sua identidade sumarizada por uma coisa e somente uma coisa, e que outras pessoas tenham total controle do que ela é”.

Quanto a isso, Mozasu, citado no primeiro parágrafo, meio-irmão de Noa e filho biológico de Isak e Sunja, tenta não se importar em ser um “mau coreano”, mas deseja ser, pelo menos, um coreano rico. Desse modo, Mozasu não vai bem nos estudos, mas bate em qualquer um que levante a voz para ele e, por conseguinte, acaba deixando a escola e começando a trabalhar com pachinko ainda muito novo. Depois de algum tempo, torna-se, de fato, riquíssimo. O dinheiro, no entanto, pouco lhe serve para estabelecer um status social de dignidade, pois que, diferentemente do irmão, Mozasu jamais esconde suas origens. Nascido no Japão, o personagem sente-se completamente expatriado – jamais viu a Coreia antes de adulto e no país em que nasceu é tratado como estrangeiro: “Coreanos como eu não podem sair daqui. Para onde iríamos? Mas os coreanos em casa também não estão mudando. Em Seul, pessoas como eu são chamadas de bastardos japoneses e, no Japão, eu sou apenas outro coreano sujo, independentemente de quanto dinheiro eu ganho ou quão bom eu sou”. 

Seu filho, Solomon, demora mais um pouco para sentir essa “anomalia histórica” na pele. Estuda, desde pequeno, em uma escola internacional e segue a ordem dirigida a todos os zainichis com algum dinheiro: é um dever para com a comunidade estudar e jamais ser visto como um cidadão menor. Logo, Solomon gradua-se na Universidade de Columbia nos Estados Unidos. Quando volta para o Japão, já empregado em uma firma inglesa, dirigida localmente por um japonês, Solomon servirá apenas para um negócio: tentar fazer com que uma senhora coreana venda sua propriedade, quando a mesma decide vendê-la apenas para outro compatriota. Depois de algumas complicações, contudo, Solomon é demitido com a desculpa de que ele e seu pai devem ter relações com Yakuza, já que os negócios de pachinko são muito associados com o crime organizado, algo que sequer o diretor da empresa realmente pensa:  “‘Todo mundo sabe, Solomon. No Japão, você é um coreano rico ou um coreano pobre e, se você for um coreano rico, há uma casa de pachinko em seu background.’”

Não obstante, apesar do foco dado aos personagens masculinos nesta resenha, são as mulheres as grandes protagonistas do romance. Mais de uma vez, a mãe de Sunja, Youngjin, afirma que “o destino da mulher é sofrer”. Com efeito, talvez as maiores tragédias do livro estejam destinadas às personagens femininas. A própria Sunja começa, ainda aos 16 anos, sendo ludibriada e estuprada por um homem muito mais velho, que a assombra pelo resto da vida. Kyunghee, esposa do irmão de Isak, Yoseb, cuida do marido intolerante e doente por toda a juventude, desistindo de qualquer objetivo pessoal, e Yumi, esposa coreana de Mozasu e mãe de Solomon, tem uma infância povoada de prostituição e alcoolismo. Yumi, apesar de ser quase uma figurante, tão rápido entra e sai da história, tem um dos plots mais tristes: bem como Noa, odeia suas origens e sonha, desesperadamente, com o dia em que se mudará para Los Angeles, onde, segundo sua narrativa embriagada de imperialismo americano, não há preconceito ou racismo. Yumi acaba morrendo em um acidente de carro antes de poder usar o inglês que ensaiava todos os dias. No funeral, Solomon acalma uma das convidadas inconsoláveis: “Não chore. (…) Mamãe está na Califórnia.”

Capa da edição estadunidense de “Pachinko”. Foto: Reprodução.

Porém, não são apenas as mulheres zainichis que têm como destino o sofrimento. Hanako, primeiro amor de Solomon, é filha de um casal japonês de reputação destruída e, portanto, ela se torna uma outsider. Hanako acaba por trabalhar com pornografia e morre muito jovem de AIDS. A segunda namorada de Solomon é Phoebe, uma coreana americana que ele conhece na Universidade. Phoebe não aceita o passado da Coréia, a colonização e o racismo ainda vigente e, então, quando muda-se com ele para o Japão, conversa constantemente sobre suas posições políticas. Solomon não entende: “Sim, alguns japoneses acham que coreanos são escórias, mas alguns coreanos o são.” Com seus amigos novaiorquinos, Phoebe também não tem muito sucesso: “Eles ficavam incrédulos em acreditar que os japoneses educados e amigáveis que eles conheciam podiam achar que ela fosse, de alguma maneira, criminosa, preguiçosa, suja ou agressiva (…) Logo, Phoebe parou de falar sobre isso com seus amigos americanos.” Este é um ponto central: a estereotipação absolutamente racista e xenofóbica de um leste asiático capitalista, desenvolvido e quase místico em sua civilidade, ajuda a apagar ainda mais as problemáticas destes e entre estes países. Essa regra não se aplica a todo o leste, entretanto: China e Coréia do Norte, por exemplo, têm péssimas reputações no Ocidente e as razões para isso são bastante óbvias.

Isto posto, “Pachinko” é um livro, de fato, interessantíssimo. Apesar de tudo, o mesmo carrega um tom novelesco em sua narrativa que me incomodou ligeiramente. Isso não chega a destituí-lo de sua força e qualidade literária, mas talvez ele fosse maior se tivesse um número menor de páginas e alguns detalhes e repetições a menos – interessa pouco, às vezes, que o autor se explique demais na tentativa de, quem sabe, educar o leitor sobre certos tópicos, porque a potência de seu romance pode ser o suficiente. Ademais, a aparição constante de inúmeros personagens que, em pouco tempo, somem da história, cansa o leitor em certos momentos, o que, claro se explica pelo fato de que o livro é uma saga que se estende por quase um século inteiro. No entanto, em alguns capítulos isso faz com que a trama torne-se um tanto anticlímax, já que, assim que nos interessamos demasiadamente por um personagem ou por algo prestes a acontecer com ele, a autora sumariza tudo em poucas palavras. Concordo com Proust: ocasionalmente, os escritores esquecem que há um leitor entusiasmado pela narração de alguns episódios. Em contrapartida, há outros momentos não muito curiosos na obra que são, quase, excessivamente detalhados.

O narrador de “Pachinko” é onisciente e está a par das inúmeras perspectivas dos muitos personagens do livro, um estilo de escrita que Min Jin Lee escolheu, propositalmente, por ser seu “favorito ponto de vista para narrativas de comunidades”. Tal modo de contar histórias era o mais popular na Europa oitocentista e, portanto, é fácil lembrar de livros como “Anna Kariênina” (1877) de Liev Tolstói, por exemplo, ao ler o romance de Lee. O título do clássico russo, “Anna Kariênina”, parece insuficiente quando há tantos protagonistas e figurantes nas 800 páginas do livro e, ainda assim, todos tão bem explorados através desse narrador que, ao mesmo tempo que é distante, parece ser, em sua complexidade, os próprios personagens. Nisso, “Pachinko” poderia ser mais específico. Logo, me contradigo: possivelmente, o último é um romance que poderia, de fato, ganhar em excelência se fosse menor, mas, possivelmente, poderia ser melhor se tivesse mais páginas. 

Contudo, tais características não afetam sobremaneira a literariedade da narrativa, porque suas qualidades estão acima de suas falhas, para além de qualquer importância histórica e social que carregue. Indubitavelmente, Min Jin Lee escreve como historiadora e socióloga e a mesma o afirma. Sua frase inicial (“A história falhou conosco…”) é sua tese e o livro inteiro está cercado por tais ideias e, até mesmo, por certo senso de ativismo, conquanto não seja nenhum panfleto. Lee não esquece que está escrevendo literatura e isso é essencial na construção de qualquer bom romance, em particular, um de ficção, tal qual o seu. Portanto, o livro não merece ser lido apenas por seu caráter político, embora seja um de seus grandes atributos – “Pachinko” é sagaz e é bonito em sua composição e delicadeza, a despeito de algumas inconstâncias. Assim, esse é um best-seller digno do hype e da recepção obtida. Do mesmo modo, a história da comunidade zainichi também deveria ganhar popularidade e, ler a obra de Lee é, sem dúvidas, um bom ponto de partida para conhecê-la.

*As citações de “Pachinko” foram traduzidas da obra original (em inglês) por nós.

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