Últimos Dias

Últimos Dias (2005) de um espírito agonizante

Tendo em Kurt Cobain uma clara inspiração, Gus Van Sant nos entrega uma obra potente. Foto: Reprodução.

Our revels now are ended. These our actors,

As I foretold you, were all spirits and

Are melted into air, into thin air.

A Tempestade – William Shakespeare

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” (2005) acompanha Blake, um músico que mora em uma mansão fria e vazia e que foge de todo e qualquer contato com o mundo exterior. Blake se arrasta entre a floresta e sua casa como um zumbi que se move em direção a um destino inexistente. Suas roupas são sujas e desgastadas, sua expressão é nula; em sua casa habita um grupo de amigos, mas eles raramente se encontram, Blake os evita como pode; o ambiente interno da casa é quase uma extensão da floresta que existe do lado de fora.

Em “Últimos Dias” parece não existir uma narrativa propriamente dita. Não há ação. Quase não há diálogos. Não há grandes sentimentos saídos de um grande artista. Não, há apenas um não-personagem que se confunde com o espaço em que habita. O drama sempre está suspenso. Toda vez que parece que haverá algo, uma certa tensão, uma realização concreta, Gus Van Sant nos remove, deixando-nos com a sensação de um coito interrompido. 

Nesse sentido, todo o filme é construído em torno da ausência. O desafio pós-moderno de Van Sant – que pode fazer muita gente dormir de tédio – é filmar alguém que já não está mais lá. Blake não fala, apenas balbucia. Ele é um homem privado de si mesmo. Um homem abjeto que não passa de um somatório de ruídos cacofônicos. 

No entanto, existem duas cenas nas quais seu espírito emite alguma luz e mostra que ainda está ali. 

A primeira é quando Blake está em uma sala com vários instrumentos. Então ele vai tocando um a um, em uma sobreposição, e pela primeira vez, presenciamos vida e harmonia. A câmera está do lado de fora da janela e vai se afastando pouco a pouco enquanto as camadas do som vão se preenchendo, até culminar em uma bela catarse de sensações sonoras. Por não existir quase nenhuma ação concreta ao longo do filme, esse momento torna-se extremamente poderoso; tal qual uma pequena fonte de luz acesa na escuridão. 

Na segunda, já próxima ao fim do filme, a câmera não se mexe, o quadro é estático. Há apenas Blake e seu violão – em uma posição característica de Kurt Cobain – seus cabelos loiros e sujos cobrindo seu rosto. O corpo desaparece e a protagonista é apenas a voz, apenas o talento, que ecoa as palavras de maneira visceral e hipnotizante “É uma longa e solitária jornada que vai da morte ao nascimento”. 

Cena do filme de Van Sant, diretor de obras como “My Own Private Idaho” (1991) e “Good Will Hunting” (1997). Foto: reprodução.

Como já sabemos, os últimos dias de Kurt Cobain preconizam um suicídio. Van Sant, se fosse um cineasta mais convencional, poderia tentar explicar os motivos para alguém cometer tal ato, ou até mesmo julgar. Não seria o suicídio o ato mais brutal que alguém poderia cometer a si mesmo? Ou seria o ato mais covarde? Ou, quiçá, o mais heroico? O diretor se abstém dessas prerrogativas e filma apenas o estado de seu protagonista, minimiza o roteiro e foca na abordagem, no protagonismo da forma. 

Não importa o porquê. Nem mesmo o como. Em “Últimos Dias”, sentimos o espaço. O vazio. A desolação. A partir da construção da mise-en-scène, sem acontecimentos dramáticos aparentes, Van Sant nos permite contemplar o lento apagar de uma estrela. 

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