Memória, identidade e resistência em Perro Viejo

“O pai do senhor do engenho foi quem o chamou

assim: Cachorro velho, e ninguém mais voltou a

lembrar do seu verdadeiro nome.”

(Perro Viejo)

Mulher negra com turbante e roupas coloridas fazendo pose sentada na cadeira.

Teresa Cárdenas, escritora referência na literatura contemporânea cubana. Foto: acervo pessoal. 

O dia 25 de março foi proclamado como o dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Nesse sentido, a literatura da escritora cubana Teresa Cárdenas surge de modo a contribuir para um pensamento revolucionário. Memória, identidade e resistência são alguns dos termos que norteiam a narrativa de Cárdenas. Em sua obra Perro Viejo (2005), ganhadora do prêmio da Casa De Las Américas, Cárdenas descreve por meio de memórias fragmentadas e dolorosas, a história de um homem negro que foi escravizado em um engenho de cana de açúcar cubano durante toda sua existência. 

Em exclusiva para o Café Colombo, a escritora relata o seu processo de escrita como um momento de conexão consigo mesma. “Às vezes ouço música afro-cubana com tambores e canções cerimoniais, e isso me introduz em uma bolha de tempo onde vejo meus personagens com mais clareza. Outras vezes, só preciso de silêncio e um pouco de café. Sempre varia, embora nunca deixe de ser intenso e até de partir o coração. Sou uma mãe solteira com três filhos e tudo isso requer muito tempo e força. Portanto, terminar um livro, publicá-lo e alcançar os leitores é uma grande vitória. Cada livro é uma alegria. Um alívio de finalmente ver em um livro, aquela ideia que me assombrou por meses ou talvez anos”, diz Cárdenas. 

“Escrevo sentada no canto da cama, de pernas cruzadas com meu velho laptop, mas por dentro, é como se eu estivesse correndo, meu pulso dispara, meu coração pula. Minha respiração é curta, é uma paixão, um desespero que amo. Existo para o momento em que escrevo. Só porque posso escrever, eu existo. E tudo tem a ver com ser mulher negra, nascida no Caribe, falante de espanhol, afro-cubana. É difícil não sentir a força e a resistência de meus ancestrais africanos por trás de cada palavra escrita. Ou a alegria e a tristeza de uma mulher da ilha, afro-latina, rodeada de mar e banhada de sol.”

No romance de ficção Perro Viejo, publicado no Brasil em 2010 pela editora Pallas com a tradução Cachorro velho, Cárdenas escreve sobre um dos fatos mais cruéis da história da humanidade: a escravidão. Priorizando as vozes daqueles que foram silenciados pela história, a autora vem conquistando o mercado editorial como uma das vozes negras mais significantes na literatura contemporânea. 

Duas capas de livro com os Títulos Perro viejo e cachorro velho. Uma capa marrom com uma silhueta de um homem negro e a outra mais clara com um pássaro desenhado.

Na imagem, versões Cubana e Brasileira de “Perro Viejo”, livro ganhador do prêmio da Casa De Las Américas. Foto: Reprodução.

A literatura pós-colonial – onde o colonizado assume o protagonismo para contar sua própria história – rompe com a subordinação colonialista do discurso,  expondo as profundas marcas da violência física e moral da escravidão. Assim também como a própria violência da diáspora, que tirou os negros de suas terras, de seus laços culturais e sociais, para serem submetidos às línguas e culturas dos povos colonizadores, eliminando assim, suas próprias identidades, resumindo suas vidas a uma mercadoria. Perro Viejo, dá voz ao oprimido de forma simples e impactante para todos que se propuserem a ler. 

Teresa classifica os seus textos como: 

“Uma literatura da memória, do que herdei dos meus antepassados ​​e que hoje vive debaixo da minha pele. Como se as histórias me escolhessem para contá-las. Eu não escreveria da mesma forma se tivesse nascido em outro lugar e época. Os meus temas têm a ver com a história do meu povo atravessando o Atlântico de forma dolorosa. São temas de sobrevivência, de apego à vida mesmo após a morte. Deixe suas palavras como legado para as novas gerações. Minha literatura é apenas uma cesta que herdei, com histórias e personagens que certamente viveram em alguma parte da história. Minha missão é passar tudo o que aprendi para crianças e jovens desta geração.”

A narrativa no livro se desenvolve em pequenos capítulos que nos leva a seguir o fluxo de pensamento do Cachorro velho – nome que foi dado ao personagem que protagoniza a história – o que desperta no leitor uma reflexão a respeito do processo de construção, busca e recuperação de uma identidade que foi tomada de forma violenta, trazendo à tona a condição de vida e morte. Para o Cachorro velho, o inferno cristão dos brancos não se distinguia da sua vida na condição de escravizado. “Nossa história não começa na escravidão, nem fomos responsáveis ​​por ela. No caso do meu livro Perro Viejo, quis recordar a essência daquelas pessoas que foram avós dos nossos avós, as suas crenças e medos, a sua resistência e coragem. Seu desejo de voltar à África, que era o mesmo que voltar a ser livre, seu desejo de permanecer vivo após a morte.”

O personagem e todos que estiveram um dia na condição de escravizados tiveram que lidar com a violência e com o exílio, restando apenas as memórias para os mais velhos. E para os que nasceram longe de suas raízes, sobrou a imaginação. Cachorro velho só conhecia a África em que nascera sua mãe, através das histórias dos escravos mais velhos. Não havia céu e inferno, o inferno para ele era o presente, e se existisse um céu, o seu seria voltar à África, um lugar de libertação e recomeço.

Teresa Cárdenas explora narrativas que não são recorrentes na literatura juvenil – pelo menos no Brasil – no entanto, ela decidiu direcioná-las a esse público em virtude da própria experiência durante seu processo de formação na infância. Durante sua infância não leu livros que deveriam ser para crianças da sua idade por não se sentir representada nas personagens descritas. Por volta de seus 12 ou 13 anos, Cárdenas leu autores como Balzac, Maupassant, Poe, Eluard, Vallejo, Carpentier, García Márquez, Hemingway, Ray Bradbury e Agatha Christie.

“Eu morava em um internato de esportes que não gostava e só no fim de semana voltava para casa com minha mãe. Precisava de um mundo para me refugiar, e os livros para adolescentes não tinham nada a ver comigo. Eu não estava neles. Os personagens que me contaram suas histórias tinham olhos azuis, cabelos loiros que flutuavam com o vento, choravam e desmaiavam, choravam. Foi difícil para mim me identificar com esses livros. Eles limitavam minha imaginação, então eu fugi para outros livros. Minha mãe comprou muitas revistas de humor, um tio me deu um jornal. Também gostei muito de poesia e de livros intensos, com ótimas imagens e longos diálogos. Porém, um dia percebi que nem nos livros para jovens leitores nem nos para adultos havia alguém como eu. Procurei e não consegui me encontrar, então senti que algo não estava certo.”

“Muitos anos depois, quando comecei a escrever, esse era o meu objetivo, o meu desafio: escrever sobre aqueles que não aparecem nos livros infantis e juvenis: os personagens negros. E junto com eles, aproximar-se de temas que também não foram tocados, como o racismo, a violência contra a mulher, o abandono de idosos, a reivindicação de figuras históricas africanas, a emigração, o abuso sexual de meninas, a menstruação, a religião afro-cubana, o tráfico de escravos. São questões que sempre me preocuparam, algumas delas vivi desde criança. E tive que aprender a lidar com tudo sozinha. Escrevo, entre tantas coisas, para ajudar, para acompanhar as negras de hoje. Para que muitos se sintam representados e acompanhados.”

Em Perro Viejo, o leitor aborda questões sobre a memória, através das recordações do personagem que só se lembra do tempo em que viveu escravizado e, em meio a privações, nunca conheceu outra realidade durante seus 70 anos. Não sabemos sobre as datas dos eventos em que se passa a história do Cachorro velho, um homem que foi obrigado a aceitar tal condição que foi imposta, um homem sem esperanças que sentia a idade avançando, esperando o momento em que seria descartado. 

Cachorro velho só teve um grande amigo, passou muitos anos de sua existência lembrando de um único grande amor que nunca pôde ser vivido. Perro Viejo apresenta a reflexão sobre o apagamento da memória, assim como outros livros da autora, a exemplo de Cartas al Cielo (1997), o qual  fez Cárdenas a vencedora do Prêmio de La Crítica em Cuba.  O livro foi publicado no Brasil pela editora Pallas em 2010 com a tradução de Cartas para Minha Mãe.

“O apagamento da memória é produto do racismo e de toda a sua violência, discriminação e estereótipos. Muitas gerações de afrodescendentes cresceram no meu país tentando esquecer a sua origem. Sentiam que reconhecer-se como africanos era um indício de atraso ou de uma pessoa de pouco conhecimento e valor. Na minha infância, muitas meninas negras como eu tinham pentes quentes para relaxar os cabelos. Nas escolas éramos provocadas por causa de nossos narizes e da grossura de nossos lábios. Foi muito difícil.”

Em seu novo livro Mãe sereia (2018), Cárdenas narra o que aconteceu no primeiro navio carregado de escravos que saiu da costa da África em direção ao Novo Mundo. Mãe Sereia é uma fábula da realidade, entrelaça história e ficção. E assim como em Perro Viejo,  existe crueza e magia. Com fantásticas ilustrações de Vanina Starkoff, o livro foi publicado também pela Pallas, editora inclusiva, que atualmente possui um considerável catálogo direcionado aos temas afrodescendentes. 

Sobre a nova publicação, ela descreve: “Foi um desafio, em nenhum livro para crianças cubanas conta-se a experiência sofrida por aquelas pessoas. A tortura, a dor, a morte falada com tanta atenção.” Essas pessoas são acompanhadas na viagem por uma antiga sereia, representação de Iemanjá. A deusa yorubá das águas salobras que também é a personificação da África e que sempre estará com ela. É um livro para crianças, jovens e também adultos, mas no caso das crianças recomendo que a sua leitura seja acompanhada pelos pais ou professores.”

Teresa Cárdenas Angulo, Nasceu em Matanzas (Cuba), no ano de 1970. Seus livros foram publicados em diversos países da América Latina, África do Sul e Europa. É uma mulher de seu tempo e escreve recriando espaços de protagonismo negro na literatura. Ao lado mulheres que revolucionaram o mercado editorial, a exemplo de Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maya Angelou e tantas outras que são o vértice da literatura escritas por mulheres.