Ivan Bulhões: o legado do “rei do forró”

Ivan Fernandes Bulhões. Foto: Izaías Rodrigues/Divulgação.

É em meio a um mês de março devastador para todo o Brasil, com as mortes diárias em decorrência da COVID-19 batendo recordes assustadores, que Ivan Fernandes Bulhões faleceu, deixando as “águas deste março” ainda mais salgadas. O célebre radialista e compositor estava internado desde o último dia 7 do mês em decorrência de um acidente vascular cerebral e, no dia 20 de março, não resistiu.

Contudo, não é certo dizer que apenas a partir de sua morte, Ivan Bulhões entra para a história. O “rei do forró” – como ficou conhecido dentro do meio forrozeiro da região por ajudar a divulgar e lançar diversos artistas do gênero – começou a fazer parte da história do rádio, do estilo musical e de Caruaru e região desde que chegou na capital do Agreste em 1962.

Apesar de ter construído sua carreira no rádio e na cultura em Caruaru, Ivan Fernandes de Bulhões era alagoano. Ele nasceu no dia 12 de março de 1930 na Usina Utinga Leão, no município de Rio Largo, em Alagoas, a quase 30 km da capital do estado, Maceió. Dos sete aos 14 anos morou na capital alagoana até que, em 1944, chegou a Recife com planos de ir para o Rio de Janeiro, onde sua família tinha parentes. Entretanto, após seu pai conseguir emprego na Base Aérea do Recife, estabeleceram-se na capital pernambucana.

Foi em Recife que Ivan começou sua trajetória no campo da comunicação enquanto cronista esportivo no Diário da Noite, um jornal vespertino do grupo Jornal do Commercio do Recife que circulou até o início dos anos oitenta. É como correspondente do Diário que Ivan chega a Caruaru em 1962 e, no mesmo ano, é chamado pelo Radialista Cordovil Dantas para trabalhar na Rádio Cultura em programa esportivo.

Mestre do Rádio

Apesar de afirmar em entrevista a Hérlon Cavalcanti que nunca pensou “em trabalhar em rádio”, foi nessa área que Ivan não somente se consolidou, mas também tornou-se uma referência regional. Tanto que, como bem afirma o jornalista Givanildo Silveira, passou a ser considerado como um professor por outros profissionais da área. Além de ser considerado um dos maiores fenômenos do rádio, como é classificado por Tony Gel, ex-diretor da Rádio Liberdade que fora colega de trabalho de Ivan Bulhões e atualmente é deputado estadual por Pernambuco.

Após certa insistência de Cordovil, Ivan começa a trabalhar na rádio Cultura e, após três meses trabalhando no programa esportivo, é contratado pela Rádio Jornal, na época a Rádio Difusora. É nesse momento que o ex-correspondente do Diário da Noite se destaca pela produção do “A Hora da Justa”, programa policial pioneiro no rádio da época. Entretanto, destaque ainda maior vale para o programa “Aquarela nordestina”.

Esse programa, que contava com Ivan Bulhões como locutor e produtor, era voltado para a cultura popular da região e servia como um espaço de divulgação de artistas, compositores, músicos e assuntos ligados ao forró, modelo de programa que Bulhões levou por toda sua carreira, nas três rádios em que fez história: Liberdade, Cultura e Difusora (atualmente Rádio Jornal). 

E foi a existência de programas como esses, que tocavam forró e seus subgêneros o ano inteiro, um fator primordial para a construção da imagem de Caruaru como “A Capital do Forró”. Isso porque, como bem aponta o pesquisador Philipe Sales, as rádios eram na época o principal meio de comunicação entre as cidades e bastante comum nas casas populares. Dessa forma, como havia poucas emissoras de rádio no interior do Nordeste, as três emissoras caruaruenses da época – rádios Liberdade, Difusora e Cultura – cobriam boa parte do agreste, sertão e até de estados vizinhos a Pernambuco.

Dessa forma, programas como o de Ivan Bulhões, que continha na programação a presença de artistas a exemplo de Luiz Gonzaga, mas também artistas pequenos da região, popularizavam o gênero e seus intérpretes. 

Rei do forró

Ivan sempre gostou de forró e comenta que apreciava muito Luiz Gonzaga, artista bastante ouvido por sua mãe. Além de divulgar em seu programa, passa, ainda na década de 60, a participar ativamente do gênero com a criação da “Caravana Ivan Bulhões”. A caravana consistia em um conjunto de músicos da cidade de Caruaru e região que se apresentava em cima de um caminhão, inicialmente pelos bairros de Caruaru, posteriormente pelas cidades do entorno, como bem fala em entrevista concedida ao pesquisador Philipe Sales:

“Aqui em Caruaru o São João era feito nos bairros. Era uma coisa maravilhosa em todos os sentidos. Eu tive minha caravana. Não era minha, no caso era da rádio que eu trabalhava, no caso a Difusora; Lídio Cavalcante tinha o da Liberdade [Rádio Liberdade] e a gente então combinava: “Eu vou fazer um show na segunda feira”, já na época do São João, né? “Eu vou fazer no Vassoural”. Ele dizia: “Eu vou fazer na Vila Kennedy”, que é o outro lado, pra não confrontar. E a gente fazia. Eu saía, a rádio divulgando. (Ivan Fernandes de Bulhões, 16/03/2017).”

Entre outros artistas fizeram parte dessa caravana, estão Jacinto Silva, Joana Angélica, Bau dos Oito Baixos, Walmir Silva, Azulão e muitos outros, que, além de Caruaru, chegaram a diversas outras cidades e estados do Nordeste apresentando os artistas de forró da Capital do Agreste. 

Capa do Aquarela Nordestina: Volume 1, lançado em 1978. Divulgação.

Devido ao projeto da Caravana e aos seus programas de forró nas rádios em que trabalhou, Ivan foi um personagem importante não somente para a divulgação de artistas de Caruaru e da região, mas também para o lançamento de muitos outros artistas para o mercado do forró e a popularização do gênero. Tal influência se dava de forma tão direta que o próprio radialista escolheu o nome artístico de alguns artistas, como é o caso de Walmir Silva.

Além de produtor da caravana e radialista, Ivan também foi compositor bastante presente no repertório de artistas de forró, principalmente dos caruaruenses. O primeiro compacto da carreira solo de Azulão (1965) já continha composição do radialista: Eu sou sozinho, parceria entre Bulhões e Juarez Santiago, outro importante personagem para o forró e para Caruaru. Além de Azulão, gravaram também músicas de Ivan os artistas Walmir Silva, Jacinto Silva, Sebastião do Rojão, Gilvan Neves, Abdias dos Oito Baixos, entre outros, totalizando em média cerca de 50 músicas com diferentes parceiros. 

Além das músicas gravadas por diversos artistas, Ivan chegou a gravar 4 LPs com integrantes da Caravana do Ivan Bulhões: Aquarela Nordestina volume 1, 2 e 3; e Ivan Bulhões e seus convidados (1987). Vale salientar que para essas coletâneas, o radialista e compositor  chamou  artistas pouco conhecidos, com a intenção de ajudar na divulgação de seus  nomes. Durante toda a sua carreira, buscou fortalecer não só artistas, mas principalmente o forró. Dessa forma, enquanto o gênero for escutado, dançado e celebrado em Caruaru e região, e enquanto durar “Capital do Forró” como título da cidade , o legado de Ivan Bulhões continuará a existir.

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Referências:

AZEVEDO, Antônio Marcos de. Ivan Bulhões, há 48 anos com seu “quara-qua-quá. Antônio Marcos de Azevedo, Nelson Menezes Araujo e Rosemberg Santos Gonçalves. Caruaru : FAVIP, 2010. 

IMPRESSÃO CULTURAL. Programa Impressão Cultural Homenagem Ivan Bulhões e Walmir Silva. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XN7J_zkmgr0&ab_channel=Impress%C3%A3oCultural Acessado em: 23 de março  2021

SILVA, Philipe Moreira Sales. Ser forrozeiro em Caruaru: prática musical, mudança e continuidade na “capital do forró”. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em Música, UFPB, 2017.

SILVA, Philipe Moreira Sales. Das rádios às caravanas do forró: desenvolvimento da música de Caruaru através das mídias locais. Artigo submetido no XXIX Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música, Pelotas, 2019.