Religião e feminismo em ‘A bruxa’

Cartaz de divulgação do filme. Divulgação.

Anya Taylor-Joy, vencedora do Globo de Ouro por interpretar Beth Harmon em O gambito da rainha (2020), aclamada série da Netflix, vem ganhando cada vez mais espaço nas telas de cinema. Com apenas 24 anos, a atriz é dona de um currículo invejável, e dentre seus principais trabalhos está A bruxa (2015), de Robert Eggers, um dos meus filmes favoritos, e um terror psicológico que pode fazer o telespectador repensar muitas de suas crenças.

Expulsos por heresia do povoado em que viviam, uma família composta pelo patriarca William (Ralph Ineson), a matriarca Katherine (Kate Dickie), e mais cinco filhos, peregrinos em pleno século XVII, na nova Inglaterra, se dirigem a uma floresta, onde se isolam para manter uma plantação de milho. Ao chegarem no local, o medo vem à tona quando Samuel, filho recém-nascido do casal, é raptado das mãos de Thomasin (Anya Taylor-Joy), protagonista da trama. A partir daí, inicia-se uma série de sinais realizados por forças sombrias e desconhecidas. 

O longa de Robert Eggers – produzido pela brasileira RT Features, que dispôs de um baixo orçamento para as gravações -, traz consigo um  terror psicológico sem derramamento de sangue na tela. The Witch utiliza dos artifícios da época para dar o mistério necessário às suas cenas cinzentas. Ao ser ambientado no século XVII, época em que a famosa “caça às bruxas” estava constantemente presente, toda e qualquer ação externa ou em protesto à igreja ou à religião católica era considerada bruxaria.

Dando o tom do filme, Eggers escolhe uma frase marcante de um dos personagens principais da trama para caracterizá-la: “não é fácil se levantar em dias cinzentos, o diabo mantém fechados nossos olhos”. É o que comenta William, enquanto trabalha na plantação de milho com Caleb (Harvey Scrimshaw), seu filho do meio. A fala resume a iluminação e fotografia do filme, com imagens sem saturação, advindas de velas dentro do claustrofóbico casebre da família, dando um ar sombrio e presenteando a produção com cenas escuras e cobertas de fumaça, alusões prováveis a presença constate do diabo naquele rincão. A mata é sempre ressaltada, desde o primeiro momento, como se realmente algo estivesse esperando pelos protagonistas dentro da floresta, observando-os. Essa sensação vem de cenas focadas nas árvores, ao decorrer do filme, e com a presença de um fundo musical lúgubre (a música, curiosamente, só está presente em takes onde a floresta é o foco).

A montagem é organizada em referência à histórias coloniais que culminaram no julgamento de mulheres consideradas bruxas. Os ataques eram causados pelo fanatismo religioso, representado pela família, e resultou em mulheres queimadas nas fogueiras. Tocando no ponto principal do filme, Thomasin, a filha mais velha, em seus prováveis 15 anos, começa a apresentar os primeiros sinais de mudança corporais com a puberdade, e acaba despertando sentimentos confusos no irmão mais novo, e até mesmo no pai. A perseguição da mãe, acusando-a de diversas façanhas, faz com que a menina se sinta sozinha e odiada em sua própria casa. O filme retrata a luta diária e exclusão de Thomasin por ser acusada de bruxaria por seus pais e irmãos.

Anya Taylor-Joy na produção de Eggers. Divulgação.

Se o espectador assiste A bruxa com os olhos voltados para “um filme de terror satânico”, não vai perceber todo o peso histórico das acusações à personagem de Joy. A produção é totalmente voltada para o psicológico dos personagens e, consequentemente, de quem a está assistindo. A primeira vez que vi, me perguntei porque era considerado um filme de terror, até entender que na verdade não existe nenhum “ser sombrio”, a ameaça é a própria família da menina, que com todo o julgamento religioso, se auto destrói. 

O longa surpreende ao fugir dos filmes de terror clichês, fazendo com que o espectador se identifique com a trama, que é de uma premissa verossímil. Eggers surpreende pelo bom gosto ao escalar o elenco infantil extremamente talentoso, a bela construção de imagens e a progressão inteligente do roteiro, fazendo com que ao assistir, nós nos sintamos presos e inconformados com as atitudes da família e seu fanatismo religioso.

Cuidado, a partir de agora contém spoilers. Se não assistiu ao filme, pare por aqui.

O ápice do filme vem com a morte de Caleb que, por meio de magia, tem sua alma entregue ao “mal”. Ao acusarem Thomasin de ser a responsável pelo ato, os pais trancam a menina e seus irmãos gêmeos no celeiro com “Black Phillip”, o bode preto da fazenda. A cena mostra a lenda de que bruxaria e satanismo estão completamente ligados, sendo a bruxa representada por uma mulher velha que se transforma em animais para seduzir e amaldiçoar os homens. Os acontecimentos decorrentes, fazem com que o espectador se pergunte “quem é a bruxa?”, trazendo assim a deixa para a cena final, uma das mais belas e significativas imagens de todo o longa. 

O foco é dado na morte da mãe por Thomasin, que se livra de todo o seu passado sombrio e de sofrimento. O sentimento de liberdade é retratado na personagem que, ao matar a mãe, tira seu vestido sujo de sangue e adormece. Após acordar encontra-se com o bode e o desejo de se juntar às bruxas, sendo esta a cena mais representativa de todas. Thomasin e seu coven, desnudos e cantando ao redor do fogo, se elevam, voando, numa ação que podemos interpretar como a liberdade da mulher, com seus corpos, com suas escolhas, com seu próprio ser. A menina se opôs a toda sua realidade e passa a enxergar o mundo com outros olhos, olhos de bruxa. Uma representação impecável do feminismo e do julgamento da família, que não sabe lidar com a presença de uma jovem mulher dentro de casa, as acusações de bruxaria remetem a tantas mulheres queimadas na Idade Média, simplesmente por serem sábias ou até mesmo por cozinhar. O filme traz a liberdade feminina, a liberação de amarras antigas e enraizadas, e reflete como os entes da família podem se tornar os grandes vilões na vida de uma jovem mulher.