Dia: 7 de abril de 2021

Alfredo Bosi, um dos grandes nomes da crítica literária, morre aos 84 anos

“Louvo a praxe desta e de todas as academias pela qual cada novo eleito dirige a palavra não só aos confrades que o estão acolhendo, mas também aos companheiros que se foram, convidando-os a retornar, ainda que por breves momentos, à companhia dos que os conheceram em carne e osso, ou apenas pelo testemunho dos seus escritos. A memória que, no verso de Camões, ‘os homens desenterra’, é, neste caso, o mais grato dos deveres. É minha vez de convidar-vos a me acompanhar nesta viagem de reconhecimento”

(Alfredo Bosi em seu discurso de posse na cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras)

Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras e professor da USP,  morre de Covid-19 | Jovem Pan
Alfredo Bosi também era professor da USP e membro da Academia Brasileira de Letras.

Um nome que certamente todos os acadêmicos das Letras reconhece: Alfredo Bosi. Um dos maiores críticos da literatura brasileira, que com seu discurso mediador orientou os alunos de Letras a um estudo mais aprofundado e um enfoque mais ligado à dimensão social da literatura por parte da crítica.

História concisa da literatura brasileira (1970), normalmente é o livro em que temos o primeiro contato com o Alfredo Bosi na faculdade de Letras, um livro fundamental para todos que se propõem a começar a compreender a literatura brasileira, do período colonial até as tendências contemporâneas. Em outra obra de referência para a área, Dialética da colonização (1992), baseado nas interpretações dos intelectuais de 30, o crítico busca caracterizar historicamente os aspectos que constituem o Brasil fomentando uma reflexão sobre a situação cultural do nosso país.

Além disso, ainda sobre a importância do legado nas obras de Alfredo Bosi para a crítica literária e para nossas letras, na parte introdutória de O pré-modernismo (1966), Bosi, de forma sucinta, dialoga sobre o período cultural que se estende nas manifestações realista-parnasiana e do simbolismo, período de transição que foi o pré-modernismo, que precedem o modernismo brasileiro. Certamente as obras dele são referência para mim e para os estudantes de Letras, a quem o Bosi dedica muitas de suas obras. é uma grande perda, lamentável ainda mais pelas circunstâncias.

É um grande prazer cursar Letras, pelo oficio e pelos grandes nomes dos críticos que fazem parte da vida acadêmica dos alunos de letras, que através dos estudos dos principais representantes de cada período da nossa literatura, nos ajuda a entender a sociedade, cultura e política, com grande lucidez crítica.

O professor Bosi se torna eterno. Em seu discurso de posse a primeira frase dita por Bosi foi “A primeira palavra que me cabe dizer aos confrades desta Casa de Machado de Assis é a mais simples e ao mesmo tempo a mais densa: – obrigado!”. Assim, como estudante de Letras que tem a honra de estudar as obras do Alfredo Bosi, e por todo seu legado na literatura, eu digo: obrigada!

Literatura infantil

Do ‘certo e errado’ ao Bê-a-bá do desafio de crescer na literatura infantil

Falar sobre literatura infantil é falar das lembranças da infância. É relembrar as experiências de contação de histórias, de conhecer novos personagens, figuras e mundos. É trazer à tona recordações e momentos que nos marcaram e fizeram despertar o gosto pela leitura.

A história da literatura para crianças tem início em meados do século XVIII, possuindo uma ligação estreita com a pedagogia. O escritor francês François Fénelon (1651-1715) destacou-se no século XVII com o intuito de educar moralmente as crianças. As histórias tinham uma estrutura maniqueísta, a fim de demarcar claramente o bem a ser aprendido e o mal a ser desprezado. A maioria dos contos de fadas, fábulas e muitos dos textos contemporâneos incluem-se nessa tradição e formato.

As publicações brasileiras para essa faixa etária tiveram início tardiamente, no início do século XIX, seguindo com o mesmo intuito da educação infantil. Quando Monteiro Lobato criou suas próprias editoras, a Editora Monteiro Lobato e mais tarde a Companhia Editora Nacional, tinha como objetivo educar a população brasileira e ensinar o folclore brasileiro às crianças. Seu primeiro livro dedicado aos leitores mirins foi A menina do narizinho arrebitado, publicado em 1920. Fez tanto sucesso que o levou a prolongar as aventuras de sua personagem Narizinho em outros livros, englobados no universo do famoso Sítio do Pica-pau Amarelo.

Na atualidade, percebe-se que essa linha editorial não mais se prende aos preceitos maniqueístas, reservando-se apenas ao ‘certo’ e ‘errado’. A literatura infantil vai além, com ensinamentos sutis que proporcionam reflexões sobre os temas propostos, utilizando artimanhas visuais e sensoriais que chamem a atenção da criança e desperte a vontade de conhecer mais do mundo. De olho na oportunidade que os livros personalizados apresentam, algumas editoras têm investido nessas inovações, com o objetivo de conquistar os novos leitores.

Uma das estratégias que as editoras estão utilizando é a publicação de livros que permitem a interação da criança com a história. Propõem, por exemplo, missões aos pequenos grandes desbravadores. Essa forma de diferenciação em livros encanta as crianças, o que desperta e estimula a leitura e a concentração, aumentando o estreitamento da relação com o livro. Esse campo possui obras muito particulares, com conteúdos capazes de lapidar e estimular o imaginário da criança. Auxiliando sua compreensão de mundo e a resolução de conflitos internos.

O mercado literário também precisou se adaptar rapidamente às mudanças em razão da pandemia. Após perceber a expansão digital e a necessidade de focar as vendas no comércio online, passou a investir de forma mais intensa nos lançamentos virtuais. 

Nesse sentido, o mais recente livro de literatura infantil da Editora Vacatussa Be-a-bá, escrito por Thiago Corrêa Ramos, é um exemplo de inovação nessa linha editorial. A obra conta a história de um bebê em seu desafio natural de crescimento.

Ilustração de Júlia Farias

A narrativa passeia pelo processo de desenvolvimento da criança. Vai desde o choro, que é o seu primeiro recurso de comunicação, até a invenção das próprias palavras, o momento de fazer planos e sonhar. Acompanhada pelas ilustrações da pernambucana Júlia Farias, os desenhos funcionam como uma forma de traduzir em imagens o processo de amadurecimento da garotinha.

O livro propõe como metáfora, uma viagem que acompanha as conquistas da linguagem pela humanidade através de um divertido passeio pela História da Arte, apresentando uma galeria com analogias que reúne pinturas rupestres, videogame e grafite.

Essa é a segunda narrativa infantil do autor, que começou a escrever para crianças depois que virou tio e, também, pai  de duas meninas. Sua inspiração veio do pedido da escola onde estudam as filhas, que, em seus aniversários, pedem aos pais que selecionem algumas fotos para contar como foi cada ano de vida dos seus colegas. A partir disso, o autor resolveu fazer um livrinho de lembranças contando a história dos dois anos da caçula, que contribuiu carimbando as capas com as mãos pintadas de tinta. Na brincadeira, também foram utilizadas imagens impressas da internet e costuradas à mão. 

Da versão caseira, percebeu-se o potencial de virar um livro de divulgação ampla, com adaptações para tornar a história mais universal, focando nas primeiras etapas de crescimento da criança. As ilustrações, além de também participarem da narração, fazem alusão às conquistas da humanidade ao longo dos séculos em diferentes formas de expressão artística.

O terceiro título do segmento infantil lançado pela Vacatussa, é o sétimo publicado pela editora. Para este ano, estão previstos outros três lançamentos na linha infantil. O livro, lançado em 5 de dezembro do ano passado, se consolidou entre os três mais vendidos no site da editora em janeiro deste ano.

O livro Bê-a-bá carrega muito do que a literatura infantil contemporânea propõe: trazer diferentes visões e construções de mundo através de imagens e palavras. Não obstante, essas narrativas servem de forma pedagógica em sala de aula, como forma de introduzir novos olhares, despertando a curiosidade dos pequenos leitores.

A pedagoga Nadja Carvalho, poetisa, escritora e professora da rede de ensino municipal de Garanhuns, desenvolveu três livros de literatura infantil pela editora Prazer de Ler e trouxe sua perspectiva em relação a esse mercado e a importância para o desenvolvimento da criança. 

A literatura infantil é uma área que ainda sofre preconceitos por alguns especialistas presos a uma visão conservadora. Ela menciona a falta de notoriedade à abordagem lúdica atual. Nadja destaca que têm crescido os debates acerca da função e do posicionamento de escritores dos livros infantis.

A autora conta que criou seu primeiro livro, A família da gente é diferente, lançado em 2013,  por uma necessidade que surgiu quando trabalhava na rede de educação em Recife, em uma escola que não tinha livros que abordassem as diversas formações familiares existentes. Nadja se utiliza disso em sua obra, como inspiração para retratar as famílias de seus alunos e suas construções diversas.

O processo de criação de seus personagens é um trabalho em conjunto com a editora que, a partir do momento que observam a temática abordada, escolhem o ilustrador que irá contribuir. O seu primeiro livro foi construído com a contribuição do ilustrador Luciano Félix, que de forma bastante poética, se inspirou em traços afro-descendentes.

Suas outras criações foram Revolução Marinha e Mãe tem cheiro de quê?, publicadas em 2016. O primeiro livro  teve como personagem principal a tartaruga Dona Tuga. Movida pela preocupação em relação ao aumento da poluição no seu habitat, a tartaruga convocou seus colegas em busca de uma solução para o problema. Já o segundo, trata do afeto maternal e da busca da personagem Bia em compreender o cheiro da sua mãe e das mães dos seus coleguinhas.

A criação em conjunto do escritor e do ilustrador, com suas riquezas nos detalhes e inspirações em um mundo real, convoca o lúdico. Num mundo repleto de informações, nesse espaço infantil de alegria, inocência e curiosidade pela pouca experiência com o mundo real, o objetivo de educar e ajudar os pequenos nos enfrentamentos das realidades diversas, é o que motivam as múltiplas narrativas.

Sem apenas o ‘certo’ e ‘errado’ para nortear os enredos, esse segmento se consolida com a missão ampliar esses olhares que tanto desejam aprender sobre o mundo. Há um enorme potencial de crescimento para esse tipo de literatura no Brasil, e com isso, os pequenos só agradecem.