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The Kick Inside: a revolucionária estreia de Kate Bush

Uma das mais interessantes artistas musicais de sua época, Kate Bush tem desde o início da carreira uma verdadeira joia em sua coroa. Tão pop quanto esquisito, o seu álbum de estreia The Kick Inside é a encenação dramática de uma mulher com muito a dizer. 

Capa do álbum The Kick Inside lançado em 1978. Reprodução.

Kate Bush sempre aparentou estar bem pouco preocupada com a má interpretação alheia. A cantora escreveu sua primeira música aos 13 anos, e já ali, dava pistas de que viria a ser uma das grandes e enigmáticas figuras da cultura pop.

Além de atuar como cantora, pianista e dançarina, Kate Bush destaca-se especialmente como letrista. Uma atmosfera visionária permeia o universo folclórico que a compositora criou. Em suas letras fala-se de sentimentos, meio ambiente, tecnologia e fé. Assuntos que fazem parte de uma boa e variada obra, derivada dos mais de 40 anos de carreira da distinta artista.

O pouco constrangimento – leia-se a ausência do medo de parecer ridícula, que menciona Margareth Tabolt em artigo sobre Kate ao The New Yorker – é bastante visível em The Kick Inside, seu primeiro álbum de estúdio. A jovem Kate canta a paixão como algo puro, um feito que só poderia ter sido genuinamente realizado por uma quase adolescente.

É um álbum maduro, e seria assim para qualquer um que o fizesse, mas a experiência que vemos no The Kick Inside é ainda mais surpreendente se pensarmos ter sido realizado a partir da prolífica cabeça de uma jovem de 19 anos, e não por uma veterana da música e das letras. 

Em fevereiro de 1978, foi lançada no Reino Unido a primeira tiragem do álbum. Apadrinhado por David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, que financiou a regravação da primeira demo da cantora e, também, produziu o álbum junto a uma equipe de veteranos do rock progressivo. A obra  estreou em terceiro lugar nas paradas britânicas. Apesar da influência masculina dos nomes por trás da produção – Andrew Powell, do The Alan Parsons Project, também esteve intimamente ligado  à realização – o álbum de Kate é feminino do início ao fim. Uma grande homenagem de Bush à  intelectualidade das mulheres que, assim como ela, possuem um pezinho na excentricidade.

Quem escuta o álbum pela primeira vez, encontra no meio da setlist uma melodia conhecida. Trata-se da super popular Wuthering Heights, livremente inspirada no romance de Emily Brönte e de clipe tão épico – e dançante – quanto a canção. Wuthering Heights foi o primeiro single de Kate. A balada romântica não foi a primeira escolha da gravadora, mas a cantora insistiu no que seria um grande acerto. Essa é, até hoje, a mais conhecida entre todas as músicas de Kate Bush.

As inspirações e o talento literário de Bush ficam evidentes a partir de suas letras inventivas. Um destaque da Kate escritora é a precisão de suas palavras provocativas, confiantes, radicais e místicas. Uma obra trabalhada absolutamente na suficiência. Um tanto difícil para ouvidos não acostumados, a música deste universo é divertida e dark. Finas baladas atemporais.

O memorável clipe de Wuthering Heights.

Na superinteressante The Saxophone Song, ouvimos uma vocalista de inspiração romântica cantar, em sua especialíssima voz soprano, uma canção perfeita para ser entoada a plenos pulmões, fazendo jus ao drama investido na letra. Tanto The Saxophone Song quanto Wuthering Heights foram escritas bem antes do álbum ser produzido. A jovem Bush teve influência da sua multi-artística família formada por sua mãe, dançarina irlandesa, seu pai, um pianista amador e seus  dois irmãos, ambos envolvidos na cena de música folk britânica.

Em Moving, faixa que abre o álbum, ouvimos sons de baleia – são vinte segundos de sinais oceânicos – antes de Kate começar a cantar sobre uma dança do espírito em função de uma paixão. As influências de natureza mística sentimental na música de Kate Bush tornaram-se referência para muitos artistas que vieram depois dela, a exemplo da islandesa Björk e da iraniana Sevdaliza.

A dramaticidade é tocável, desejos ternos e violentos misturam-se nas narrativas que compõem a obra. Em James and The Cold Gun, um soft rock que vem a ser uma das músicas mais divertidas – e palatáveis – do álbum, Kate lamenta que seu amigo de infância escolheu a vida do crime e vendeu sua alma para uma famigerada arma fria. Destaque para as guitarras ao final, em que pode-se perceber uma clara influência da levada pinkfloydiana, e para o refrão inegavelmente delicioso. 

Kate Bush, 20 anos, na Tour of Life (1979). Divulgação/ Getty Images.

Por último, citamos a faixa L’Amour Looks Something Like You, uma balada poderosíssima que compõe o álbum na décima posição. Até então o ouvinte já se habituou ao estilo um tanto maluquinho de Kate e compra, sem hesitação, o sofrimento cantado que toca no fundo de uma alma dada a exageros românticos. 

Apesar de ser exorbitante tanto nas letras quanto na melodia, The Kick Inside não peca pelo excesso. Tudo é calculadamente medido por uma produtora muito segura. Kate Bush, apesar de jovem, realizou um feito que muitos artistas passam a vida a tentar: criou, sem pretensões de grandeza, um épico sempiterno, que diverte e emociona na mesma medida.

Após o estrondoso sucesso do debute, Kate iniciou em 1979 uma turnê pela Europa que teve apenas três datas. A cantora resolveu largar os palcos após a sexta semana, voltando a se apresentar ao vivo somente 35 anos depois, em 2014, com a turnê “Before the Dawn”. Ao que percebemos, foi rápida a escolha de Kate em ser apenas artista, não celebridade.

A sofisticada Kate Bush ficou ainda mais reclusa após a experiência da maternidade nos anos 90. No entanto, o isolamento autoimposto não a impediu de fazer grandes álbuns durante as últimas décadas. Destacamos entre eles Never for Ever, Hounds of Love e The Red Shoes, lançados em 1980, 1985 e 1993 respectivamente. 

Se você leitor, ainda não conhece a extensa obra da inconfundível Kate Bush, recomendamos The Kick Inside como porta de entrada para o mundo das danças interpretativas, das letras profundas e da estimada voz aguda dessa que é uma das maiores artistas vivas da música pop.