Lei Aldir Blanc e as novas estratégias adotadas pelos festivais pernambucanos de cinema

Oficina realizada durante o festival de cinema Poesia na Tela. Foto: Arquivo Pessoal.

As recentes edições dos festivais de cinema pernambucano foram realizadas de modo remoto em respeito ao distanciamento social. Além de experimentar um novo formato de exibição do evento, os produtores buscaram cumprir novos objetivos para os festivais de cinema.  Essas ações foram possíveis devido a apoios culturais como a Lei Aldir Blanc. Essa iniciativa contribuiu com um auxílio financeiro para amenizar os impactos causados pela pandemia ao setor cultural.

Políticas que ultrapassam as telas

Cartaz da edição atual do Curta Taquary. Foto: Divulgação.

O festival de cinema Curta Taquary realizou a 14° edição de forma remota e gratuita, em função da pandemia. O festival de Taquaritinga do Norte, no Agreste de Pernambuco, com o tema Por Um Mundo Melhor, teve uma programação com produções voltadas para temáticas sociopolíticas e educativas ambientais.

Para cada filme inscrito no Curta Taquary, uma muda de espécie nativa foi plantada na cidade para contribuir com o reflorestamento e a recuperação de solo de áreas desmatadas e devastadas por queimadas, de acordo com o idealizador do festival, Alexandre Soares.

O fomento e o desalento da produção artística 

Um dos organizadores do festival, Devyd Santos, conta como foi a experiência de produzir e realizá-lo de forma inteiramente remota. Ele fala que no ano passado a dificuldade de realizar o evento  foi maior, pois não havia nenhum recurso financeiro que desse apoio,  estrutura e experiência com a produção remota.

O incentivo da lei Aldir Blanc proporcionou uma produção maior em relação aos anos anteriores e com mais alcance. O desafio da edição deste ano foi outro: realizar um festival em um momento crítico durante a pandemia.

Por isso os filmes da mostra foram selecionados com o critério de promover uma sensação de acolhimento. “O objetivo do festival na 14ª foi oferecer um alívio, um respiro ao público. Se você assistir apenas um dos filmes, você vai poder sentir esse afago”, explica o idealizador do Curta Taquary, Alexandre Soares.

O festival também sentiu uma queda no número de filmes inscritos, como animações, curtas e especialmente os filmes produzidos por universitários. Alexandre Soares conta que foi surpreendente a quantidade de filmes que foram feitos com uma boa qualidade apenas usando um celular e dentro de casa. 

Durante a entrevista, Alexandre enfatizou o quanto a pandemia trouxe perdas e falou a respeito de três cineastas que faleceram devido a Covid-19. O cineasta, roteirista e educador Geraldo Cavalcanti, o cineasta ilustrador e professor Sandro Lopes e o cineasta, editor e pós-produtor Ely Marques.

Poesia em telas virtuais e o futuro dos festivais

Sessão do Festival Poesia na Tela realizada antes da pandemia. Foto: Maria Ruana/Divulgação.

O Poesia na Tela é um festival de cinema realizado no sertão do Pajeú, em Pernambuco, que terá a sua sexta edição exibida de forma online do dia 21 ao dia 23 de abril. No ano passado, o festival não pôde ser realizado devido à falta de recursos financeiros. Mas os organizadores contam que neste ano, o festival será possível graças ao incentivo da Lei Aldir Blanc.

O organizador, Devyd Santos, também faz parte da produção do Poesia na Tela, e falou sobre quais mudanças a pandemia provocou no cinema brasileiro, sobretudo nos curta-metragens, que é o gênero cinematográfico trabalhado pelo evento.

Antes da pandemia era complicado ter a liberação das produtoras para disponibilizar um filme na internet, porque as produtoras se preocuparam, primeiro, em exibir os filmes em festivais e isso demandava tempo. Mas com a chegada da pandemia, muitos filmes que tinham estreias previstas para festivais, tiveram que ser lançados de forma aberta nos espaços virtuais. O que  acabou tornando o curta-metragem nacional mais acessível.

A arte como fuga para o atual momento

Os cineastas Devyd Santos e Alexandre Soares falam coisas semelhantes: há uma oscilação de sentimentos a respeito de realizar o festival audiovisual neste ano. Apesar de estarem felizes por poder exibir os festivais, os produtores apontam um sentimento de tristeza em relação à situação geral do país.

“A arte foi quem deu uma certa fuga a quem estava em casa e é o que nos conforta, o que nos faz pensar em estratégias, em soluções que leve de alguma forma um acalanto para quem está em casa. Um abraço, uma mensagem positiva, esse é o nosso maior cuidado”, desabafa Devyd.

A respeito das expectativas para o futuro do cinema brasileiro após a pandemia, ele acredita  que quando a pandemia acabar, as versões online não deixarão de acontecer, e os festivais serão realizados de forma híbrida: online e presencial.  “Isso é muito bom porque a gente acaba abraçando um público maior, pois deixamos de estar restritos às presenças físicas, mas sem perder a magia do cinema que é poder assistir os filmes naquela  tela grande, com som adequado”, finaliza o cineasta.

Reconstruções do Festival de Cinema de Caruaru

Encontro virtual dos organizadores do Festival de Cinema de Caruaru. Foto: Arquivo Pessoal.

O Festival de Cinema de Caruaru teve sua oitava edição: raízes em movimento, exibida remotamente entre os dias 15 e 30 de Março. Essa foi a segunda edição em que o festival foi realizado por meio das plataformas digitais. 

Sobre os desafios de fazer um festival de audiovisual online, o idealizador do Festival de Cinema de Caruaru, Edvaldo Santos, conta que as maiores dificuldades foram na primeira edição remota, devido a falta de experiências com as plataformas online. Já na edição deste ano, o apoio da Lei Aldir Blanc e os parceiros do festival contribuíram para que o festival pudesse colocar em prática oficinas com cineastas remunerados, alcançando um amplo público. 

O objetivo do festival na edição deste ano foi levar um conteúdo que ao mesmo tempo que fosse leve, compreendesse a fragilidade das pessoas neste momento. A programação buscou provocar uma reflexão no público, ao mesmo tempo que buscou levar um certo conforto para o público. “Buscamos aglutinar filmes que tenham um caráter reflexivo, mas fortemente engajado numa proposta de construção e de reconstrução”, explica o cineasta Edvaldo Santos.

Confira a lista dos vencedores da oitava edição do Festival de Cinema de Caruaru e da 14º edição do Curta Taquary que foram anunciados em cerimônias virtuais nos últimos dias.

Filmes vencedores do Festival de Cinema de Caruaru.

Filmes vencedores do Festival Curta Taquary.