Interlúdio do cotidiano

Um reflexão sobre a velocidade do cotidiano e a necessidade de uma pausa
Foto do “ensaio sobre a loucura”, de Gui Mohallem

É necessário parar um momento. Apertar a pausa no corre corre do cotidiano para que eu tenha também noção de controle. É uma forma de me lembrar de que, apesar de não controlar o tempo, o dia, o momento em que o sol se põe, o tempo que leva para o café esfriar ou até mesmo a hora em que o cansaço vem, tenho um mínimo controle sobre alguma coisa: eu mesmo. Pausar talvez seja necessário para ter uma mínima noção de poder, uma vez que sobre tanto e tantas vezes o que resta é assumir que a vida é um eterno reencontro com a ignorância e com a impotência.

Ter uma pausa em 24h talvez se explique pela mesma razão que há crônicas no meio de notícias cotidianas, de matérias exatas, econômicas e sociais. Porque o consumo constante dessa realidade puramente material tem um sabor cru. Melhor, tem sabor salgado, às vezes salgado demais, um tanto incomível, intragável. É necessário algo que quebre com a constância salgada das coisas porque, talvez, viver apenas dessa materialidade pura e objetiva seja querer matar a sede bebendo água do mar.

Por isso Ferreira Gullar afirmava que a arte é necessária porque a vida não basta. A arte também é uma pausa. Também por isso a poesia é uma inutilidade deveras útil, com licença a Manoel de Barros, que brincou com a ideia de que a poesia não serve para nada. E é justamente aí que muito provavelmente esteja o que importa: nessa pausa da utilidade, nessa pausa de produtividade contínua, nessa pausa de algo servir para outra coisa, para uma finalidade específica e muitas vezes rentável. 

Não falo apenas de uma pausa física, um tempo de cochilo, mas sim de uma pausa mais próxima da meditação, sem necessariamente meditar. Um interlúdio artístico do cotidiano. Principalmente nestes dias em que tudo parece estar fora de controle e em que tudo sai facilmente do controle. Vez ou outra acelero demais o pensamento, o olhar, a fala e quando me dou conta: perco o controle e invado a contramão de mim. 

É na desatenção dos sentidos que as coisas desandam. Certamente quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto não fez uma pausa no seu atribulado dia, hora, ano, ou seja lá qual fosse a medida usada para contar o tempo antes do tempo ser criado. Não parou um fim de tarde para provar mais uma vez o riso, não esperou terminar a música: o modo de contar os minutos no cozimento do sentido. E talvez tenha lido rápido demais a receita-poema.

É preciso parar um instante para um último segundo de café, um último gole de sol. Restabelecer a fé, desamarrar um nó. Deixar que o ar me respire; que os pássaros me observem, que nuvens me invejem por conseguir parar.

Para que o poema me leia e chore porque lhe dei sentido. Porque é em mim que ele consegue se expressar e fluir, escorrer, desaguar. Sair de si.

E sair de si é se libertar.

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